08/05/2006

Viva o Cinema Nacional!



A cidade é São Paulo. O que vamos ver é o Brasil de São Paulo – talvez um dos brasis tão ou mais brasileiro que aqueles apresentados no “folclore”. E por que não? Então, podem ler.
Parecia ser bonito ser “gaúcho da fronteira”, “malandro do subúrbio carioca” ou “cabra macho do sertão nordestino” – isso é o que queríamos ser quando pensávamos em nos apresentar “brasileiros” aos olhos internacionais. E achávamos que era nossa identidade também. Era o que tínhamos de aventura. Talvez de engraçado. Fizemos muitos filmes com isso. Fizemos novelas e séries na TV nessa estrada. Um dia, esse Brasil que queríamos mostrar, acabou.
Nossa ditadura, que já vinha andando de mal a pior como toda ditadura, piorou de vez. Nossas cidades incharam e nossas escolas viraram lixo. Nossa universidade estatal durou mais um pouco, mas já começava a apontar para um odor ruim. Enfim, nossos cinemas passaram para a “porno-chanchada” e dela para o “pornô” e dele para alguma igreja sem eira nem beira. Atualmente, são garagens. O centro velho da cidade de São Paulo fica à espera de um prefeito digno para realmente recuperá-lo. Vai esperar e talvez esse dia nunca chegue. Pois aqui, todo prefeito é prefeito de mandato tampão. Mas na transição do Brasil da esperança dos anos cinqüenta para o Brasil da revolução dos anos sessenta – revolução em dois sentidos, a “nossa”, que viria, e a “deles”, que vingava – eu me acostumei a olhar por um mundo de sonho, de vida e de identidade em dois lugares: Cine Rio Branco e Art Palácio.
O Art Palácio estava ali na Avenida São João, no Largo do Paissandu. O Cine Rio Branco estava no centro do Ibitinga, cidade do interior paulista. Meu avô materno, Carlos Abib, trabalhava com o Adhemar de Barros, como advogado junto ao Palácio dos Bandeirantes. Mas tinha escritório também no interior. Nasci em São Paulo, mas por conta do trânsito do meu avô, me acostumei com a dupla identidade: paulistano e paulista, urbano e caipira. A ponte Art Palácio-Rio Branco, dois cinemas distantes mais ou menos 377 kilômetros um do outro, dava o meu mundo e preparava o que seria, efetivamente, o meu verdadeiro mundo. Vivíamos, então, na fase do fim dos carros americanos grandes para a entrada do “carro nacional”, o alemão Wolkswagen, nosso “fusca”. Era o tempo em que São Paulo ainda não pensava no metrô, infelizmente, mas felizmente também não pensava em Paulo Maluf estragando a cidade com o minhocão – para não falar do resto. Nem eu imaginava, também, que lá em Ibitinga, alguma “múmia paralítica” iria colocar fim ao cinema do “seu Eduardo”. Aquele enorme cinema não poderia nunca “acabar”. Era impossível. Era como ... como desmanchar a Igreja da Matriz! Mas acabou. Em meio àquela mistura de quem vai para um lado com a Tropicália e quem vai para o outro com a Jovem Guarda e de quem não vai para lugar nenhum, como eu, que não tinha idade para tal, estava um rosto conhecido. Quem? Uma pessoa sensacional que também fazia a ponte Art Palácio-Rio Branco. Muitas vezes ele até estreava primeiro no Cine Rio Branco. Via que dava público e então jogava a coisa no Art Palácio. Aquilo enchia de gente, mas enchia mesmo. Ibitinga tinha mais ou menos uns 12 quarteirões de comprimento. A cidade toda era isso. E eram 12 quarteirões de fila. A minha luz estava ali: Mazzaroppi.
