A Origem do Arco Íris ou o Terapeuta de Deus
Às quatro da tarde chegou o paciente. A secretária não o fez esperar. A hora era aquela e ele foi posto na sala. Foi direto para o divã. Não me cumprimentou. Seu nome havia sido motivo de todo tipo de observação entre os outros médicos de nossa clínica: “Deus”.
Deveria ser “João de Deus”, eu imaginei. Ou qualquer coisa do tipo. Não entendendo o primeiro nome ao atender o telefone, a secretária marcou o que lhe pareceu ser uma última bóia para se agarrar. Essa era minha hipótese. E lá estava eu com o “Sei lá o que de Deus”.
Para começar o trabalho de um modo descontraído, fiz o que qualquer um faria. Soltei a frase que, certamente, eu esperava que ele já tivesse ouvido mais de um milhão de vezes: “Bem, é a primeira vez que vou escutar Deus diretamente e, talvez, até lhe sugerir alguma coisa!” E eis então que o trabalho começou! E que maneira esquisita de começar! Pois a resposta dele foi suave, mas sem qualquer tom de ironia, e não houve um sorriso na sua boca: “o senhor sempre me escuta, eu vivo lhe dando sugestões, hoje vamos inverter uma parte da coisa; continuará me escutando e, no entanto, hoje é o senhor quem me dará sugestões”.
Não senti qualquer ironia. Lá estava no divã um cara cujo tratamento não seria fácil! Não era alguém pensando ser Napoleão não! Era Deus. Deus em pessoa tinha vindo para uma terapia. Já havia recebido maluco de todo tipo, menos alguém que se achava tão poderoso a ponto de ser Deus e, ao mesmo tempo, impotente a ponto de vir num psiquiatra – um lugar onde poucos aceitam chegar quando estão realmente com problemas.
Nossa conversa foi surrealista. O problema dele, como muitos dos problemas de pacientes com históricos clássicos, era com a mãe e, ao mesmo tempo, com o filho. E, no caso, um problemão que envolvia um campo maior do que aquele a que eu estava acostumado: terapia de família. Ele dizia que não podia mais conviver com a sua mãe, que teimava em ser virgem mesmo tendo engravidado e parido. E ele dizia que não agüentava mais o filho, que estava narcisista demais e não se conformava em ter ficado tão feio no “Santo Sudário”. Ao mesmo tempo, ele se dizia vítima de crise de identidade, pois às vezes ele imaginava ser o filho, Jesus, mas que o pior era quando ele queria sair voando como pomba, com cara do “Espírito Santo”.
Confessei (ôps) a ele que realmente meu campo não era psicologia em favor da terapia familiar e que, além disso, eu estava acostumado a casos mais simples. E acrescentei, para não perder o paciente, uma vez que a escola dos meus filhos dependia daquilo: “Mas você vai encontrar uma saída, vamos fazer um bom trabalho”. E lá fui eu ...
Foi um dia suado aquele. E tudo foi repetido durante meses. Deus falava, eu ouvia e sugeria. O problema dele era sempre o mesmo e minhas respostas e sugestões começaram a minguar diante de um paciente tão monótono. Um dia daqueles que a gente amanhece com o diabo no corpo, resolvi provocar Deus.
Achei por bem lhe dar um tratamento de choque. Logo que ele chegou, eu passei a primeira frase irônica e não parei mais, até o fim. Perguntei a ele como estava São Pedro, e como que ficava lá a questão dos direitos trabalhistas do dito cujo, tendo dois empregos, o de guardião da Porta e ao mesmo tempo “Homem do Tempo”. Comentei sobre São João Batista, de como que ele poderia agüentar, já após tantos anos, ficar com as pernas dentro da água todo dia. Especulei sobre Tomé, se lá no Céu ele ficava enfiando o dedo em todo mundo, incrédulo. Mas após uma bateria dessas, sem parar, eu cansei, e ele não se abalou. Para tudo tinha resposta e calma, e voltava ao seu problema inicial, a mãe virgem e o filho reclamão, e ele, é claro, às turras com drama de identidade.
Mas aquele dia eu estava mesmo com o demônio, e parti para cima de Deus. Sobre a mãe, eu avisei: leve-a ao ginecologista e abra as pernas de Maria. Você resolve isso com a prova empírica. Sobre Jesus, eu fui direto: fique tranqüilo, isso é apenas adolescência. A adolescência tem mesmo ficado maior; mas passando essa fase, as preocupações com o corpo e a beleza desaparecem. E quanto ao problema dele sair feito pomba e não saber direito quem era, eu avisei: o senhor não será o único que sai como asas por aí: há gente que é gavião e pegam namoradas dos outros, há os que são corujas e não dormem à noite, tem aquelas que são peruas, e sem fazer glu-glu, ainda assim, continuam peruas. E à noite, bicho com asa não falta, embora não seja passarinho, tem asa: há homens que batendo seis da tarde viram libélulas, mariposas e o escambau.
Deus gostou da idéia e se encontrou. Ele precisava ouvir aquilo. Não sarou, pois não existe ex-gay, mas ele assumiu. E melhorou muito. E foi assim que nasceu o arco-íris. Toda vez que chove à tarde, é Deus tomando banho para a saída da noite. E então ele bota o arco-íris ali, para o pessoal do mesmo time saber que ele vem para a farra.
