2007: Faz cem anos que os seios modernos ganharam casa própria
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A historiografia da moda e da vestimenta é controversa quanto ao aparecimento do sutiã moderno. Há quem diga que em 2007 o sutiã faz cem anos. A melhor solução, adotada por bons historiadores, é dizer que o ano de 1907 tem a ver com a invenção do sutiã porque é o ano em que a peça começa a aparecer em revistas femininas. Mas até isso é incerto. O registro menos aleatório, mas não por isso certeiro quanto à invenção do sutiã moderno, é o do registro de patentes de peças para os seios que já não eram mais no estilo do corpete. Isso foi feito por mais de uma pessoa no século XIX.
Todavia, quem queimou seu sutiã nos anos 60, seguindo a idéia de que ele era uma peça de opressão do mundo masculino sobre o mundo feminino, atirou no que viu e acertou no que não viu. O sutiã só virou uma peça competitiva no mercado por causa da Primeira Guerra Mundial e, é claro, por causa do trabalho. Economia de metal e outros fatores do mundo masculino detonaram uma campanha contra os corpetes. Além disso, tendo entrado para valer no mundo fabril, a mulher foi aconselhada a usar uniformes masculinos, inviabilizando de vez o corpete como peça do dia-a-dia.
O corpete é hoje uma peça íntima para a mulher que vai apostar em uma noite que valha a pena, amorosa ou financeiramente ou amorosa e financeiramente. Voltou ao uso, mas não mais como peça do dia-a-dia. E o sutiã, que em um determinado momento parecia que ia de fato sumir, ressurgiu nos anos 70 e se tornou um herói do amor e da melhor convivência nos anos oitenta. Faltando vinte anos para terminar o século XX, os Estados Unidos fecharam o século que levou o nome de “o século americano” convencendo o mundo (sem precisar dos mariners!) de que os seios eram mais bonitos e mais sensuais que as nádegas, ainda que os quadris pudessem continuar valorizados.
As japonesas se americanizaram logo depois da II Guerra Mundial. Passaram a ter seios e sutiãs. E adotaram mais cedo que qualquer outro povo, além do norte americano, os sutiãs capazes de valorizar o seios, próprios dos anos 80 e 90 – e que agora já fazem parte do cotidiano de qualquer mulher no mundo todo (o mundo ocidentalizado, diríamos). O último povo ocidentalizado a ceder ao “imperialismo ianque” foi o brasileiro. Até os italianos já haviam abandonado as nádegas para se fixar em peitos. Mas, enfim, o Brasil também mudou. Carlos Drummond de Andrade, que fez uma bela poesia homenageando a bunda em detrimento dos peitos, já havia falecido quando a bunda brasileira bateu em retirada, derrotada na guerra da moda e na preferência nacional. A própria cerveja que fazia a propaganda da “preferência nacional”, fundindo o seu nome com a imagem das nádegas, mudou o marketing. Os seios, e com eles os novos sutiãs americanos, haviam chegado para valer.
Os americanos não conseguiram derrotar o comunismo. Este caiu de maduro, ou melhor, de podre. E os norte-americanos derrotaram Sadam Hussein com um preço muito alto. Mas na guerra da estética, eles foram os responsáveis pela vitória obtida. É claro que trouxeram para o interior dos Estados Unidos as bundas de latinas e deram algum status para elas no cenário multicultural da América. Os Estados Unidos podem manter a balança comercial desfavorável, é claro, mas isso não significa que estão perdendo. Eles estão sempre trocando favores, onde em geral saem ganhando. Orientais e latinas passaram a contar como mulheres sensuais nos Estados Unidos, enquanto que o mundo todo passou a ver em Pâmela Anderson o ideal universal dos peitos. Foi uma troca.
