13/07/2007

A fixação no corpo



Você imagina que somente algumas pessoas educadas em uma cultura arcaica acreditam que o homem que penetra o outro não é homossexual? Está enganado. Também a filiação política moderna tem a ver com tal crença. A extrema esquerda e a extrema direita odeiam os homossexuais, embora vários membros desse tipo de agremiação política tenham preferências sexuais por homens. Nessa relação entre pessoas do mesmo sexo, os elementos desses grupos ditatoriais podem ser penetrados ou penetrarem, mas, em público, só admitem penetrar, jamais admitem que foram penetrados. Desprezam e agridem e até assassinam os que eles consideram como os homossexuais – os penetrados – muitas vez após terem tido relações com eles.

Quando conversamos com pessoas de extrema direita do sexo masculino – e essas dias eu escutei várias delas – vemos a preocupação que elas possuem com o corpo masculino, não só o delas, mas o do outro. Tudo que se refere ao corpo masculino é do interesse desse grupo. São obcecados pela “aparência” e disposição de órgãos e músculos. Relacionam tudo isso ao que lhes importa: o poder. Ser penetrado é ser fraco, penetrar é ser forte. Penetrar é submeter o outro, ser penetrado é ser submetido. Uma farsa completa, é claro. Todos os estudos sobre a direta fascista ou nazista ou sobre comunistas dogmáticos mostram que, uma vez na cama, as formas de relacionamento variam, embora, fora da cama, a confissão entre quem é “o macho” e quem é “a fêmea” tenha que ser instituída claramente – hipocritamente. Tola, é óbvio. Quem estudou as prisões sabe mais do nazismo e do comunismo do que muitos filósofos políticos ou cientistas políticos que se preocuparam em estudar os partidos, sem ter estudado os homens. A regra do fazer o outro de “mulherzinha”, que impera nas prisões, é a regra das agremiações da juventude de direita, e muitas vezes imitadas pela esquerda.

Parece que a política de pessoas da direita extremada e da esquerda ditatorial pode ser definida do modo que William James definiu a filosofia. Para ele, a filosofia é sempre a expressão do temperamento de um filósofo. Ora, a política é sempre a expressão mais íntima de gostos, desejos e pretensões irreveláveis das pessoas, principalmente quando essa política é a dos extremismos. A homossexualidade que não pode ser revelada era e é uma característica clara da direita. Depois, com Stalin, esse comportamento dos fascistas foi imitado pelos comunistas. O ódio moral ao sexo dito “não regular” e, principalmente, ao que é definido como homossexualidade por governantes fascistas e comunistas é muito semelhante. Isso explica, em grande parte, as perseguições aos homossexuais na Alemanha nazista, na URSS e, ainda hoje, em Cuba.

Isso se casa, em grande medida, com a fixação da direita extremada e de comunistas estalinistas no corpo como instrumento de trabalho. Ou melhor, com a idolatria do trabalho, e tendo este como paradigma o trabalho braçal, levada às últimas conseqüências nesses dois regimes de força, o corpo ganha o seu reinado. Gritos, gestos, palavrões são típicos da direita e da esquerda, quase que querendo, mesmo quando a atividade não é visivelmente corporal, que ela apareça como uma atividade corporal. O corpo é tudo. O corpo recortado em termos de mostrar poder e, portanto, disciplina, é tudo. O homem de direita pode gostar de ser penetrado. Como também o comunista. Mas eles precisam mostrar que penetram. Pois ao penetrado é imputada a incapacidade do comando do corpo, enquanto que o penetrador possuiria o comando do corpo. O comando do corpo é a disciplina e o poder, sinônimos de uma falsa virilidade, capacidade de trabalho e disposição para o governo. Essa falsidade é construída desde a infância na cabeça do nazista ou do comunista. Não à toa, tanto o nazismo quanto o comunismo criaram “organizações de juventude”. A imagem do corpo jovem masculino é essencial: ele é que tem força para penetrar, portanto, “legitimidade” para o governo. Mas, ao mesmo tempo, sendo o corpo jovem, pode ter a graça feminina e, subliminarmente, deixar que o bom entendedor entenda tudo: ser penetrado é também o necessário, contanto que não se explicite.

