Drikalização
O psicólogo Spielberg conseguiria
transformar Drika em vítima dos pais Stênio e Helô, em “Salve Jorge”. O
grande diretor de Hoolywood não estaria de todo errado, e para ele seria
facílimo tal operação uma vez que todos os seus filmes possuem esse
tema explícito ou implícito: culpa dos pais em relação aos filhos, ou
então ausência dos pais sentida descomunalmente pelos filhos. Mas Drika
tem um componente em sua personalidade que até mesmo Spielberg não
conseguiria acomodar ao figurino de um bípede-sem-penas, um humano: ela é
completamente avessa a qualquer existência na face da Terra que não
seja a dela e de sua extensão física, seu parceiro Pepeu; ela tem uma
necessidade única na vida, que é dinheiro para a sua manutenção como
completa e absurda incapacidade de trabalhar. É o estereótipo carioca
elevado a enésima potência.
Antes de ser inconsequente, Drika é o
conceito de inconsequência. Aliás, está de parabéns quem escolheu
Mariana Rios para o papel de Drika. A atriz é bela e ao mesmo tempo
consegue fazer a cara da pessoa menos sensibilizada com a vida do outro
que se pode ter nesse nosso planeta. Drika não aparenta maldade,
aparenta a típica soberania infantil do que chamaríamos de “o pequeno
tirano”. Por isso mesmo, a consequência da sua inconsequência é a
maldade. Escraviza os pais. Quer escravizar o mundo à medida que é
totalmente dependente dos pais e do curso dos acontecimentos do mundo.
O mundo de Drika é o mundo dos tiranetes
da atualidade, os “jovens de hoje” que, segundo a psicologia atual
estampada nos manuais, nos jornais e na revista Contigo,
cresceram com pais permissivos e condescendentes demais. Quando de
classe média, esses garotos tem como modelo Drika, ela própria autora de
um discurso bem comum, o de que cresceu dividida entre a disputa da mãe
e do pai, que queriam agradá-la para tê-la como objeto e moeda de troca
em conflito deles próprios. Mas Drika não existe só na classe média.
Quando mais pobres, os garotos e garotas que seguem o modelo drikiano se
metem em encrencas mais depressa, e então são arrastados pelo destino,
às vezes desaparecendo em buracos negros das favelas e guetos do mundão.
E se as novelas me dão os exemplos, então podemos lembrar aqui do filho
da doméstica de Tufão, instrumentalizado por Carminha, na novela
“Avenida Brasil”.
Essa tirania cheia de hormônios deveria
ocorrer na pré-adolescência, por volta dos 9 a 11 e 12 anos. Ela salta
aos olhos, agora, porque ocorre com pessoas adultas, ou seja, jovens de
19 a 30 anos. Não raro, tal comportamento pode se manifestar até mais
tarde, revelando-se algo meio patológico. Nesses casos, não só a família
ou bairro sofrem. Mais gente pode se envolver. Até mesmo países
inteiros podem naufragar na emergência do drikianismo, quando uma pessoa
no estilo Drika se transforma, sabe-se lá como, em governante. Dizem
alguns que essa é a história da Coreia do Norte, hoje. Foi mais ou menos
quase a nossa história, com Collor na presidência.
Qualquer junção de Drika com a política é
cruel. Na universidade atual essa junção ocorre em bandos diminutos que
se articulam no que restou da “política estudantil”. Formam os
grupelhos de esquerda e, às vezes, também de direita – sim, o que restou
do movimento yuppie se contrapõe ao que restou do imbróglio tardio de
“fim de comunismo”. É o rebotalho hormonal do ideal de juventude
proposto por Lênin-Stalin junto ao seu equivalente à direita proposto
por Margareth Thatcher. Essas Drikas políticas não querem estudar.
Querem “passar”. Querem bolsa de estudos (sim, a direita, que critica as
bolsas, também as quer!). Querem o silêncio dos professores que teimam
em ensinar, ou seja, os que não compactuam com os que são pregadores
ideológicos à esquerda e à direita. Mas, antes de tudo, essas Drikas
universitárias querem uma coisa: a ignorância. À direita e à esquerda,
tais meninos e meninas cultivam a frase feita, o jargão e o discurso
pronto. Nesse caso, a Drika da novela é melhor.
