04/03/2006

O que restou dos frankfurtianos e dos "frankfurtianos"?


A universidade brasileira está destroçada. Mas no início dos anos noventa, quando esse final de festa ainda estava nos primeiros drinques, e quando os da minha geração (intelectual e não apenas cronológica) gastavam algumas de suas últimas horas de paciência indo em congressos ditos científicos, escutei algo fantástico de um auto-proclamado scholar da filosofia da Escola de Frankfurt. Ele disse na mesa do bar, ao lado da piscina (onde mais poderia ser?): "ler Adorno é lindo, não é?". Eu respondi: "não, é triste, é terrível ler Adorno mais que uma vez em seis meses, pois a gente entra em depressão". Fiquei estupefato quando percebi que o homem não havia entendido o que eu disse. Para ele, ler Adorno era uma ... uma diversão!

Esses adeptos "pé-de-chinelo" do que acreditam que se chama "teoria crítica" estão em dois grupos, hoje. E isso é semelhante quase que no mundo todo: o primeiro grupo é o dos que Adorno chamaria de pseudo-intelectuais; os do segundo, os que são simplesmente marxistas (meio que estalinistas ainda), mas que não podem mais advogar o marxismo, dado a o estado de descrédito de tal teoria.

Os primeiros são os "professorzinhos" de universidades, em geral das estatais. Nunca conseguiram ler o Minima Moralia direito. Não conseguem adentrar na filosofia de Adorno ou de Horkheimer - muito menos na de Benjamin - pois lhes falta tudo: Hegel e Freud, Nietzsche, Schopenhauer e principalmente Platão. Só conseguem abordar os temas de Frankfurt pelo lado da sociologia, que em geral é o que eles, Adorno e Horkheimer, faziam de pior. Nesse caso, a eleição pelo tema da "indústria cultural" é o preferido. Acham que tudo é "indústria cultural". Tudo para eles está envolto em "ideologia". Não conseguem ter a mínima idéia de que ideologia e teoria platônica-da-alegoria-da-Caverna estão interligadas e que Adorno passou a vida toda tentando se livrar (ainda que não tenha conseguido) do platonismo ou do que ele chamava de "metafísica". Não conseguem explicar minimamente o que Foucault chamou de "jogo de espelhos": "como que podemos dar crédito para o discurso que denuncia a ideologia se todos estamos no interior da ideologia?" E não vêem as conseqüências de um subproduto disso, aliás, exposto no prefácio do livro Dialética do Iluminismo: "como não acusar de ideológico o discurso que prentende denunciar a ideologia?" Eles sequer conseguem entender essas formulações retro-dirigidas. Portanto, eles próprios não chegaram a compreender a maior parte dos escritos frankfurtianos.

Esse pessoal, em congressos, é simplesmente o que nos faz ver o quanto nada se pode aprender mais na academia no âmbito de grupos "críticos". Habermas tratou de se afastar dessa gente, mesmo nos países centrais, e não só na periferia.

Pois na periferia, o que há mesmo nem é isso, é o outro tipo, o do segundo grupo: trata-se daquele que era marxista, e que passou um tempo ressentido e, então, abraçou tudo que mais criticava: a Escola de Frankfurt. Quantos e quantos da "linha dura" do marxismo não são agora denominados scholars frankfurtianos?! Vivem uma fase política que a Alemanha passou nos anos dez e vinte - "a derrota da revolução" (Muro de Berlim e crise do PT - isso é que os move, nada mais, pois a única coisa que lêem é jornal). Vivem em um clima que se Adorno e Horkheimer estivessem aqui, hoje, classificariam como irrepetível na Alemanha e em qualquer outro lugar. Esse pessoal é simplesmente oportunista, e, é claro, intelectualmente medíocre. Usam dos frankfurtianos apenas para defender o anti-americanismo que sempre defenderam (anti-americanismo que confundiam e confundem com anti-capitalismo). Desses, Habermas não só quer distância, ele os despreza. Eles são quase xenófobos, e sabemos bem onde isso vai dar!

Tudo isso que escrevo é muito triste. Ainda que eu não tenha construído minha própria forma de filosofar em somente em cima do marxismo e da Escola de Frankfurt, considerei e ainda considero a obra de Adorno e Horkheimer um monumento intelectual de inestimável valor. É impossível entender uma boa parte do cotidiano do século XX sem ter lido o livro Minima Moralia, onde Adorno tenta, até chegar mesmo na derrota final, alcançar um ponto de apoio filosófico que faça com que ele possa justificar a sua denúncia do fim da subjetividade moderna. Para quem transita para a filosofia analítica e para o pragmatismo, e chega nessas pradarias com um ponto de vista de quem esteve "do outro lado", ou seja, com os continentais, é angustiante ver como Adorno, no último ano de vida, entre 1968 e 1969, está dilacerado intelectualmente, na busca de uma teoria da subjetividade que se sustente mesmo após o fim do sujeito. A idéia básica da busca adorniana, que no caso de Horkheimer levou a uma tragicidade menor, era a seguinte: como podemos passar pela experiência, se admitimos que todos nós estamos imersos na reificação? Como saberíamos que não estamos falando em pseudo-experiência, se nós mesmos, em filosofia, nos convencemos que a experiência foi empobrecida de um modo que ninguém teria, hoje, condições de vivê-la plenamente?

Ora, para quem veio para o campo de Rorty (e mesmo de Putnam e outros) e, principalmente, de Davidson, e foi banhado pelos frankfurtianos, é fácil deixar o sujeito de lado sem abrir mão da identidade, por meio da teoria do agente e da ação, e é razoável deixer a velha teoria do sujeito de lado, sem perder uma noção de subjetividade, que pode se sustentar por meio do conceito de intersubjetividade. Mas para quem não atravessou o Atlântico em direção à filosofia analítica restaurada pelo pragmatismo, e ficou no velho Continente, o que restaria? A Hermenêutica de Gadamer? A história da verdade e do sujeito de Foucault? A desconstrução de Derrida? Ora, mas em todos esses casos, haveria uma ponte com o interpretacionismo de Rorty e Davidson. E a própria vida filosófica de Habermas espelha isso. Mas quem não teve background filosófico para atravessar o Atlântico (até pelo fato de que, tendo ficado no Continente, não estava nele de fato, e sim nas colônias do Terceiro Mundo) nem mesmo chegou a entender o sofrimento intelectual de Adorno.

Esses, então, vão continuar achando que falar que há violência e consumismo na TV é falar alguma coisa da "indústria cultural". E vão se auto-proclamar frankfurtianos. Como Marx, também a Escola de Frankfurt merecia melhores seguidores. Ao menos seguidores um pouco mais cultos. Mas não teve. Habermas, o homem que viveu em Frankfurt, viu a não possibilidade disso, e abandonou o barco.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo -
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