Quer gostemos ou não, o fato é que essa via de americanização do mundo, uma das que eu não acreditava que iria ocorrer, ocorreu (a outra era o futebol, que eu imaginava que iria emplacar nos Estados Unidos, mas não entre as meninas!). E não se trata mais de uma imposição dos homens sobre as mulheres. Ao contrário, foi uma decisão feminina adotar seios maiores e usar sutiãs capazes de valorizar os seios. Os homens-homens que negavam que iriam gostar, gostaram. Eles foram a reboque de uma decisão completamente feminina. As mulheres decidiram que iriam ampliar a comissão de frente, que estariam mais seguras com airbags maiores, mais elevados e mais juntos, e os homens brasileiros, tão aparentemente obcecados por bundas, se americanizaram. Os Estados Unidos fecharam com chave de ouro o século no qual se tornaram a Roma de nossos tempos. O século XXI pode não ser americano, pode até ser chinês (tomara que não, caso os chineses não optem pela democracia), mas uma coisa é certa: os americanos deixaram uma marca cultural pesada: cinema, literatura, tecnologia, filosofia e, agora, estética para além da calça jeans.
Mas, enfim, há vantagens nessa nova estética? O que ganhamos com essa americanização?
Não há dúvida que ganhamos uma situação mais confortável de convivência. Não é interessante para ninguém que sua parte trazeira seja o elemento de atração maior. Pode ser algo lindo de se ver e interessante de se mostrar. Mas é excelente que possamos tomar o rosto e os seios no conjunto, e que isso seja o objeto de desejo. É menos agressivo. E o decote não é proibido de olhar. Historicamente ele já vinha sendo objeto de desejo, muito antes da presença do sutiã. Estamos mais acostumados ao olhar focado no decote. Isso foi retomado sob guarda com o sutiã, mas foi posto em foco novamente com os sutiãs valorizadores.
Nesse caso, a história e a filosofia do corpo se cruzaram com a história e a filosofia da moda. Seios mais protuberantes induzidos por sutiãs mais qualificados terminaram por criar (ou recriar) a indústria da cirurgia e do silicone, e estas, por sua vez, voltaram a alimentar a indústria dos sutiãs e lingeries em geral. Corpo e vestimenta se acoplaram em uma única direção de um modo que nunca havia ocorrido na história moderna. Tivemos a idéia de modificar a vestimenta por causa de mudanças corporais. Mas não havíamos ainda tentado mudar os corpos para, então, dar vazão à imaginação e novas vestimentas. Agora, foi o que fizemos. Pois o sutiã não pára mais de ser inovado e reconstruído. E não é mais uma questão só de moda e medicina, mas de uma indústria avassaladora de propaganda de tudo para os seios – cosméticos e adereços – ou com os seios – carro, cerveja, cartão de crédito etc.
Tudo ocorreu como se aquela idéia freudiana a respeito da evolução fosse válida, e que a evolução nela contida só se completasse agora. A idéia básica é a de que tendo ficado sobre dois pés, o homem ampliou seu ângulo de visão e, então, distanciando o nariz e os olhos da vagina da fêmea, passou a desconsiderar a época do cio, tornando tal coisa obsoleta. A parceria sexual, portanto, deixou de ser comandada tão diretamente por ciclos da natureza. Mas, eu diria que rapidamente a natureza se vingou. Uma vez sobre duas pernas, e tendo liberdade para escolher fêmeas, o homem deve ter escolhido as com seios maiores, dado que eram as que amamentavam mais e, então, poderiam despertar nele a lembrança do alimento materno. Eis aí que a evolução cuidou do resto, dando peitos para as mulheres, ou seja, fazendo as com mais peitos terem mais parceiros e mais filhos e criando então uma nova fêmea. E sob o olhar masculino, os seios se sexualizaram. Caso isso esteja correto, então, podemos dizer que o passo final foi dado agora: nunca estivemos tão voltados para o cultivo dos seios como nessa época. E mais do que nunca ele tem sido o campo centralizador de tomadas de decisão em opções amorosas e estéticas. O gosto americano completou o processo evolutivo!