Só fiquei sabendo que ele era “incompreendido pela elite” e que ele não era o “maior do cinema brasileiro” bem mais tarde, quando nada mais dele existia, e quando alguns da universidade que não o tinham visto começaram a dizer que ele era “o maior”. Quando eu, já mais velho, já tendo “ido para o mundo”, inclusive para o “mundo lá fora”, vi gente da universidade querendo saber quem foi Mazzaroppi, achei estranho. Mazzaroppi foi o que foi Lobato. Ambos foram cantadores do Jeca. Sim: Jeca Tatu, esse cara era “o cara”. Ele era o que nós, paulistas-paulistanos, éramos. É muito o que somos. Não somos os que gritam “ei Ceará!” nos circulares da cidade de São Paulo. Tivemos melhores chances na cidade grande do que esses – acreditamos nisso. Somos os que guardam um pezinho que fica entre a Santa Ifigênia e a rodoviária velha e um outro pezinho que fica em alguma rua de uma cidade pequena do interior de São Paulo. Tabatinga? Nova Europa? Jales? Tupã? Ou mesmo alguma aqui do lado, e grande – Sorocaba? Os que nasceram no interior e vieram para São Paulo, ou os que nasceram em São Paulo e moraram no interior para depois voltar – eis aí que todos esses que fizeram isso sabem bem o que foi o Brasil e o que é o Brasil mais do que muita gente imagina. Os que fizeram isso sabem que somos um tipo de “classe média” na cidade grande. Os que fizeram isso nos anos cinqüenta, sessenta e até setenta aliam algum conhecimento dessa história com a história da identidade dada pelo nosso cinema, por Mazzaroppi.
Em 1979 meu país querido parecia que ia sair da ditadura. Eu havia terminado a faculdade, em São Carlos. Como sempre, sozinho, peguei um ônibus e vim ver “Jango”. Lembro bem. Foi ali no Belas Artes, na Consolação. Meio de São Paulo. Estávamos começando a conversa sobre “Anistia” e sobre eleição direta para governadores. “Jango” caiu como uma bomba. Aplaudimos de pé. O cinema todo, por mais de 10 minutos, ficou aplaudindo o filme. Ontem, no mesmo cinema – ah, como é bom saber que ele está ali, o cinema – eu aplaudi de pé o “Tapete Vermelho”. Não há como não ficar grato a Luiz Alberto Pereira. Sim, é claro, o elenco é maravilhoso. Mas a história do filme vale o filme. Ela, que glosa de modo perfeito o encontro entre “nós” e “nós”, os dois tipos de São Paulo, é a minha história. Não que eu tenha vindo da zona rural. Não, nasci aqui em São Paulo. Mas a história do Jeca é a história do drama do confronto da minha época de criança: a saída do Brasil rural para o Brasil urbano. Mazzaroppi é Jeca mas não é jeca, nunca foi. Era urbano. Ele fazia questão de sempre trazer o caipira para a cidade, e ali a comédia virava drama, muitas vezes tragédia. Mas no fundo, tudo era mesmo um tipo de épico caboclo. A idéia era fazer o caipira vir para a cidade e depois voltar para a zona rural, mas aí, no final, mostrar que ele então não mais esqueceria a cidade. Exato. O drama da cidade e do campo era o que é, mas sem o MST, apenas o que viria a ser o MST: os degradados de uma reforma agrária que nunca veio. Ou melhor, que veio, pelo Estatuto da Terra do General Castelo Branco – e que deu no que deu. Então, o patrão rico e ruim, o patrão pobre e bom, o empregado que se quer fazer de patrão, o diabo, a mulher benzedeira, o anjo, os falsos profetas, a Igreja sem padres, mas como o centro da oração, a criança – tudo isso era Mazzaroppi. E, é claro, Policarpo.
Tudo isso era o mundo de Mazzaroppi. Tudo isso é o mundo que Luiz Alberto Pereira entregou agora para um elenco de primeira linha. Matheus Nachtergaele e Gorete Milagres, os atores incríveis que fazem os personagens centrais de “Tapete Vermelho”, podem agradecer o presente que ganharam de Mazzaroppi e de Luiz Alberto Pereira. Mas para ambos, eles já retribuíram bem. Fizeram o que fizeram, são os grandes os personagens de um grande filme.Talvez não tenhamos mais “cangaceiros” ou “gaúchos da fronteira” ou “malandros do Rio” para colocar no cinema, uma vez que há quem queira substituí-los de vez por “revoltas de prisão” e, então, “bandidos”, “policiais corruptos” e “febem” darão a cara do Brasil para a geração que vem vindo, aqui e no exterior. Mas talvez Quinzinho e sua família, inclusive Policarpo, é claro, possam dar espaço para outras coisas. Coisas melhores. Talvez possamos escapar do caipira, ou melhor, do falso caipira de Barretos, ou do pastiche de Tonico e Tinoco que muita gente elogiou, mas que eu não vou assistir. Quem sabe agora, com esse cinema brasileiro finalmente bem feito, possamos redescobrir o caminho para nossa democracia. Pois o Jeca era isso: aquele que podia rir do turco falando com sotaque sem ser punido por um imbecil da universidade ou de algum órgão do governo de fomento à pesquisa que, por puro ressentimento, não tem humor.
Mazzaropi, quem diria, heim? Era tudo – e era bom mesmo.
Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo
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