As Drikas são garotas e garotos com falta total de vocação para a reflexão, para o pensar, no sentido dado por Hannah Arendt a esse termo, especialmente na introdução de A vida do espírito.
Nesse livro, Arendt mostra o nazista como o típico não-pensante, como o
não dotado de consciência. Trata-se de um tipo de burro, no qual a
falta moral se associa à falta de capacidade de decisão inteligente.
A queda de qualidade do ensino médio
brasileiro e o fim dos exames vestibulares contribuíram para que as
Drikas – e mesmo os Pepeus – entrassem para as universidades, até mesmo
as tidas como boas. Assim, num ambiente em que a cooperação é a base da
investigação, surgem os que nada investigam e que são avessos à
cooperação. Drikas vivem individualmente falando da necessidade de todos
viverem em conjunto. Drikas são pessoas que não conseguem pensar no
outro, mas que, nas poucas horas que passam na universidade, ou então,
nas muitas uma vez que ficam nos alojamentos da “moradia”. São os que
fazem um discurso cujo conteúdo elas próprias não seguem e sequer
entendem: o da ajuda-mútua. Essa cooperação vem em forma de ideia de
exército socialista comandada pelo Estado, para as Drikas de esquerda,
ou então aparece na forma de sistemas de mérito aparentemente
individualista, que no fundo esconde apenas o desejo de reverenciar a
hierarquia emergente no final do processo e que deve repetir aquela já
posta no início do processo, por parte das Drikas de direita.
Essa drikolândia aparentemente tem pouco
controle, hoje, da universidade, ao menos como movimento organizado.
Mas a mentalidade posta por ela conquista outros ou ao menos força a
maioria a ficar mais quieta do que já está. Quando menos se espera,
surgem contra algum professor e cometem injustiças e barbáries. Os
professores sabem que precisam se engajar no contexto das Drikas da
esquerda, e, ao mesmo tempo, conversar no bar da cerveja,
individualmente e meio que sorrateiramente, com as Drikas da direita.
Principalmente o professor que almeja cargo, sabe que sem esses dois
tipos de poços de hormônios e de burrice ele não se elege a cargo algum
na universidade. Pois essas pessoas são o que existe de ativo na escola,
em época de eleição e reivindicação. A esquerda segue no embalo do
barulho, a direita, ao menos a escolar, atua em surdina. São poucas as
escolas em que isso se inverte completamente, embora nos dias de hoje já
exista um bom grupo de pessoas que fala alto “eu sou de direita”, como
se isso fosse algo do qual se pudesse orgulhar.
Ser de direita, hoje, não é ser nazista,
mas é falar tudo que parte do nazismo falava embrulhado com uma capa
cheia de referências ao velho liberalismo, o de Locke, e não o novo, o
de Rawls. Locke pincelado com Nozick, mas com fundo do oposto, ou seja,
do fascismo – este seria o discurso da direita hoje, caso pudéssemos
supor que as Drikas fossem como ontem, quando a esquerda e a direita,
mesmo chatas, liam alguma coisa. Os discursos atuais da esquerda e da
direita, em grupos estudantis, são da cultura oral. Nunca essa garotada
leu outra coisa que não os velhos slogans estampados nos muros
envelhecidos, feitos não pela minha geração, mas pela geração do
Lindenberg Farias, ele próprio uma figura tão pastiche quanto seu
análogo na direita, o pastor Feliciano.
Essa drikanização da universidade é
cruel para os professores que ainda são intelectuais. Mas não por conta
das perseguições ideológicas perigosas, levadas adiante por esses dois
grupos e, às vezes, açodada por dirigentes pouco sóbrios, mas por outras
razões, até mais simples: nenhum de nós merece ter algum filho assim e,
depois, uma vez na escola superior, no trabalho, ter de aguentar filhos
dos outros também nesse estilo. E isso tudo sob o mais tétrico dos
mantos, o da droga, que está longe de ser a droga dos anos sessenta, a
das festas.
© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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