13 de abr de 2013

Drikalização

O psicólogo Spielberg conseguiria transformar Drika em vítima dos pais Stênio e Helô, em “Salve Jorge”. O grande diretor de Hoolywood não estaria de todo errado, e para ele seria facílimo tal operação uma vez que todos os seus filmes possuem esse tema explícito ou implícito: culpa dos pais em relação aos filhos, ou então ausência dos pais sentida descomunalmente pelos filhos. Mas Drika tem um componente em sua personalidade que até mesmo Spielberg não conseguiria acomodar ao figurino de um bípede-sem-penas, um humano: ela é completamente avessa a qualquer existência na face da Terra que não seja a dela e de sua extensão física, seu parceiro Pepeu; ela tem uma necessidade única na vida, que é dinheiro para a sua manutenção como completa e absurda incapacidade de trabalhar. É o estereótipo carioca elevado a enésima potência.

Antes de ser inconsequente, Drika é o conceito de inconsequência. Aliás, está de parabéns quem escolheu Mariana Rios para o papel de Drika. A atriz é bela e ao mesmo tempo consegue fazer a cara da pessoa menos sensibilizada com a vida do outro que se pode ter nesse nosso planeta. Drika não aparenta maldade, aparenta a típica soberania infantil do que chamaríamos de “o pequeno tirano”. Por isso mesmo, a consequência da sua inconsequência é a maldade. Escraviza os pais. Quer escravizar o mundo à medida que é totalmente dependente dos pais e do curso dos acontecimentos do mundo.

O mundo de Drika é o mundo dos tiranetes da atualidade, os “jovens de hoje” que, segundo a psicologia atual estampada nos manuais, nos jornais e na revista Contigo, cresceram com pais permissivos e condescendentes demais. Quando de classe média, esses garotos tem como modelo Drika, ela própria autora de um discurso bem comum, o de que cresceu dividida entre a disputa da mãe e do pai, que queriam agradá-la para tê-la como objeto e moeda de troca em conflito deles próprios. Mas Drika não existe só na classe média. Quando mais pobres, os garotos e garotas que seguem o modelo drikiano se metem em encrencas mais depressa, e então são arrastados pelo destino, às vezes desaparecendo em buracos negros das favelas e guetos do mundão. E se as novelas me dão os exemplos, então podemos lembrar aqui do filho da doméstica de Tufão, instrumentalizado por Carminha, na novela “Avenida Brasil”.

Essa tirania cheia de hormônios deveria ocorrer na pré-adolescência, por volta dos 9 a 11 e 12 anos. Ela salta aos olhos, agora, porque ocorre com pessoas adultas, ou seja, jovens de 19 a 30 anos. Não raro, tal comportamento pode se manifestar até mais tarde, revelando-se algo meio patológico. Nesses casos, não só a família ou bairro sofrem. Mais gente pode se envolver. Até mesmo países inteiros podem naufragar na emergência do drikianismo, quando uma pessoa no estilo Drika se transforma, sabe-se lá como, em governante. Dizem alguns que essa é a história da Coreia do Norte, hoje. Foi mais ou menos quase a nossa história, com Collor na presidência.

Qualquer junção de Drika com a política é cruel. Na universidade atual essa junção ocorre em bandos diminutos que se articulam no que restou da “política estudantil”. Formam os grupelhos de esquerda e, às vezes, também de direita – sim, o que restou do movimento yuppie se contrapõe ao que restou do imbróglio tardio de “fim de comunismo”. É o rebotalho hormonal do ideal de juventude proposto por Lênin-Stalin junto ao seu equivalente à direita proposto por Margareth Thatcher. Essas Drikas políticas não querem estudar. Querem “passar”. Querem bolsa de estudos (sim, a direita, que critica as bolsas, também as quer!). Querem o silêncio dos professores que teimam em ensinar, ou seja, os que não compactuam com os que são pregadores ideológicos à esquerda e à direita. Mas, antes de tudo, essas Drikas universitárias querem uma coisa: a ignorância. À direita e à esquerda, tais meninos e meninas cultivam a frase feita, o jargão e o discurso pronto. Nesse caso, a Drika da novela é melhor.

