28/06/2007

Professores Deseducadores na USP


A Folha entrevistou Paulo Arantes, Laymmert Garcia dos Santos e Francisco de Oliveira sobre a invasão da reitoria. Antes, no entanto, a Folha elegeu essas pessoas como estando “entre os mais importantes intelectuais da esquerda brasileira”. Eles disseram que o “movimento estudantil” quer “ordem”, que tem objetivo conservador, mas foram simpáticos ao “chute na porta” dado pelo “movimento”. Uma fala estranha, essa deles. Um pouco fora de esquadro.

Primeiro, a esquerda brasileira vai mal mesmo. Pois se esses três aí estão entre os mais importantes intelectuais da esquerda brasileira, e eles são, nitidamente, pessoas desconhecidas de vários outros bons intelectuais no Brasil todo (mesmo no eixo Rio São Paulo), isso é sinal que ninguém mais dá bola para “intelectual de esquerda”. Mas será que são de esquerda mesmo? Será que representam algo na esquerda? Ou é gente que ainda faz parte do “movimento estudantil”, mesmo já careca?

Segundo, a esquerda estudantil – que é isso que eu acho que a Folha queria dizer ao falar dos três professores – é um pouco fora de órbita. Pois eles disseram que diante da ineficiência da política tradicional, os estudantes deram um “chute na porta” e resolveram o que tinham de resolver, e que isso era uma “nova forma de fazer política”. Eu não acho que chute na porta é novo, e muito menos eu acho que é bom. Em 1964 os militares deram um chute em várias portas, acabaram com a democracia e inventaram – eles sim – uma nova forma de fazer política: a ditadura com voto e com congresso funcionando. Novo por novo, eles inovaram mesmo. Não gostei. Mas acho que Garcia, Francisco de Oliveira e Paulo Arantes gostaram, pois aplaudem isso que os estudantes fizeram que, enfim, possui cheiro muito parecido. Essa coisa de dizer “eu represento interesses legítimos, então, dou chute na porta”. Não sei, acho que esse foi o caminho do Castelo Branco e dos generais Presidentes, e, mutatis mutandis, o do Zé Dirceu e de uma boa parte do PT, que deu um chute na porta de cofres alheios.

O que esses nossos garotos esquerdetes – e os tais líderes dos “intelectuais de esquerda” estão entre eles – não sabem é que eles não lutaram contra o decreto do Serra. O decreto do Serra, aliás, era razoável. O Governador, caso soubesse fazer política, nem precisaria ter retirado os decretos. Eles, os estudantes, lutaram por nada. Os que lutaram mesmo, lutaram errado. A pauta de reivindicações dos estudantes, para a reitoria, pede coisas que nada tem a ver com a política do governo, seja a do Serra ou de qualquer outro, pois tudo que falta na USP é culpa da comunidade uspiana, uma vez que desde o tempo do governo Quércia, a USP é autônoma. A pauta prova que a questão da autonomia entrou ali de forma equivocada. A USP virou uma droga por que elegeu para reitores sempre pessoas que não sabem o que fazer. Aliás, já disse, hoje há na reitoria gente que nem entrou na USP, que teve medo do vestibular da USP. A USP paga o preço por ter em seu comando reitores e pró-reitores piores do que os que poderiam ser indicados por um governador – e olha que da cabeça de governador boa coisa não sai nunca!

Agora, quanto ao roubo e quebra-quebra de patrimônio público, que os estudantes levaram adiante na invasão, minha sugestão é a seguinte. A reitora, que é medrosa e que tem uma equipe incompetente (em todos os sentidos), pode se livrar do problema do seguinte modo. Ela pode chamar Garcia, Paulo Arantes e Francisco de Oliveira e dizer: os meninos não sabiam o que faziam, pois são jovens demais, então, sugiro que vocês, que são os líderes da esquerda intelectual e do movimento, paguem os prejuízos. Ora, esses professores, todos eles, ganham mais de cinco mil reais por mês, não possuem cartão de ponto e, enfim, dão poucas aulas, e, não raro, recebem por alguns trabalhinhos extras, saltando fora do tempo integral da universidade. Então, diante dessas condições privilegiadas, eles deveriam arcar com os prejuízos.

Não é correto que um educador diga: chute a porta para conseguir o que quer e o que não quer. Por uma razão simples: se você chuta uma porta, e ela quebra, e cai em cima de um computador e ele quebra, você destruiu o patrimônio público. Os estudantes são o povo, sim, mas não são todo o povo e nem representam o povo. Não representam, inclusive, a maioria do próprio corpo de estudantes da USP, que não queria a greve e, no entanto temia ir nas Assembléias e apanhar dos “organizados”. Todo mundo sabe que esse esquerdismos juvenil é violento, pois não sabe usar das armas da razão. Então, se os professores apoiaram a destruição da USP, eles devem colocar a mão no bolso e pagar o prejuízo. Ou eles são pessoas que ensinam, nas suas casas, seus filhos quebrarem telefones públicos e bancos de praça? Caso Paulo Arantes, Garcia e Francisco de Oliveira não queiram pagar o que fizeram, já que se responsabilizaram pelos atos dos estudantes, eu vou concluir que eles ensinam seus filhos, em casa, a fazer o mesmo que os estudantes fizeram. E então, chamá-los de professores, será difícil. Chamá-los de pessoas de esquerda, talvez não também. Pois o que apoiaram é o fascismo.

Os professores podem dizer, “ah, eu apoiei, mas não me responsabilizo pelo que fizeram”. Ora, então, não são mais professores? O que falam é vazio. Falam para jovens que eles estão corretos no “chutar a porta” e, ao mesmo tempo, que eles, professores, não falaram o que falaram, é isso? Bom, parece que ser professor, agora, ficou fácil. Ser professor, agora, não implica mais em educar.
Paulo Ghiraldelli Jr

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