O jovem de direita - Da educação para evitar o fascismo

Theodor Adorno gastou boa parte de sua vida ocupado em imaginar como seria uma educação e uma pedagogia que viessem a evitar que as pessoas pudessem se transformar em homens e mulheres de direita que, em algum momento, escorregassem para o fascismo. A síntese da proposta que ele formulou, e que está no texto radiofônico “Educação após Auschwitz”, nunca me deixou satisfeito.[1] Ela parece carregada de essencialismo ineficaz. Adorno confia na existência de um núcleo racional no interior de cada criança (um rousseauísmo), que poderia ser acionado para evitar que tal pessoa ficasse reificada e, uma vez assim, insensível, viesse a adotar o fascismo ou simplesmente aceitá-lo. Não creio que essa é a melhor resposta que podemos dar. Sempre procurei uma resposta pragmática ou, melhor dizendo, pragmatista.
Mas uma resposta pragmática depende, no
entanto, de sabermos o que é um jovem que se encaminha para posições de direita e que, então, a qualquer momento, dá o fatal passo a mais – que muitos conservadores deram – e adota o fascismo ou simplesmente o aceita. E essa questão, a respeito do perfil desse jovem, é necessária ser posta nos dias atuais, em especial no Brasil, onde as condições sociais podem muito bem fomentar a atuação de pessoas mais à direita do que gostaríamos de ter entre nós.Ao contrário da Europa, nos Estados Unidos e no Brasil, a extrema direita não têm partidos e não se organiza de modo visível. Quando se organiza, o faz de modo a não mostrar o rosto ou se transfigurar em “opinião cultural” ou “individual”. Afinal, a KKK e a formação de partidos criptonazistas não são mais possíveis. No Brasil, por sua vez, as leis estão cada vez mais rígidas contra práticas de discriminação típicas da direita mais extremada. Mas isso tem um preço, ou seja, efeitos colaterais. Muitas vezes, um indivíduo sozinho, em uma rádio (ou agora, na Internet), aglutina jovens por meio do incitamento do ódio ao diferente. Como chegamos a isso?
Derrotada na II Guerra Mundial e identificada – corretamente – com o crime e a barbárie, a direita de linha fascista nunca conseguiu se refazer a ponto de poder disputar eleições de modo decisivo nos Estados Unidos e no Brasil. Isso não quer dizer que não fez política e não se organizou de outra forma. Aliás, em parte esteve em postos de comando do Estado brasileiro entre 1964 e 1985 e, em alguns momentos, passou a incomodar os reacionários menos adeptos de violência, criando dissidências (como a esquerda) bem nítidas. Assim surgiu o racha no “S”, a sigla que, de início, significava “Sistema”, e suponha-se unida no comando dos projetos dos golpistas de 1964. Foi a época do embate entre o grupo “moderado” e o grupo “linha dura” no governo brasileiro. Este último, antes mesmo da Campanha das Diretas, já estava derrotado. A partir de 1985 não conseguiu mais espaço. E as pessoas de direita, com tendências mais reacionárias, com simpatias claras em relação ao fascismo, seguiram suas vidas em silêncio. Collor deu esperanças a algumas delas, embora elas se vissem identificadas eleitoralmente com Reinaldo Caiado, da UDR. As pessoas adeptas de tais projetos, no período, podem bem ser exemplificadas pelo filme Bob Roberts (Tim Robins, Estados Unidos, 1992). Todavia, para o jovem urbano de direita, não havia partidos. Ainda não há. O que lhe resta é a militância envergonhada. E, agora, a ligação com outros de mesma ideologia através da Internet e rádio.
O perfil desse jovem de direita ou, melhor, de extrema direita, não é distinto do jovem de extrema esquerda quanto a um detalhe. A vestimenta é diferente, as leituras são outras, as gírias são indicam a mesma coisa e, enfim, os locais de convívio não se parecem. Mas o vocabulário básico dos dois grupos, aquele que denota o raciocínio (ou a falta dele) é muito semelhante. A característica básica é aquilo que a minha esposa, Fran, chama de “cabeça cheia”.