As Drikas são garotas e garotos com falta total de vocação para a reflexão, para o pensar, no sentido dado por Hannah Arendt a esse termo, especialmente na introdução de A vida do espírito. Nesse livro, Arendt mostra o nazista como o típico não-pensante, como o não dotado de consciência. Trata-se de um tipo de burro, no qual a falta moral se associa à falta de capacidade de decisão inteligente.

A queda de qualidade do ensino médio brasileiro e o fim dos exames vestibulares contribuíram para que as Drikas – e mesmo os Pepeus – entrassem para as universidades, até mesmo as tidas como boas. Assim, num ambiente em que a cooperação é a base da investigação, surgem os que nada investigam e que são avessos à cooperação. Drikas vivem individualmente falando da necessidade de todos viverem em conjunto. Drikas são pessoas que não conseguem pensar no outro, mas que, nas poucas horas que passam na universidade, ou então, nas muitas uma vez que ficam nos alojamentos da “moradia”. São os que fazem um discurso cujo conteúdo elas próprias não seguem e sequer entendem: o da ajuda-mútua. Essa cooperação vem em forma de ideia de exército socialista comandada pelo Estado, para as Drikas de esquerda, ou então aparece na forma de sistemas de mérito aparentemente individualista, que no fundo esconde apenas o desejo de reverenciar a hierarquia emergente no final do processo e que deve repetir aquela já posta no início do processo, por parte das Drikas de direita.

Essa drikolândia aparentemente tem pouco controle, hoje, da universidade, ao menos como movimento organizado. Mas a mentalidade posta por ela conquista outros ou ao menos força a maioria a ficar mais quieta do que já está. Quando menos se espera, surgem contra algum professor e cometem injustiças e barbáries. Os professores sabem que precisam se engajar no contexto das Drikas da esquerda, e, ao mesmo tempo, conversar no bar da cerveja, individualmente e meio que sorrateiramente,  com as Drikas da direita. Principalmente o professor que almeja cargo, sabe que sem esses dois tipos de poços de hormônios e de burrice ele não se elege a cargo algum na universidade. Pois essas pessoas são o que existe de ativo na escola, em época de eleição e reivindicação. A esquerda segue no embalo do barulho, a direita, ao menos a escolar, atua em surdina. São poucas as escolas em que isso se inverte completamente, embora nos dias de hoje já exista um bom grupo de pessoas que fala alto “eu sou de direita”, como se isso fosse algo do qual se pudesse orgulhar.

Ser de direita, hoje, não é ser nazista, mas é falar tudo que parte do nazismo falava embrulhado com uma capa cheia de referências ao velho liberalismo, o de Locke, e não o novo, o de Rawls. Locke pincelado com Nozick, mas com fundo do oposto, ou seja, do fascismo – este seria o discurso da direita hoje, caso pudéssemos supor que as Drikas fossem como ontem, quando a esquerda e a direita, mesmo chatas, liam alguma coisa. Os discursos atuais da esquerda e da direita, em grupos estudantis, são da cultura oral. Nunca essa garotada leu outra coisa que não os velhos slogans estampados nos muros envelhecidos, feitos não pela minha geração, mas pela geração do Lindenberg Farias, ele próprio uma figura tão pastiche quanto seu análogo na direita, o pastor Feliciano.

Essa drikanização da universidade é cruel para os professores que ainda são intelectuais. Mas não por conta das perseguições ideológicas perigosas, levadas adiante por esses dois grupos e, às vezes, açodada por dirigentes pouco sóbrios, mas por outras razões, até mais simples: nenhum de nós merece ter algum filho assim e, depois, uma vez na escola superior, no trabalho, ter de aguentar filhos dos outros também nesse estilo. E isso tudo sob o mais tétrico dos mantos, o da droga, que está longe de ser a droga dos anos sessenta, a das festas.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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