01/03/2006

Ética, Moral e Escola



Debates sobre ética e rebeldias na escola entopem revistas sobre escola e educação. A conversa, não raro, tem um tom conservador. Alguns culpam os professores, pois eles ensinariam o desrespeito uma vez que eles próprios não se respeitariam, apresentando-se “desmotivados e sem conhecimento”. Outros falam que a vida “no Brasil” ou a “vida de hoje” ensina a “lei de tirar vantagem em tudo”. Um outro acredita que “os políticos com seus mensalões” dariam modelos de uma vida desregrada para a juventude. Por fim, há os que atacam a TV, pois ela estaria jogando-nos no “mar revolto do sexo, drogas e violência”. Em todos os casos, não há quem não termine o discurso com a velha frase que não diz nada: “no meu tempo não era assim, havia respeito, autoridade”. Podem ler os debates – essa é a regra. Isso cansa, não?

As opiniões acima poderiam ser colocadas no mesmo patamar daquela de Adão, ao ver Caim matando Abel. Notando o que estava acontecendo dentro de casa, ele comentou:

---Eva, Eva, veja lá, os meninos estão brigando novamente.
---Estou vendo, estou vendo Adão, esses meninos são sapecas mesmo.
---Eva, Eva, mas o Abel está apanhando feio nas mãos do Caim.
---Adão, meu querido, sempre lhe disse que Caim era mais esperto, não me vá tomar partido heim? Isso traumatiza os meninos.
---Eva, Eva, mas eles estão se matando! O que vai ser do mundo, essa juventude não respeita mais nada, não é?
---Adão, são os novos tempos: nem adianta você ir lá repreender. Daqui a pouco eles mesmo param, você verá. Eles cansam.
---Puxa, Eva, mas ta feia lá a coisa!
---Olha, meu marido, estou para dizer que se eles vissem a tal da serpente, eles dariam um nó nela! Esses meninos são terríveis – mas não vá lá não! Deixe-os extravasar. Os psicanalistas disseram que com a vida dentro de casa, de hoje em dia, é bom que eles em um determinado momento extravasem fisicamente. No nosso tempo era tudo criado solto, lembra? Tinha o paraíso inteiro. Agora esses meninos ficam o dia todo em casa!
---Sim, Eva, tudo bem, a gente tinha o paraíso e a gente também era sapeca, não? A gente nem temia a Deus! Mas lembre-se, Eva, a gente ao menos seguia alguma coisa, por exemplo, você seguia o Diabo e vivia comendo todas aquelas maçãs.
---Essa juventude, Adão, não acredita em nada, nem em Deus nem no Diabo. Mas são bons meninos e eles cansam logo e vão dormir.
---Eva, acho que você está certa. Agora, por favor, fale para Caim ir dormir e pegue o Abel, pois este aí já pegou em sono bravo, está até estendido lá na cozinha. Tire ele de lá, por favor, que eu agora não vou não que vai começar o jogo na TV.

Essa conversa aconteceu já faz tempo – no início dos Tempos. Mas já era motivo para um erro conceitual que aparece nos debates; um erro que se repete desde então e não pára mais de acontecer, mesmo que os debatedores se mostrem qualificados por meio de uma série de diplomas universitários. Eis o erro: a confusão entre ética e moral. Por medo de não seguir a moral de Eva, Adão deixa que Caim cometa uma falta ética.

Uma pequena explicação ajudará o leitor entender melhor de modo a não cometer mais o mesmo erro.

Ética vem da palavra grega éthos. Os gregos podiam gravar éthos com a letra “eta” (Ё) e com a letra “épsilon” (Â). No primeiro caso, éthos significava costumes e hábitos; no segundo caso, costumes e hábitos também, mas acrescida da idéia de comportamentos associados ao temperamento. Sabemos que a vida individual dos gregos em nada se parecia com a nossa. A vida democrática deles também não era como a nossa vida democrática. Eles viviam na pólis e para a pólis. Mantendo uma “unidade” com a cidade, seus hábitos particulares, do âmbito privado, se fundiam com seus hábitos coletivos. Sendo assim, regras de conduta coletivas e individuais se aproximavam muito. O temperamento, algo do indivíduo, seria o elemento diferenciador.

No nosso caso, nossa vida democrática tem a ver não somente com o governo do demos, do povo, como na Grécia. Nossa democracia se articulou com a doutrina moderna do liberalismo, a idéia de “viver e deixar viver”, a idéia do comércio livre, do ir-e-vir livre, a idéia da tolerância (religiosa e de outros tipos) e, enfim, o apreço pelas “liberdades e garantias individuais” diante de poderes coletivos, como o poder emanado do demos no comando da política. Nossa democracia liberal, portanto, pressupõe uma cidade onde a vida individual se põe diante de seu Outro, a cidade moderna. Daí que regras coletivas e regras individuais não diferem apenas por conta de “temperamento”. Diferem por uma série de outras razões, inclusive, por exemplo, pelo fato dos habitantes da cidade, os cidadãos, poderem ser de nacionalidades diferentes – a cidade moderna contém, digamos assim, “gregos” e “bárbaros” com título de cidadania. Assim, apreendemos uma palavra distinta de éthos para denominar costumes e hábitos que são do âmbito do individual e do privado. Usamos a palavra latina mores. Daí a palavra “moral”.