Caso isso que eu disse não possa ser levado a sério, o que fica é que, quando a menina chega na pré-adolescência, ela tende a começar a sexualizar os seios. Algumas têm sorte, e esse movimento encontra uma família e parceiros que não a castram, e então, os seios ficam a vida toda como zona erógena. Algumas meninas têm azar, e sofrem logo castrações, até mesmo antes da adolescência, e nunca sentirão nada nos seios. Em um caso ou em outro, o fato é que ambas adotam a idéia de que é necessário ter seios, e é bom que eles possam marcar presença em decotes cada vez mais ousados. Os sutiãs, aí, são fundamentais. Eles dão o volume correto e amoldam os seios de maneira a tornar a vida mais confortável e a mulher mais segura, no sentido demais auto-confiante. Isso não basta?
Caso o medo se apodere de algumas mulheres na hora do amor, dado que os seios podem estar moles ou caídos, há sempre o recurso da meia luz. Ou, então, basta esperar um pouco e fazer uma economia para uma operação. As operações estão cada vez mais baratas e, ao contrário das “lipo”, as de seio não têm produzido muitos transtornos. Mas a parte principal, que é levar o homem até o cativeiro, está garantida pelos sutiãs. Eles, de fato, após a virada americana na moda, estão com tudo. Uma vez no leito, aí, que a fêmea saiba dar conta do recado, caso o homem realmente seja homem. Aliás, o homem-homem não é muito exigente. E se os seios não forem tudo que ele esperava, mas tiverem sensibilidade, ele vai ficar satisfeito. Caso não sejam bonitos e não tiverem sensibilidade, mas a mulher saiba compensar, basta que depois, vestida, os sutiãs cumpram sua função, e o homem também ficará satisfeito. O homem-homem não reclama de mulher.
Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”, comemorando 2007.
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Aguarde que logo teremos um programa só sobre estética do corpo!
Todavia, quem queimou seu sutiã nos anos 60, seguindo a idéia de que ele era uma peça de opressão do mundo masculino sobre o mundo feminino, atirou no que viu e acertou no que não viu. O sutiã só virou uma peça competitiva no mercado por causa da Primeira Guerra Mundial e, é claro, por causa do trabalho. Economia de metal e outros fatores do mundo masculino detonaram uma campanha contra os corpetes. Além disso, tendo entrado para valer no mundo fabril, a mulher foi aconselhada a usar uniformes masculinos, inviabilizando de vez o corpete como peça do dia-a-dia.
O corpete é hoje uma peça íntima para a mulher que vai apostar em uma noite que valha a pena, amorosa ou financeiramente ou amorosa e financeiramente. Voltou ao uso, mas não mais como peça do dia-a-dia. E o sutiã, que em um determinado momento parecia que ia de fato sumir, ressurgiu nos anos 70 e se tornou um herói do amor e da melhor convivência nos anos oitenta. Faltando vinte anos para terminar o século XX, os Estados Unidos fecharam o século que levou o nome de “o século americano” convencendo o mundo (sem precisar dos mariners!) de que os seios eram mais bonitos e mais sensuais que as nádegas, ainda que os quadris pudessem continuar valorizados.
As japonesas se americanizaram logo depois da II Guerra Mundial. Passaram a ter seios e sutiãs. E adotaram mais cedo que qualquer outro povo, além do norte americano, os sutiãs capazes de valorizar o seios, próprios dos anos 80 e 90 – e que agora já fazem parte do cotidiano de qualquer mulher no mundo todo (o mundo ocidentalizado, diríamos). O último povo ocidentalizado a ceder ao “imperialismo ianque” foi o brasileiro. Até os italianos já haviam abandonado as nádegas para se fixar em peitos. Mas, enfim, o Brasil também mudou. Carlos Drummond de Andrade, que fez uma bela poesia homenageando a bunda em detrimento dos peitos, já havia falecido quando a bunda brasileira bateu em retirada, derrotada na guerra da moda e na preferência nacional. A própria cerveja que fazia a propaganda da “preferência nacional”, fundindo o seu nome com a imagem das nádegas, mudou o marketing. Os seios, e com eles os novos sutiãs americanos, haviam chegado para valer.