Assim, essa corporalização de tudo é a chave para que se possa aceitar hierarquias irracionais, baseadas em manifestações corporais como gestos e posições do andar e do falar. Sabemos todos, hoje, o quanto Hitler e Stalin estudavam suas figuras no espelho, treinando mímicas para discursos. Eles não falavam para serem ouvidos, eles falavam para serem vistos. Por isso gritavam e gesticulavam. Eles falavam pelo corpo. Essa fala pelo corpo era e é o modo mais visível pela qual o bárbaro entende a hierarquia. Não se trata mais do líder lutar com o outro líder, pelo domínio das tribos, mas uma relíquia disso sobrevive: quem tem o corpo que pode ser desejado para ser penetrado, mas que mostra que penetra, tem o direito de vencer.

O corpo fala. O corpo que não fala, que se submete, é o do penetrado que, para a direita e a esquerda, é o homossexual. Eles, os que dizem penetrar, não são oficialmente homossexuais. Inclusive, para que estes não lembrem que eles também foram penetrados, então, depois do ato sexual, o parceiro sexual é agredido ou mesmo eliminado.

Essa psicologia do nazismo e do fascismo deveria ser melhor estudada. Adorno e Horkheimer chamaram a isso, em parte, de “amor-ódio pelo corpo”.

Mas que não se entenda aqui a palavra “amor” como sendo amor, e sim, “querer”. Seria melhor que os frankfurtianos tivessem escrito “querer e odiar” o corpo. Pois o nazista e, digamos, até o comunista, ainda que de um modo menos explícito talvez, exerce apenas o “desejo da posse” e uma relação ambígua com “ser possuído”.

Essa corporalização das relações de poder, que atravessa um homossexualismo que não se pode admitir, é uma das características mais básicas da direita política, e uma marca que também pode ser encontrada em uma esquerda que imita o fascismo. Essa marca pode ser vista, também, no modo como os governantes extremistas usam do corpo para eliminar partidos ou jornais ou intelectuais, ou seja, qualquer via que se interponha entre ele e “as massas”. Para tal, usa do corpo. Lembram de Fernando Collor usando camisetas com dizeres políticos, todas as vezes que fazia esporte? Pois é, aquilo era uma técnica fascista clara: o corpo traz o recado do que deve ser feito, o resto não é para ser ouvido. Collor, não à toa, tentava manter o corpo “em forma” e exagerava na prática de esportes que pudessem evidenciar que ele, como corpo, era tudo que o país tinha. Jânio fez o mesmo, embora usando técnicas diferentes, a do exagero de gestos, caretas, jogadas de cabelo etc.

É interessante como nós todos, de alguma forma, entendemos essa linguagem arcaica. Como que isso deve estar arraigado em nossa mentalidade, com ganchos embutidos em nosso passado animal. Por exemplo, para nos livrarmos dos ditadores, temos de fazer o luto deles, e isso inclui podermos absorver os corpos deles. O Leste europeu, após o fim do comunismo, promoveu várias festas onde gigantescos bolos em forma de Lênin foram devorados pela população em praças públicas. Comer aqueles que quiseram nos transformar em fezes para que possamos, agora, nós mesmos, transformá-los literalmente em fezes, faz parte dessa relação com o poder que é corporalizada para além do que imaginamos.

Hitler sabia de tudo isso como ninguém, pois ele foi o mais homossexualmente envolvido com tais estratagemas. Diante do fim, sua preocupação maior era a de ser cremado, para que os russos não exibissem seu corpo em praça pública como troféu. Uma estranha crença estava ali presente: a não visão do corpo derrotado seria sempre um estímulo para o ressurgimento do nazismo. Ou seja, dentro do espírito arcaico dos seguidores da direita, a arma principal do nazismo, o corpo viril e ao mesmo tempo com trejeitos, poderia ser a única lembrança para as próximas gerações. Outros líderes viriam, e poderiam incorporar a presença do velho líder. Bastaria imitá-lo. É o que vemos, não é? Quando escutamos um palavreado típico da direita, nem conseguimos vislumbrar a imagem dessa pessoa que não ela vestida de Hitler. A imaginação de quem viveu as ditaduras do Leste, em relação aos líderes de lá, no comunismo, é análoga.

Paulo Ghiraldelli Jr.
“O Filósofo da Cidade de São Paulo”
Site Pessoal: http://www.ghiraldelli.pro.br/
CEFA: http://www.pragmatismo.org/
ATENÇÃO: Livro sobre filosofia do corpo (e educação), de Paulo Ghiraldelli Jr., sairá pela Ática no segundo semestre de 2007

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