Portato, ética tem a ver com regras postas para nós todos enquanto habitantes da cidade, enquanto transeuntes no interior da esfera pública; e moral tem a ver com as regras postas para nós em nossa vida individual, familiar, íntima – quando somos transeuntes da esfera privada. Por isso mesmo, problemas relativos a relações conjugais e sexuais são ditos problemas morais, enquanto que problemas de corrupção de governo são ditos problemas éticos.

O que ocorre na escola quando um aluno desconsidera ou mesmo agride um professor ou outros colegas?

Não se trata de um problema novo quando a questão é moral. Aluno “sem educação”, “sem berço”, como diziam as pessoas no passado, sempre existiu, existe e vai continuar existindo. Quando os professores reclamam de faltas morais, eles não nos contam nada de novo. O novo seria, então, o possível aumento de atitudes que desconsideram a ética, ou seja, condutas que desrespeitam o que deveríamos seguir no âmbito da esfera pública, levadas adiante por jovens que, uma vez na escola, deveriam ali aprender a como se comportar na esfera pública – pois na esfera privada deveriam seguir os pais, ainda que se possa argumentar que isso não seria interessante diante da “pobreza” ou “do modo que a família estaria se fazendo atualmente”.

Assim, desrespeito verbal ao professor ou aos colegas pode ser um início de uma conduta moralmente indesejável, revelando uma atitude de “falta de modos” no âmbito familiar, e se enquadrando no campo da “falta moral”. Mas esse mesmo desrespeito verbal ao professor, se evoluiu para a idéia de que todo e qualquer aluno que faz a mesma coisa está agindo corretamente, “tem esse direito”, então o indivíduo que assim pensa e age está a um passo de começar a cometer “falta ética”. A escola como um todo, enquanto instituição social – uma instância da esfera pública – é um local em que todos da sociedade legitimaram e assim fizeram legitimando também funções que deveriam funcionar da seguinte maneira: o professor ali dentro é uma autoridade intelectual e moral, e o aluno ali dentro é alguém que, em princípio, deve segui-lo. Quebrar essas regras não como indivíduo “sem modos”, mas como aquele que subverte o éthos, querendo que na escola não valha mais a autoridade intelectual e moral do professor, isso é uma “falta ética”.

É claro que cada caso é um caso. Leis gerais, sem ter o caso na mão, não valem. O desrespeito ao professor por parte de um aluno precisa ser caracterizado como desrespeito naquilo em que o professor está legitimado, por estar na escola, a fazer. Então, é necessário que tenhamos a história do caso na mão para qualquer julgamento. Mas, no ponto de partida, devemos saber onde é que há a “falta moral” e onde é que há a “falta ética”. Se não sabemos isso, não saberemos qual tipo de punição aplicar. Pois “falta moral” pode ou não receber punição escolar. Muitas vezes é melhor que receba punição em seu local próprio, no lar. Mas a “falta ética”, nesse caso não: obrigatoriamente ela envolve a punição dada pela escola.

Psicólogos, filósofos da educação e outros, atualmente, confundem isso tudo. Então, aplicando as punições sem qualquer critério, criam pais revoltados, jovens deseducados, escolas fora de sintonia com a vida culta. Essas pessoas vivem dando entrevistas em revistas de educação, reiterando Adão e Eva. No caso, Adão olhou para seu filho como quem poderia deixar a briga acontecer, pois disputa entre irmãos seria disputa entre irmãos – seguindo a idéia de “extravasamento” da moral de Eva. Mas o fim foi o que conhecemos: Caim cometeu uma “falta ética”. No âmbito da cidade, matar é crime.

Suspensão do aluno das aulas e comunicação disso aos pais por causa de que o aluno disse ao professor “seu filho da puta”, pode ser um erro. Não digo que é um erro. Pode ser. Pois “seu filho da puta” pode ser um palavrão que indica uma “falta moral”, poderia ter sido corrigido em casa e, na falta da casa, pelo professor, em uma situação particular, fora da sala de aula – privadamente. Educação é educação moral, também. Então, o professor, vendo isso, pode tentar entrar nessa seara que, enfim, sempre vai ser privada. Ele pode conversar com o aluno e “dar uma de pai”. Ver em que medida o linguajar, talvez permitido em casa, não seja bom em casa e seja pior fora dela, etc. Há mil e uma maneiras de mostrar, pragmaticamente, a desvantagem do palavrão. Mas se o aluno monta um esquema ou uma situação para que o professor ou um colega seja visto como um “filho da puta” (uma pessoa sacana, bandida) sem o ser, então há uma falta ética. Pois nesse caso, não se trata do José da Silva, professor, que está sendo atingido, mas o Professor José da Silva. Nesse caso, a instituição escolar enquanto instituição pode ter um código (de ética) que prevê punições, uma delas seria a suspensão da freqüentar as aulas por alguns dias, e a comunicação disso aos pais.

Se situações de “falta moral” e “falta ética” não são distinguíveis, nem mesmo chamando um filósofo da educação no local, então realmente as coisas vão mal. Daí para o professor e a própria escola perderem a legitimidade social que possuem, é um só passo. Não seria isso o que, em parte, está ocorrendo?

É triste ver que mesmo filósofos, uma vez envolvidos com o ensino, não saibam distinguir isso e tenham dificuldades de falar de ética e moral no âmbito da escola. É triste que eles voltem a culpar o professor ou a inventar frases reacionárias para suas entrevistas em periódicos ou na TV. Isso cansa. Isso poderia parar.

Paulo Ghiraldelli Jr – filósofo. Site pessoal
www.ghiraldelli.pro.br
© 01/03/2006 PGJr.

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