O que sobrou na direita?
Nos anos oitenta vivemos um período fértil na discussão filosófica não propriamente acadêmica. A direita, o centro e a esquerda tinham bons intelectuais. Tivemos debates memoráveis que envolveram Sérgio Paulo Rouanet, José Guilherme Merchior, Rubens Rodrigues Torres Filho e outros. É claro que a direita sempre esteve em desvantagem. Seus quadros eram mais escassos. O último bom pensador da direita (para o gosto do direitistas , não para mim) foi José Guilherme Melchior. Depois de seu falecimento, a direita entrou em crise. Ele não foi substituído.
Os jornais se ressentiram disso. Tinham de encontrar um intelectual de direita. Não é possível o debate e a venda de jornais sem a polêmica entre direita e esquerda. No mundo todo, mesmo quando diziam que a divisão “direita e esquerda” não existia mais, ainda assim os jornais sobreviveram, na parte de política, por conta de debates acirrados entre ... direita e esquerda! Mas no Brasil, a direita extra-acadêmica não apresentou novos quadros após Merchior.
Isso ficou mais complicado, ainda, quando do ano de 2005. A “crise do PT”, o envolvimento de quadros do alto escalão da esquerda, uma vez no poder, em esquemas de corrupção e tudo aquilo que ocorreu naquele ano dariam uma oportunidade enorme para fazer ressurgir a direita. A oportunidade que o PT deu para o pensamento conservador no Brasil não foi pequena. No entanto, não apareceu ninguém. É claro, alguns jornalistas, aqui e ali, conhecidos por serem menos opositores da esquerda do que pessoas rancorosas com determinados intelectuais da esquerda, vociferaram. Mas não eram substitutos de gente como Merchior. Nem mesmo alguns que tinham lá seus livros publicados podiam ser apresentados como capazes de encetar um diálogo qualificado com os melhores quadros da esquerda. Então, eis que os jornais tiveram de apelar. Abriram espaço para um jornalista que citava filósofos e se colocava raivosamente à direita – Olavo de Carvalho.
Mas o debate não aconteceu. Carvalho não apresentou o charme necessário, não serviu de interlocutor para nenhum intelectual da esquerda, e logo os proprietários de jornais perceberam que era melhor dispensá-lo. E assim aconteceu. A coisa piorou quando ele, destemperadamente, começou a vociferar contra a volta do ensino de filosofia na escola média, dizendo que aquilo ia tornar os estudantes em marxistas, então a imprensa de maior porte resolveu esquecer Olavo de Carvalho. O que ele falava era bobagem para todos, ninguém iria endossar algo assim. Não era, de fato, possível utilizar dele, era algo fora dos padrões do que a imprensa precisava para gerar um debate de bom nível.
Todavia, por esses dias, recebi de um ex-aluno um texto de Olavo de Carvalho, com alguns problemas. Não ia tocar no assunto, pois, em geral, tanto quanto outros, não dou bola para Olavo de Carvalho, pois vi o que ele escreveu contra a volta da filosofia na escola média e percebi que ele era um simples anticomunista daqueles que a Ditadura Militar alimentava. Mas o aluno insistiu, e então cedi. Fiz uma crítica para o ex-aluno. Mas foi rápida e, na rapidez, acabei mais gerando perguntas do que resolvendo o que queria resolver. Então, tentei alinhavar os comentários que fiz de um modo mais direto, de modo a não ser injusto com Olavo de Carvalho e não ser irresponsável com meu ex-aluno. Essa é a história toda.
Na boa tradição uspiana a qual pertenço (e por mais que tenha criticas a ela não a renego), escrevi o que está abaixo. Quem realmente for honesto intelectualmente e não tiver só ódio, talvez leia isso sem apelar (em geral, a direita gosta de apelar - igual à extrema esquerda -, dizendo que eu "exponho minha esposa"; ela é modelo profissional e se expõe por conta própria, eu apenas admiro a beleza dela e conto com ela para o amor, talvez isso deixe alguns mal amados da direita e da esquerda furiosos). Como sempre, a função do filósofo, que cumpro há trinta anos, é a de ser honesto e sincero. Tenho certeza que várias pessoas irão entender. Mas, sei, que alguns que são ideologicamente cegos, só saberão xingar.
