Brasil, país do futuro

Stefen Zweig chegou ao Brasil fugido de uma Europa guerreira. Poucas coisas eu li na juventude que tenham tocado tanto quanto o seu Brasil, país do futuro. No entanto, tive um professor de literatura que gostava de dizer a seguinte frase: “Zweig escreveu Brasil, país do futuro, e então se matou”.
Estávamos em plena ditadura militar quando esse meu professor, comunista ligado ao “Partidão”, usava tal frase para gerar aquela gargalhada amarga na boca de todos nós. Nós, alunos, começávamos a procurar na imprensa alternativa (a chamada imprensa nanica) os significados das palavras “esquerda” e “direita”. Sim, pois a ditadura militar deixava que falássemos em “situação” e “oposição”, mas não em “esquerda” e “direita”. A imprensa televisiva evitava esses termos quando falava da política brasileira. Então, nós, os estudantes, tínhamos de procurar outras fontes para conseguir ver o “espectro político”. É claro que livros, para quem já havia vivido o tempo todo sob ditadura, valia pouco. A imprensa era importante. Pois é da informação – os jornais – que o jovem vai à formação – os livros.
O tempo passou. Entre o meu último ano de colégio e o meu primeiro ano de professor universitário correu uma década. Entre o meu primeiro ano de professor e a minha desistência da carreira para ser filósofo, correu três décadas. Esqueci Zweig. Esqueci completamente aquelas belas palavras ... Vejam só:
“Para apresentar a cidade do Rio de Janeiro teria eu propriamente que ser pintor e para descrever São Paulo precisaria ser estatístico ou economista”
Hoje, talvez, devêssemos dizer diferente: São Paulo é melhor vista por um pintor, enquanto que o Rio só é inteligível pelas estatísticas. O Brasil do futuro não veio. Ou, se veio, veio cambaleante, com bem menos êxito que se poderia esperar. Mas algo de Zweig ficou, ainda que de um modo um pouco distorcido. A idéia de que não devemos viver o presente, a idéia de que o Brasil é tão o lugar do futuro que tudo que devemos fazer é lutar para pegar o Brasil “lá na frente”, quando o futuro tiver chegado.
Os Estados Unidos possuem um povo que imagina que plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho é obrigatório. Trata-se de construir o futuro. Pois os Estados Unidos são um lugar dividido e subdividido, e o futuro é sempre incerto. A luta pelo futuro é contínua no presente. O Brasil não. O Brasil possui um povo que levou a sério, em um sentido específico e maltrapilho, a frase de Zweig: o Brasil é o país do futuro – pronto, que esperemos então o futuro.
Nada é mais claro a respeito dessa mentalidade que os episódios que começaram a se desencadear em 2005, com a “crise do PT”, e que agora passam pelo ressurgimento da sujeira na imprensa. Vivemos novamente em situações que colocam o Presidente Lula sob o alvo da imprensa e da Justiça. Por culta única e exclusivamente do próprio Lula. Então, toda a campanha política de 2006 obedece uma única regra: não se está disputando nada para 2007. A campanha toda é para o futuro. Alckimin não é candidato à Presidência, e sim à Prefeitura de São Paulo. Serra não é candidato ao Governo do Estado de São Paulo, e sim à Presidência depois do próximo mandado, que pode ser do Lula. Lula não é candidato ao segundo mandato, mas é, sim, um homem que imagina que pode realizar aquilo que o “Sergião do FHC” pensava realizar para o PSDB: “vinte anos no poder”. Todos estão parados quanto ao presente. Todos estão em uma luta desesperada pelo futuro. Igualzinho ao povo brasileiro, a questão não é plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. A idéia é a seguinte: o Brasil vai estar lá, no futuro, nos esperando, e a luta é para ver quem manda nele lá, no futuro. O Brasil, nesse tipo de mentalidade, é visto como indestrutível, como uma máquina que caminha sozinha, e que deverá ter o futuro que os deuses, como Zweig, disseram que iria ter. Então, “foda-se o presente”, que lutemos para ter o poder – o poder que vale a pena, o do futuro.
Assim, essa campanha do “vale tudo” na política, que está desencadeada, não é uma campanha da esquerda suja contra a direita honesta. É a campanha de todos os homens que imaginam que irão poder colher frutos do “Brasil, país do futuro”. Mas não vão. Talvez todos nós comecemos agora a sucumbir de vez, pois estamos nos envolvidos até o pescoço com falta de reforma política, bases democráticas corrompidas, diminuição de renda do trabalhador, aumento do trabalho infantil e crescimento do crime organizado.
Alckimin fez uma administração medíocre para São Paulo. José Serra abandonou a cidade. Lula apenas maquiou dados sobre êxitos que não teve no governo. Faltou e falta a todos eles a idéia simples de que para ser uma potência do tipo dos Estados Unidos, é necessário viver o dia-a-dia, viver o presente. E viver o presente não é falar “eu vou fazer”. Viver o presente é realmente dizer, “eu faço agora”. Não fizeram. Não há um legado de Alckimin, Serra ou Lula. Todos eles já tiveram cargos políticos no executivo. Serra já foi ministro. Não vi a saúde melhorar com ele. Alckimin foi governador, não vi a educação e a segurança melhorar com ele. Lula foi deputado e Presidente. Como deputado, não fez absolutamente nada. Como presidente, tudo que fez o IBGE desmentiu na semana passada. E não me venham falar em Heloísa Helena, pois de grêmio estudantil de esquerda eu e todos estamos de saco cheio.
Acho que agora sim, vale de verdade, mais do que no tempo da ditadura militar, a ironia do professor de literatura: “Stefan Zweig escreveu Brasil, país do futuro, e depois se matou”. Não é o caso de se matar, mas é o caso de tirarmos da política essas pessoas cínicas. Que tenhamos claro, para Presidente o voto honesto e o voto nulo. Não importa que isso não persiga estatísticas, não anule eleição. Não é esta a questão. A questão é poder dizer, democraticamente: “olha, canalhas, eu não sou igual a vocês e nem igual aos intelectuais e artistas que se venderam – eu sou gente!” É um ato agora, do presente.
Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”

