29/05/2007

O ódio contra a USP


Fiz um artigo, "Os 300 das USP", mostrando que a "aula de democracia", que minha musa (com orgulho), a filósofa Olgária Matos, diz que os alunos que invadiram a reitoria deram a todos, é algo perigoso. Temo como ninguém "aulas da democracia" vinda de jovens que gostam de Chomsky, Chávez, Castro e outros animais que nunca conseguiram ser socialistas sem serem autoritários ou defenderem o autoritarismo. Democracia, eu disse, não se ensina, embora seja algo que se aprende. No meio do meu artigo, disse que o jornalista Reynaldo de Azevedo inventa números, e continua na direita inculta (ele fez um artigo querendo falar que a USP é de privilegiados).
Tanto Olgária quanto Reynaldo me escreveram, respondendo. Olgária o fez diretamente, dizendo que está pensando sobre como ampliar uma forma de administrar a universidade de modo realmente democrático. Estou com ela. Acho que podemos fazer isso, sem ter de conviver com as tais "aulas de democracia". Agora, Azevedo me respondeu indiretamente, reiterando números. Ele não entendeu minha crítica. Eu disse que é inconcebível alguém dizer que um estudante da USP é privilegiado por custar mais, para o Estado, do que um estudante do Ensino Médio.
Onde Azevedo erra? Ela erra em algo que só mesmo uma visão de direita (e infantil) poderia errar. Como que ele quer que o estudante uspiano, ou de qualquer outro ensino superior (no mundo todo), custe igual ou menos que o estudante do ensino médio? Qualquer criança sabe que o ensino superior implica em uma estrutura física e intelectual muito mais complexa. É, de fato, um ensino de elite. Os Estados Unidos são o país de grande população que mais consegue colocar jovens no ensino superior, mas ainda assim, é só metade da população jovem. Portanto, Reynaldo está com um problema grave: ele próprio não foi bem na escola, pois consegue ler números, mas não consegue saber o que números podem representar.
O problema de Reynaldo é que ele não quer resolver o problema da USP, ele quer apenas limpar a sujeira de Serra, defender o governador a qualquer preço e, enfim, falar mal da USP. Eu entendo que exista ódio contra a USP. Ser "da USP" causa inveja (acho que cabe aqui me texto sobre a inveja). Ninguém se orgulha de ser da UNISELVAS ou "UNIESTRADAS" ou qualquer outro conglomerado que diz que dá o melhor ensino - em outdoors. Mas ser "da USP" é um título. Sabemos que hoje muitos que dizem "sou da USP" não deveriam dizer. Não honram a USP. São jovens que publicaram quase nada ou são tolos. Mas ainda assim a USP é a universidade que promete, se reformada, manter o padrão internacional que chegamos a ter. E ainda é ela que mantém o debate em nosso país funcionando. Vejam como que, a todo momento, ou elogiando ou criticando, temos de nos referir a nossos velhos mestres, quase todos da USP. E não é necessário ter sentado nos bancos da USP para ter tido mestres uspianos. Muitos que não tiveram esse privilégio, os acompanharam de longe, lendo seus livros. Isso dá nos nervos de gente como Reynaldo de Azevedo, Olavo de Carvalho, Dioguinho Maynardi e outros bichinhos que funcionam como correia de transmissão do PFL e PSDB e de uma direita que quer aprender filosofia nas aulinhas da Casa do Saber (regada por alguns uspianos desesperados por dinheiro).
Agora, o fato é que todas essa glórias da USP não autorizam estudantes reivindicarem o que reivindicam acreditando que Serra tem a ver com as mazelas da USP. Não tem. Tudo que aconteceu de ruim na USP, durante vinte anos, é culpa dos uspianos. Pois a autonomia universitária funcionou e funciona. Ela é do tempo do Quércia. Foi o PMDB que deu autonomia para a USP. O pecado foi do PMDB. Ela, a USP, se prejudicou sozinha. Foi a USP que, sem o comando de fora, não percebeu que não conseguia romper com o corporativismo com o comando de dentro, e apenas o ampliou. Resultado: os departamentos, hoje como no passado, são feudos, são propriedades de ajustes internos. O resultado disso é a ampliação da mediocridade.
Vejam só: minha esposa fez a vida toda a escola pública, nunca teve dinheiro para outra escola. Prestou vestibular e passou na USP. Foi aluna da USP (e largou, pois não tinha aula). Ela teve uma professora de História da Educação que não sabia a diferença entre fim do tráfico de escravos e fim da escravidão. Como pode isso? E isso, a criação da mediocridade, vale para todos os cursos - principalmente os de ciências humanas. A filosofia não fica longe não. Eu vi um professor, já de longa cabeleira branca, todo cheio de trejeitos, explicar o Kant e dizer que este nada tem a ver com a noção de representação, que o Kant está "em busca de essências" (!). Esse cara, completamente inculto em filosofia, chegou mesmo a ser do CNPq - foi o poder da USP que o colocou lá. Então, não exageremos: de fato, a USP precisa de reforma.
Ela, a USP, precisa ter o corporativismo diminuído. E uma boa coisa não é ter bandejão ou moradia estudantil somente. Isso é o básico. Seria legal ver a USP tendo outros professores. Quais? Aqueles que, para entrar ali, tivessem passado por um concurso geral, não um concurso interno ou um concurso feito nos departamentos. Todo serviço público arregimenta pessoas por meio de concurso geral. As universidades deveriam fazer o mesmo. Quem é competente não deve ter medo de prova! Afinal, para entrar como aluno, o jovem faz vestibular. Mas para entrar como professor, não! Resultado: há gente na reitoria da USP que não conseguiu entrar na USP como aluno. Isso é estranho! Como no Banco do Brasil, o candidato ao emprego presta um exame e pronto. Ele que trabalhe e, depois, por meio de outras avaliações, garanta ou não o emprego. Enquanto as coisas não forem assim, sempre o professor universitário será motivo de inveja e raiva de outros. Pois, de fato, sua entrada no emprego público é ilegítima. É legal, mas ilegítima. E gera a mediocridade que vemos.
Mas os estudantes que estão na reitoria, dormindo lá, tocam nesse assunto? De modo algum. Pois se fizerem isso, ficam isolados. Perdem os professores que se dizem de esquerda que os apóiam e os incentivam a fazer a tolice que estão fazendo. A tolice é não saber reivindicar objetivamente. E esses professores, não raro, por defenderem o indefensável, são alvos fáceis da direita, na linha do que um Reynaldo de Azevedo escreve.
Sendo assim, duvido que exista saída para a USP. Corremos o risco, sério, de perdermos nossa boa universidade.

Paulo Ghiraldelli Jr.
"O filósofo da cidade de São Paulo".
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