* * *
Vejamos onde eu critiquei Olavo de Carvalho. Eis o trecho dele, agora inteiro:
"O filósofo é, pois, precisamente o contrário de um “pensador”. Platão chamava-o “amante de espetáculos”. Sim, o que o filósofo ama é aquilo que, vindo do espetáculo do ser, transcende infinitamente a clausura do pensar e do pensado. Por isto ele é também o amante da sabedoria: o caminho para a sabedoria só pode ser “para cima” e “para fora” — o eu pensante sacrifica-se, consente em deixar de ser o centro do mundo para ceder lugar à realidade que o transcende. “Ser objetivo é morrer um pouco”, dizia F. Schuon." [Olavo: http://www.olavodecarvalho.org/semana/pensadores.htm)]
Desse trecho, podemos entender duas coisas:
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Vejamos onde eu critiquei Olavo de Carvalho. Eis o trecho dele, agora inteiro:
"O filósofo é, pois, precisamente o contrário de um “pensador”. Platão chamava-o “amante de espetáculos”. Sim, o que o filósofo ama é aquilo que, vindo do espetáculo do ser, transcende infinitamente a clausura do pensar e do pensado. Por isto ele é também o amante da sabedoria: o caminho para a sabedoria só pode ser “para cima” e “para fora” — o eu pensante sacrifica-se, consente em deixar de ser o centro do mundo para ceder lugar à realidade que o transcende. “Ser objetivo é morrer um pouco”, dizia F. Schuon." [Olavo: http://www.olavodecarvalho.org/semana/pensadores.htm)]
Desse trecho, podemos entender duas coisas:
1) literalmente, no trecho mal construído por Olavo: "o filósofo é, pois, precisamente o contrário de um 'pensador'. Platão chamava-o de 'amante do espetáculo'.
(2) tomando no contexto, e não isoladamente: "o filósofo é o amante do que vindo do espetáculo do ser, o transcende".
Caso fiquemos com (1), simplesmente, o erro de Olavo é evidente. O filósofo, para Platão, não é o amante do espetáculo. Olavo se confundiu. Caso fiquemos com (1) e (2), para salvar Olavo, então melhora bem, pois aí dá para ser generoso e perceber que (1) pode não ter sido um erro, apenas uma frase mal construída. Ele teria apenas trocado as palavras em uma frase mal construída, e eu, com má vontade, teria criticado, mas poderia deixar passar. Certo? Sim, quanto isso, eu concedo. Ele não quis dizer que o filósofo é o “amante do espetáculo”. O modo como ele fez a frase dá essa impressão, mas lendo com boa vontade, podemos entender o que ele diz o correto.
Mas esse não era o problema que afligia meu aluno. E tive de continuar a correção. Então, vejamos como continua o texto.
Ao citar Platão, Olavo induz o leitor – mesmo o que desconsidera a inversão que poderia ser vista em (1) – a achar que o autor vai continuar na senda platônica. Mas aí ele muda, e vai por outro lado conceitual: ele assume que o filósofo é o que vai do espetáculo do ser para sua transcendência. Ou seja, o filósofo de fato não é o amante do espetáculo, pois o transcende. Mas isso, agora sim eu tenho razão, não é correto. Não completamente. Não em Platão. Em Platão, o filósofo vai das formas para as coisas, não das coisas (do espetáculo) para as Idéias ou Formas. Quem vai das coisas (do espetáculo) para as Idéias é Aristóteles. Bom, mas vamos tentar não incriminar Olavo. Vamos ser, novamente, generosos. Como?
Ou seja, vamos imaginar que Olavo não inverteu nada na primeira frase. Ou seja, (1) não é um erro, é apenas uma frase mal construída. Pronto, isso nós já havíamos concedido. Vamos imaginar que (2) é apenas uma alusão, e que a frase em seguida de (2) não filia Olavo ao platonismo, portanto, era apenas um exemplo para ele mesmo, para poder falar da sua posição própria posição filosófica ou do modo como ele entende a filosofia (aliás, algo duro de compartilhar!).
Então, se perdoamos tudo, finalmente, já suados, encontramos que Olavo está dizendo que o filósofo (segundo ele próprio) escapa do cotidiano, pois não fica no "dado". Todavia, ainda sobra um problema: ele diz que o filósofo não é um "pensador". Novamente, algo duro de engolir: o pensador, para ele, consegue transcender a "clausura do pensar". Fantástico! Isso é que é o impossível. Como que alguém consegue isso? Ora, só há um modo, não sendo mais filósofo. O filósofo de Olavo é, então, não mais filósofo, mas é um religioso – e daqueles fervorosos, até mágicos. Pois enquanto está pensando, está preso, e depois que sai do pensamento 'para fora' e 'para cima' (vai para onde?), o filósofo vai para a 'sabedoria'. Nem os grandes místicos falaram assim.
O problema da objetividade não pode ser tratado dessa maneira, com mágica. Filosoficamente, ele tem de ser ponderado como faço abaixo. Vejam.