Paulo Ghiraldelli Jr.”O Filósofo da Cidade de São Paulo”
Deveria ser “João de Deus”, eu imaginei. Ou qualquer coisa do tipo. Não entendendo o primeiro nome ao atender o telefone, a secretária marcou o que lhe pareceu ser uma última bóia para se agarrar. Essa era minha hipótese. E lá estava eu com o “Sei lá o que de Deus”.
Para começar o trabalho de um modo descontraído, fiz o que qualquer um faria. Soltei a frase que, certamente, eu esperava que ele já tivesse ouvido mais de um milhão de vezes: “Bem, é a primeira vez que vou escutar Deus diretamente e, talvez, até lhe sugerir alguma coisa!” E eis então que o trabalho começou! E que maneira esquisita de começar! Pois a resposta dele foi suave, mas sem qualquer tom de ironia, e não houve um sorriso na sua boca: “o senhor sempre me escuta, eu vivo lhe dando sugestões, hoje vamos inverter uma parte da coisa; continuará me escutando e, no entanto, hoje é o senhor quem me dará sugestões”.
Não senti qualquer ironia. Lá estava no divã um cara cujo tratamento não seria fácil! Não era alguém pensando ser Napoleão não! Era Deus. Deus em pessoa tinha vindo para uma terapia. Já havia recebido maluco de todo tipo, menos alguém que se achava tão poderoso a ponto de ser Deus e, ao mesmo tempo, impotente a ponto de vir num psiquiatra – um lugar onde poucos aceitam chegar quando estão realmente com problemas.
Nossa conversa foi surrealista. O problema dele, como muitos dos problemas de pacientes com históricos clássicos, era com a mãe e, ao mesmo tempo, com o filho. E, no caso, um problemão que envolvia um campo maior do que aquele a que eu estava acostumado: terapia de família. Ele dizia que não podia mais conviver com a sua mãe, que teimava em ser virgem mesmo tendo engravidado e parido. E ele dizia que não agüentava mais o filho, que estava narcisista demais e não se conformava em ter ficado tão feio no “Santo Sudário”. Ao mesmo tempo, ele se dizia vítima de crise de identidade, pois às vezes ele imaginava ser o filho, Jesus, mas que o pior era quando ele queria sair voando como pomba, com cara do “Espírito Santo”.
Confessei (ôps) a ele que realmente meu campo não era psicologia em favor da terapia familiar e que, além disso, eu estava acostumado a casos mais simples. E acrescentei, para não perder o paciente, uma vez que a escola dos meus filhos dependia daquilo: “Mas você vai encontrar uma saída, vamos fazer um bom trabalho”. E lá fui eu ...
Foi um dia suado aquele. E tudo foi repetido durante meses. Deus falava, eu ouvia e sugeria. O problema dele era sempre o mesmo e minhas respostas e sugestões começaram a minguar diante de um paciente tão monótono. Um dia daqueles que a gente amanhece com o diabo no corpo, resolvi provocar Deus.
Achei por bem lhe dar um tratamento de choque. Logo que ele chegou, eu passei a primeira frase irônica e não parei mais, até o fim. Perguntei a ele como estava São Pedro, e como que ficava lá a questão dos direitos trabalhistas do dito cujo, tendo dois empregos, o de guardião da Porta e ao mesmo tempo “Homem do Tempo”. Comentei sobre São João Batista, de como que ele poderia agüentar, já após tantos anos, ficar com as pernas dentro da água todo dia. Especulei sobre Tomé, se lá no Céu ele ficava enfiando o dedo em todo mundo, incrédulo. Mas após uma bateria dessas, sem parar, eu cansei, e ele não se abalou. Para tudo tinha resposta e calma, e voltava ao seu problema inicial, a mãe virgem e o filho reclamão, e ele, é claro, às turras com drama de identidade.
Mas aquele dia eu estava mesmo com o demônio, e parti para cima de Deus. Sobre a mãe, eu avisei: leve-a ao ginecologista e abra as pernas de Maria. Você resolve isso com a prova empírica. Sobre Jesus, eu fui direto: fique tranqüilo, isso é apenas adolescência. A adolescência tem mesmo ficado maior; mas passando essa fase, as preocupações com o corpo e a beleza desaparecem. E quanto ao problema dele sair feito pomba e não saber direito quem era, eu avisei: o senhor não será o único que sai como asas por aí: há gente que é gavião e pegam namoradas dos outros, há os que são corujas e não dormem à noite, tem aquelas que são peruas, e sem fazer glu-glu, ainda assim, continuam peruas. E à noite, bicho com asa não falta, embora não seja passarinho, tem asa: há homens que batendo seis da tarde viram libélulas, mariposas e o escambau.
Deus gostou da idéia e se encontrou. Ele precisava ouvir aquilo. Não sarou, pois não existe ex-gay, mas ele assumiu. E melhorou muito. E foi assim que nasceu o arco-íris. Toda vez que chove à tarde, é Deus tomando banho para a saída da noite. E então ele bota o arco-íris ali, para o pessoal do mesmo time saber que ele vem para a farra.
Paulo Ghiraldelli Jr.”O Filósofo da Cidade de São Paulo”


