15/09/2007

Renan Calheiros é o próximo?



O Brasil é um país onde os cineastas e escritores perdem todas as oportunidades que lhes aparece. Será que vão perder mais essa?

Nos últimos dias de Collor como Presidente, a Casa da Dinda abrigou uma festa macabra. É boato? Jornalistas encontraram restos de rituais de magia negra. Há quem diga – e jura de pés juntos – que ali foram feitos “trabalhos” para todos os que haviam se colocado contra ou que, de alguma forma, tinham prejudicado Collor. Não só inimigos, mas amigos que fizeram “corpo mole” também teriam entrado para a “boca do sapo”.

As coisas caminham rápido no Brasil – ao menos na política, a década de noventa passou depressa. E vários dos que sabiam o que ocorreu naquela fatídica noite no santuário de Collor, não falaram mais nada, atropelados pelo cotidiano. Todavia, todos os que foram listados ali, na Casa da Dinda, foram pagando, foram recebendo a punição prevista nos “trabalhos”.

Pedro Collor morreu logo. Ibsen Pinheiro foi jogado na lama. Quércia teve seus bens trancados e se acabou como político. PC Farias e todos que o cercavam morreram de forma misteriosa. Ulisses Guimarães desapareceu no mar. A lista era imensa, e há quem afirme ninguém escapou. Que ninguém escapará.

As desgraças pararam de acontecer e, alguns, que se imaginavam na lista, suspiraram aliviados. Eis, então, que o fio do destino voltou a funcionar. Covas morreu e Suplicy virou corno público. Zé Dirceu foi cassado e Genoíno foi esfolado legalmente. Lula se envolveu em um escândalo igual ou até pior que o de Collor. Curiosamente, isso só ocorreu por uma delação: o mesmo homem que foi fiel a Collor até o último momento, Roberto Jefferson, foi quem destruiu Lula e o PT. Enquanto tudo isso acontecia, Collor voltou para a política com dois salários, o de senador e o de ex-presidente. E com nova mulher, nova vida. Tudo coincidência?

Renan Calheiros nunca ficou sabendo se seu nome estava ou não na “boca do sapo”, no agora lendário encontro das forças da escuridão, lá na Casa da Dinda. Renan não é supersticioso, mas há quem diga que ele esperou algum tempo para começar a botar as manguinhas de fora. Ele havia sido um dos únicos sobreviventes da Era Collor. Ficou na política em posição confortável enquanto seu amigo, o ex-presidente, amargou o auto-exílio e o ostracismo. Um ano, dois, três ...uma década. Quase duas décadas! Renan acreditou que ele estava “limpo”. E então se deu uma chance.

A chance que Renan se deu se chamava Mônica. Para um senador feioso e, sabe-se lá, talvez não muito capaz com as mulheres, Mônica era um “pedaço de mau caminho”. E eis que a moça deu o velho golpe da barriga. Renan Calheiros tinha lá suas escorregadas em termos de “como ganhar dinheiro”. Afinal, ele havia sido do staff de Collor, e quem ali fumou, ali entortou a boca. Mas, de fato, tendo ficado mais velho e com as chances de ter a tira-colo e na cama, a agora capa dupla da Playboy, Renan foi em frente. Então, imaginou que deveria ganhar mais, para sustentar várias mulheres, várias famílias e, enfim, ter o poder de fogo que um presidente do Senado merece. Pois no Brasil os políticos ainda se imaginam no Império, como se o cargo fosse um título de nobreza. E foi a partir daí que ele se envolveu mais e mais com lobistas e tudo que é bicho do demônio. Então, o destino voltou a aparecer com sua teia.

O destino de Renan vai determinar o poder da Casa da Dinda. Ele escapou do expurgo no Senado. Mas seu inferno astral nem começou. Talvez seja até pior, para ele, continuar na política e em evidência, no atual momento. Cresce na cabeça de Renan a dúvida. Teria seu nome sido posto na roda, na Casa da Dinda? Hoje, com sua vitória no Senado, Renan acredita que não. Mas há uma ponta de dúvida. Ele sabe que a guerra está por vir, que isso foi apenas a primeira batalha. Há alguma defesa para ele diante de poderes que não são desse mundo?

Caso Renan seja derrotado nos próximos embates, não haverá mais nenhuma dúvida – ao menos para os escritores e cineastas inteligentes – que a reunião na Casa da Dinda realmente aconteceu e que Renan foi lembrado. Não há nenhum herói melhor que Renan Calheiros para protagonizar essa história de terror, política, rasteiras, ratoeiras e vômitos da República brasileira. Se estivéssemos nos Estados Unidos, algum cineasta inteligente colocaria isso nas telas. Com Tim Robins no papel de Renan Calheiros. Com duas pinceladas de Costa Gravas e uma de Almodóvar, teríamos mais que um clássico. Renan Calheiros é um senhor personagem. Pena ter feito o que fez em um país onde seu mérito não é reconhecido pelo mundo artístico.

Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”.
PS: não fique com raiva, leitor, pois no Brasil é assim mesmo: o filme (se saísse) também seria financiado por nós, os contribuintes, como a vida real de Renan tem sido.

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