Quando tentamos chegar a alguma objetividade, como agimos? Por exemplo, concordamos que o computador que está na minha frente agora não é uma invenção minha, é objetivo, ainda assim, como que fiz isso? Como que eu concluo que ele é objetivo? Fiz isso pela linguagem, afirmando que o computador está na minha frente, e fiz pela percepção, que neste caso guarda a estrutura da linguagem (ou do pensamento), para distinguir que se trata de um computador e não de um cavalo. Então, quando sou objetivo, ainda assim, estou no campo da linguagem e do pensamento. É na linguagem que afirmo que o computador está aí e não é invenção; na minha linguagem, e segundo meu pensamento.
Transcender, para filósofos, não é escapar do pensamento, é, ao contrário, pensar cada vez mais para poder compartilhar de outros pensamentos: a objetividade é uma função da intersubjetividade, diria Habermas. Platão e Aristóteles sabiam disso, ainda que, apenas em parte. Por isso podiam bem mudar de opinião. Platão, quando checado por Aristóteles quanto à sua concepção de Idéia e de Forma (por meio do argumento de Aristóteles do Terceiro Homem), titubeou. Platão, ele próprio, começou a colocar problemas para sua concepção de Formas e Idéias. E por isso os scholars (Gregory Vlastos à frente) mostram que Platão, ao final da vida, pode ter abandonado o platonismo. Platão começou a achar que era melhor levar em consideração as críticas de Aristóteles do ficar, ele próprio, acreditando que sendo filósofo poderia ter acesso ao Mundo das Idéias. Mas mesmo que ele tivesse acesso ao mundo das idéias, isso seria por meio da afinidade entre as Idéias e o seu pensamento, por meio do rememoração. Ou seja, nem mesmo Platão, dependendo da leitura que façamos dele, advogou a possibilidade de sairmos do pensamento. Ou seja, a transcendência, para os filósofos, não é a transcendência de escapar do pensamento, como Olavo quer. Ele confunde o próprio vínculo religioso, que deve ter, com fazer filosofia. Neste caso, então, não é que ele está errado, mas o fato é que ele está fora do campo da filosofia, do campo do uso da razão. Ele adota uma posição de religioso ou, melhor, místico - mágico.
Bem, espero ter esclarecido os que teimam, por ideologia, não acreditar que as ideologias cegam. Acho que o fervor da direita, de Olavo, é que talvez o vincule a algum poder religioso que ele confere a si mesmo, e isso o torna confuso e, desse modo, ele não consegue filosofar. Ele acaba acreditando na magia: ele pode escapar do pensamento e atingir as coisas. Uma mágica mesmo.
O que fiz aqui para tentar ser "objetivo" aqui neste texto? Saí do pensamento? Não, eu escutei outros, vi que eu podia ter sido muito simples na primeira acusação, e melhorei minha argumentação, tentando tornar-me objetivo. Isso é ser um pensador filosófico, não um religioso que abandona o pensamento para escutar a "sabedoria" fora ou acima do pensamento.
Não vejo nenhum problema em pessoas seguirem o misticismo ou a magia. Mas, essa não é a minha praia. Não era a praia de José Guilherme Merchior. Nos anos oitenta, a direita, nas mãos dele, não era isso que é hoje, essa coisa pré-moderna.
Paulo Ghiraldelli Jr.
"O filósofo da cidade de São Paulo"
Caso fiquemos com (1), simplesmente, o erro de Olavo é evidente. O filósofo, para Platão, não é o amante do espetáculo. Olavo se confundiu. Caso fiquemos com (1) e (2), para salvar Olavo, então melhora bem, pois aí dá para ser generoso e perceber que (1) pode não ter sido um erro, apenas uma frase mal construída. Ele teria apenas trocado as palavras em uma frase mal construída, e eu, com má vontade, teria criticado, mas poderia deixar passar. Certo? Sim, quanto isso, eu concedo. Ele não quis dizer que o filósofo é o “amante do espetáculo”. O modo como ele fez a frase dá essa impressão, mas lendo com boa vontade, podemos entender o que ele diz o correto.
Mas esse não era o problema que afligia meu aluno. E tive de continuar a correção. Então, vejamos como continua o texto.
Ao citar Platão, Olavo induz o leitor – mesmo o que desconsidera a inversão que poderia ser vista em (1) – a achar que o autor vai continuar na senda platônica. Mas aí ele muda, e vai por outro lado conceitual: ele assume que o filósofo é o que vai do espetáculo do ser para sua transcendência. Ou seja, o filósofo de fato não é o amante do espetáculo, pois o transcende. Mas isso, agora sim eu tenho razão, não é correto. Não completamente. Não em Platão. Em Platão, o filósofo vai das formas para as coisas, não das coisas (do espetáculo) para as Idéias ou Formas. Quem vai das coisas (do espetáculo) para as Idéias é Aristóteles. Bom, mas vamos tentar não incriminar Olavo. Vamos ser, novamente, generosos. Como?