Essas pessoas de “cabeça cheia” ouvem pouco. E mais: não conseguem refletir, analisar, parar para ver o diferente. Algumas até tentam, mas não podem dar esse passo. Algo quase que físico as amarra, embora várias delas se imaginem capazes de altos vôos intelectuais, pois em geral podem arrumar um discurso e serem eloqüentes, mais que os desengajados. O véu ideológico sobre elas é tão forte que tudo parece nos levar a acreditar que, em um determinado momento, elas foram vítimas daquilo que os americanos chamam de brain watching, uma expressão que não convém traduzir, pois deve ser tomada como uma forma de imunização, uma imobilização da capacidade de alteridade. O Outro não existe como possível semelhante, apenas como Totalmente Outro, que é ameaçador e precisa ser “eliminado”. Pessoas assim costumam ter um guru, alguém que substitui o pai (não raro, tais pessoas tem conflitos graves com o pai), e que lhes dá a segurança de que não estão sozinhas na adoção de teses que, enfim, a maioria da população não adota e até mesmo teme. Muitos dizem que o Estado é o guru da extrema direita e da extrema esquerda. Mas não é verdade. O Estado, para ambas, é mero instrumento. Elas precisam de um líder de carne e osso. Esses jovens ficam em êxtase ao olharem para esse líder.
É interessante que os jovens que tendem à direita conferem a esse líder, sempre, a qualidade de ser “inteligente”. Insistem nisso: inteligência. Mesmo quando o líder não tem nenhum dote intelectual, quando é um mero jornalista que enrola a língua, com formação mediana ou mesmo medíocre, ou um pintor frustrado, ou um médico que se imagina que pode curar a sociedade como cura pessoas, ou um ressentido qualquer, ele é lançado na arena pública pelos seus seguidores como alguém inteligente, atarefado, disciplinado e, principalmente, capaz de poder usar do destempero verbal. Hitler ainda continua sendo o modelo de líder desse jovem, mesmo que ele não admita isso. Hitler também era elogiado pelos jovens como sendo inteligente, e todos nós sabemos que era extremamente limitado, não só como artista, mas como leitor e tudo o mais. Seu gosto intelectual mostrava isso. Sua estratégia de guerra, enfim, demonstrou isso. Ele culpava seus generais pelos erros que ele mesmo cometia e, enfim, ele cometeu mais erros que acertos em todas as batalhas importantes. Era estúpido e tinha uma enorme dificuldade de ler e de entender textos mais complexos. O filme Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen (Undergågens Arkitektur, Suécia, 1992) é o exemplo melhor da incapacidade mental de Hitler. Um filme bem feito e que é muito fiel ao período.
Essa característica do líder da direita extremada, de ser limitado intelectualmente e, ao mesmo tempo, elogiado pelos seus comandados como inteligente, torna as coisas bem previsíveis para seus adversários. Os passos da direita são teleguiados. Sempre sabemos o que o sujeito de direita vai fazer, principalmente o líder ou aspirante a líder. Pois o limite mental não lhes dá nunca vantagem. O líder é muito previsível, pois ele funciona elogiando nele próprio exatamente o que ele não tem ou não é, ou ele é muito sensível a tais elogios. Quando damos um passo, sabemos qual passo ele irá dar – e ele nunca falha, basta esperar e minutos depois, acontece.
A previsibilidade de Hitler foi um fator que contou muito para os americanos que, entrando tardiamente na II Guerra Mundial, puderam observá-lo e pegá-lo em vários estratagemas que eram considerados infantis por determinados generais britânicos. Isso é uma regra par pegar o fascista: basta você citar um fato em que uma minoria étnica ou sexual ou econômica mostra valor, que esse tipo de jovem de extrema direita ou seu líder não agüentam e passam a atacar você ou a minoria em questão de modo irracional; perdem facilmente a paciência e se dedicam horas em tentar negar o fato visível, inclusive se expondo e cometendo atos ilegais. E a facilidade com que usam adjetivos é fantástica! Até hoje o FBI e a CIA conseguem pegar extremistas, nos Estados Unidos, através desse método. Eles são previsíveis em sua agressividade – verbal ou física – em relação a prostitutas, gays, negros, judeus, ciganos, “estrangeiros”, intelectuais sofisticados, artistas populares, pessoas humildes que venceram na vida de modo independente, etc. E também se insurgem contra grandes redes de TV e jornais, uma vez que tais redes os evitam.
Outro detalhe do fascista é seu temor da informação. Os da direita fascista ou semelhante odeiam a informação, em especial a da TV, que é sempre o visível e o que mais impacta os menos sagazes que os seguem. Além disso, detestam a informação dado que ela sempre os contraria, uma vez que o mundo não caminha do modo que querem. O mundo é cheio de conflitos, e eles detestam o conflito. Apesar de cultivarem a guerra, eles odeiam o conflito, eles fazem a guerra para alcançar a paz – a paz do cemitério. Eles querem um mundo “limpo”, ordenado, enfileirado, “moralizado” – a regra acima de tudo. O radicalismo verbal deles, proliferando palavrões, é estratégico; uma vez podendo, invadem a vida particular e a povoam de censuras.