Ou seja, vamos imaginar que Olavo não inverteu nada na primeira frase. Ou seja, (1) não é um erro, é apenas uma frase mal construída. Pronto, isso nós já havíamos concedido. Vamos imaginar que (2) é apenas uma alusão, e que a frase em seguida de (2) não filia Olavo ao platonismo, portanto, era apenas um exemplo para ele mesmo, para poder falar da sua posição própria posição filosófica ou do modo como ele entende a filosofia (aliás, algo duro de compartilhar!).
Então, se perdoamos tudo, finalmente, já suados, encontramos que Olavo está dizendo que o filósofo (segundo ele próprio) escapa do cotidiano, pois não fica no "dado". Todavia, ainda sobra um problema: ele diz que o filósofo não é um "pensador". Novamente, algo duro de engolir: o pensador, para ele, consegue transcender a "clausura do pensar". Fantástico! Isso é que é o impossível. Como que alguém consegue isso? Ora, só há um modo, não sendo mais filósofo. O filósofo de Olavo é, então, não mais filósofo, mas é um religioso – e daqueles fervorosos, até mágicos. Pois enquanto está pensando, está preso, e depois que sai do pensamento 'para fora' e 'para cima' (vai para onde?), o filósofo vai para a 'sabedoria'. Nem os grandes místicos falaram assim.
O problema da objetividade não pode ser tratado dessa maneira, com mágica. Filosoficamente, ele tem de ser ponderado como faço abaixo. Vejam.
Quando tentamos chegar a alguma objetividade, como agimos? Por exemplo, concordamos que o computador que está na minha frente agora não é uma invenção minha, é objetivo, ainda assim, como que fiz isso? Como que eu concluo que ele é objetivo? Fiz isso pela linguagem, afirmando que o computador está na minha frente, e fiz pela percepção, que neste caso guarda a estrutura da linguagem (ou do pensamento), para distinguir que se trata de um computador e não de um cavalo. Então, quando sou objetivo, ainda assim, estou no campo da linguagem e do pensamento. É na linguagem que afirmo que o computador está aí e não é invenção; na minha linguagem, e segundo meu pensamento.
Transcender, para filósofos, não é escapar do pensamento, é, ao contrário, pensar cada vez mais para poder compartilhar de outros pensamentos: a objetividade é uma função da intersubjetividade, diria Habermas. Platão e Aristóteles sabiam disso, ainda que, apenas em parte. Por isso podiam bem mudar de opinião. Platão, quando checado por Aristóteles quanto à sua concepção de Idéia e de Forma (por meio do argumento de Aristóteles do Terceiro Homem), titubeou. Platão, ele próprio, começou a colocar problemas para sua concepção de Formas e Idéias. E por isso os scholars (Gregory Vlastos à frente) mostram que Platão, ao final da vida, pode ter abandonado o platonismo. Platão começou a achar que era melhor levar em consideração as críticas de Aristóteles do ficar, ele próprio, acreditando que sendo filósofo poderia ter acesso ao Mundo das Idéias. Mas mesmo que ele tivesse acesso ao mundo das idéias, isso seria por meio da afinidade entre as Idéias e o seu pensamento, por meio do rememoração. Ou seja, nem mesmo Platão, dependendo da leitura que façamos dele, advogou a possibilidade de sairmos do pensamento. Ou seja, a transcendência, para os filósofos, não é a transcendência de escapar do pensamento, como Olavo quer. Ele confunde o próprio vínculo religioso, que deve ter, com fazer filosofia. Neste caso, então, não é que ele está errado, mas o fato é que ele está fora do campo da filosofia, do campo do uso da razão. Ele adota uma posição de religioso ou, melhor, místico - mágico.
Bem, espero ter esclarecido os que teimam, por ideologia, não acreditar que as ideologias cegam. Acho que o fervor da direita, de Olavo, é que talvez o vincule a algum poder religioso que ele confere a si mesmo, e isso o torna confuso e, desse modo, ele não consegue filosofar. Ele acaba acreditando na magia: ele pode escapar do pensamento e atingir as coisas. Uma mágica mesmo.
O que fiz aqui para tentar ser "objetivo" aqui neste texto? Saí do pensamento? Não, eu escutei outros, vi que eu podia ter sido muito simples na primeira acusação, e melhorei minha argumentação, tentando tornar-me objetivo. Isso é ser um pensador filosófico, não um religioso que abandona o pensamento para escutar a "sabedoria" fora ou acima do pensamento.
Não vejo nenhum problema em pessoas seguirem o misticismo ou a magia. Mas, essa não é a minha praia. Não era a praia de José Guilherme Merchior. Nos anos oitenta, a direita, nas mãos dele, não era isso que é hoje, essa coisa pré-moderna.
Paulo Ghiraldelli Jr.
"O filósofo da cidade de São Paulo"