A busca eterna pelo pai que, por alguma razão, não soube exercer a autoridade de um modo sereno, é perseguida pelo jovem de direita na figura medíocre que ele escolheu como líder. Tem de ser medíocre, pois não pode, é claro, ser diferente dele. Tem de ser alguém que fale o que ele entende. E ele entende pouco.
Essa direita é mais perigosa que a esquerda extremada. Pois a esquerda, dado que se expressa em partidos, tem a “cabeça cheia” mas, ainda assim, é forçada ao convívio das idéias. Um jovem do PSOL ou do PSTU é alguém que, mais cedo ou mais tarde, vai perceber que chamar os outros de “neoliberal” ou de dizer que a “globalização” é o mal do mundo é algo meio infantil. É uma questão de tempo. Demora, mas uma boa parte dos jovens sai disso. Isso é bem mais difícil de acontecer com o jovem de direita, pois ele não tem convívio social para discutir política. Ele se isola. Ele não pode se apresentar socialmente como ele é, como uma pessoa que odeia negros, detesta pobres, quer ver a sua mulher presa dentro de casa, quer o fim da democracia, odeia o Lula não pelo que este possa fazer de errado, mas, em geral, pelo que ele faz de correto (sim, o jovem de direita diz que o Lula é analfabeto, beberrão, etc., mas não é isso que ele critica de fato, o que ele odeia no Lula é o Lula ter chegado à presidência, e ele, não ter chegado a lugar algum). Ele não tem o que conversar com outros jovens. Esse isolamento o torna um velho de direita, anos mais tarde. E, não raro, uma pessoa muito ressentida, que facilmente se destempera.
Há como mudar isso? Não é fácil. Não podemos, para dar convívio social para a direita, voltarmos nossa legislação para o passado e deixar essa gente festejar a barbárie. O que podemos fazer é tentar ganhar os menos embotados mentalmente com o seguinte discurso: temos de perguntar a eles, de um modo que possam levar a sério a pergunta, qual a vantagem que eles levam tendo de viver como bichos, isolados, com raiva do mundo e, não raro, de maneira não legal. Alguns perceberão que a militância de direita só vai lhes dar dissabor, e começam a mudar. É o que podemos fazer. Podemos mostrar a eles que o convívio democrático entre grupos é muito bom, que eles só terão vantagens com isso – que eles não têm nada a ganhar com a direita. E podemos mostrar a eles que o guru deles é um falso conhecedor do que diz conhecer. Aliás, nesse sentido, um dos melhores filmes já feitos nos Estados Unidos sobre a mudança de um jovem de direita é o American History X, de Tony Kaye (Estados Unidos,1998). É uma lição e tanto, e está longe de ser uma completa ficção.
Penso que esse tipo de argumento, sobre a vantagem, é mais decisivo do que a esperança adorniana de que exista um núcleo no interior do ser humano que poderia ter ficado imune à reificação. Esse núcleo, então, seria despertado por mecanismos pedagógicos previamente preparados. Ora, não acredito muito que o mecanismo de reificação seja tão poderoso a ponto de ser a regra do mundo, como Adorno acreditava. E mesmo que fosse, não acredito que a confiança no tal núcleo preservado possa ser uma boa aposta. Creio que quando as mudanças ocorrem, elas ocorrem pelo fato de que alguns conservadores percebem que não vão ganhar nada ao passarem do mero conservadorismo às práticas fascistas.
Por exemplo, um rapaz que faz lutas marciais e que odeia gays, e que, escutando um falastrão da direita, numa rádio, resolve “sair da teoria” e passa, então, a agredir gays nas ruas – o que fazer? Bem, em um determinado momento, esse jovem é agarrado pela polícia. E eis que a vida dele, que era promissora, vira um inferno. Processo, humilhação, fim dos estudos, preocupação dos pais, perda da namorada etc. Tudo isso pode ser o resultado. Mas para quê temos de esperar isso acontecer com o rapaz? Podemos começar a usar uma nova linguagem para que ele perceba que o ódio dele aos gays não vai lhe dar vantagem e, pior, mesmo que não o leve a ser violento, só o preconceito já pode lhe tirar um bocado de chances na sociedade atual. Essa argumentação, quando bem colocada, tem sim seus efeitos. Os jovens, quando confrontados com situações que lhes tiram chances, sabem retroceder.
As escolas, os mestres, não deveriam temer o discurso da utilidade. Não deveriam agir como neokantianos, acreditando que quem apela para a utilidade nunca pode ter uma posição ética boa. Nada disso. A “lei de Gerson” é um instrumento que, nos Estados Unidos, bem usada como elemento educativo, funciona mais que regras de igrejas e imperativos éticos. Nossos professores ainda não perceberam isso, embora, na prática, muitos pais tenham percebido. Na maioria das vezes, é o apelo à utilidade que nos conduz às melhores posições éticas. E no caso de uma educação contra o fascismo, a educação pragmática parece vir a calhar. A pergunta chave para o jovem que está tendente ao fascismo é a seguinte: qual a vantagem que você leva nisso? Veja como que, em nossa sociedade democrática, você só vai perder se engajando nisso. Com mais jovens percebendo isso, menos cães raivosos falando por aí, tentando dominá-los, existirão. A idéia de vantagem acaba favorecendo a autonomia. Eis aí um ponto em que pragmatismo e democracia caminham juntos.
O filme estrelado por Edward Norton, American History X, conta exatamente como funciona tal estratégia. O herói do filme, após ser estuprado na prisão por antigos companheiros, vê seus ex-amigos de direita fazendo coisas ilegais que ele imaginava que só a minorias étnicas faziam, e então, machucado e desiludido na enfermaria, é visitado por seu ex-professor, um negro democrata. O velho professor lhe pergunta: “o que você ganhou em aderir a esse grupo nazista?” Ele titubeia, mas percebe a gravidade do que o professor diz quando este o avisa: “seu irmão mais jovem está indo pelo mesmo caminho”. Aí, então, o herói percebe o perigo: o irmão poderia passar pelo que ele está ali passando e, pior ainda, poderia acabar morto pelos conflitos de ódio racial.
Este é um filme imperdível que todos os democratas deveriam passar nas escolas e mostrar para os filhos. Para que seguir algum velho carcomido (como o líder nazista do filme) em sua violência verbal se as conseqüências disso não são vantajosas? Quando essa pergunta é colocada por alguém que tem acesso moral ao jovem, ele realmente pára para pensar. E parar para pensar é tudo o que o fascismo teme. O fascismo é uma ideologia da ação, teme como ninguém o “parar para pensar”. Por isso o fascista não consegue assistir aula e se incomoda em ficar na universidade, na escola. Ele quer agir. Os grupos nazistas se organizam em torno da ação. Qual a ação? A do guru, a de falar e falar e falar. A do comandado? O ataque às minorias, aquilo que, segundo ele, suja o mundo.
É interessante notar que em algumas assembléias universitárias, pessoas que se dizem de esquerda também prefiram só a ação. Uma greve que fecha bibliotecas e que não impulsiona o pensamento diferente é, sem dúvida, uma greve perigosa, pois está sendo alinhavada por interesses que cheiram o fascismo. Uma greve em que grupelhos manipulam assembléias ou que a imprensa é agredida já é uma greve que não tem nada mais que o rastro do fascismo. Muitas pessoas, advogando ideais socialistas, podem desempenhar atos que são fascistas. É claro que esse tipo de coisa tem conotação política e, enfim, pode ser identificado. Então, sendo uma coisa pública, organizada, com rosto político desde o início, se integra no jogo democrático e pode ser denunciada e transformada a partir de dentro. Mas a prática fascista mais recortada, mais típica, como não participa desse tipo de situação pública, se organiza a partir de um líder aparentemente individual e solitário.
O líder fascista fomenta a organização da ação violenta pelas suas palavras. Então, sem que ele tenha dado uma só ordem expressa, um grupo que o escuta acaba agredindo uma prostituta na rua ou queima um índio ou ataca um gay e por aí vai. Quando perguntado, o líder que fala na pequena rádio, se diz espantado, diz que não tem nada a ver com aquilo. Foge covardemente. Mas foi ele, sim, o responsável. Pois ele usou de palavras baixas exatamente para induzir os jovens a atos baixos. A linguagem, aqui, faz toda a diferença. A linguagem faz a diferença, sim, sem dúvida. O líder fascista é compulsivo no falar e nos palavrões. Lembram dos discursos de Hitler? Sim, era seu segredo. Dizia a palavra “paz” com tanto ódio, que todos sabiam que era para entrar em guerra.
Paulo Ghiraldelli Jr.
O Filósofo da Cidade de São Paulo
Consultor do MEC pela OEI
http://www.ghiraldelli.pro.br/
[1] Em 1997 fiz um texto, comparando Rorty e Adorno, em que esboçava um descontentamento em relação à formulação deste último. O texto foi publicado na revista Filosofia, educação e sociedade, número 1, que era uma revista oficial do “GEP-PFA”, fundado por mim e Alberto Tosi Rodrigues (1965-2003), que mais tarde deu origem ao Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). O leitor que precisar da revista, ainda existem alguns volumes no CEFA, que podem conseguidos pela Fran: fghi29@yahoo.com.br