Os americanos não conseguiram derrotar o comunismo. Este caiu de maduro, ou melhor, de podre. E os norte-americanos derrotaram Sadam Hussein com um preço muito alto. Mas na guerra da estética, eles foram os responsáveis pela vitória obtida. É claro que trouxeram para o interior dos Estados Unidos as bundas de latinas e deram algum status para elas no cenário multicultural da América. Os Estados Unidos podem manter a balança comercial desfavorável, é claro, mas isso não significa que estão perdendo. Eles estão sempre trocando favores, onde em geral saem ganhando. Orientais e latinas passaram a contar como mulheres sensuais nos Estados Unidos, enquanto que o mundo todo passou a ver em Pâmela Anderson o ideal universal dos peitos. Foi uma troca.
Quer gostemos ou não, o fato é que essa via de americanização do mundo, uma das que eu não acreditava que iria ocorrer, ocorreu (a outra era o futebol, que eu imaginava que iria emplacar nos Estados Unidos, mas não entre as meninas!). E não se trata mais de uma imposição dos homens sobre as mulheres. Ao contrário, foi uma decisão feminina adotar seios maiores e usar sutiãs capazes de valorizar os seios. Os homens-homens que negavam que iriam gostar, gostaram. Eles foram a reboque de uma decisão completamente feminina. As mulheres decidiram que iriam ampliar a comissão de frente, que estariam mais seguras com airbags maiores, mais elevados e mais juntos, e os homens brasileiros, tão aparentemente obcecados por bundas, se americanizaram. Os Estados Unidos fecharam com chave de ouro o século no qual se tornaram a Roma de nossos tempos. O século XXI pode não ser americano, pode até ser chinês (tomara que não, caso os chineses não optem pela democracia), mas uma coisa é certa: os americanos deixaram uma marca cultural pesada: cinema, literatura, tecnologia, filosofia e, agora, estética para além da calça jeans.
Mas, enfim, há vantagens nessa nova estética? O que ganhamos com essa americanização?
Não há dúvida que ganhamos uma situação mais confortável de convivência. Não é interessante para ninguém que sua parte trazeira seja o elemento de atração maior. Pode ser algo lindo de se ver e interessante de se mostrar. Mas é excelente que possamos tomar o rosto e os seios no conjunto, e que isso seja o objeto de desejo. É menos agressivo. E o decote não é proibido de olhar. Historicamente ele já vinha sendo objeto de desejo, muito antes da presença do sutiã. Estamos mais acostumados ao olhar focado no decote. Isso foi retomado sob guarda com o sutiã, mas foi posto em foco novamente com os sutiãs valorizadores.
Nesse caso, a história e a filosofia do corpo se cruzaram com a história e a filosofia da moda. Seios mais protuberantes induzidos por sutiãs mais qualificados terminaram por criar (ou recriar) a indústria da cirurgia e do silicone, e estas, por sua vez, voltaram a alimentar a indústria dos sutiãs e lingeries em geral. Corpo e vestimenta se acoplaram em uma única direção de um modo que nunca havia ocorrido na história moderna. Tivemos a idéia de modificar a vestimenta por causa de mudanças corporais. Mas não havíamos ainda tentado mudar os corpos para, então, dar vazão à imaginação e novas vestimentas. Agora, foi o que fizemos. Pois o sutiã não pára mais de ser inovado e reconstruído. E não é mais uma questão só de moda e medicina, mas de uma indústria avassaladora de propaganda de tudo para os seios – cosméticos e adereços – ou com os seios – carro, cerveja, cartão de crédito etc.
Tudo ocorreu como se aquela idéia freudiana a respeito da evolução fosse válida, e que a evolução nela contida só se completasse agora. A idéia básica é a de que tendo ficado sobre dois pés, o homem ampliou seu ângulo de visão e, então, distanciando o nariz e os olhos da vagina da fêmea, passou a desconsiderar a época do cio, tornando tal coisa obsoleta. A parceria sexual, portanto, deixou de ser comandada tão diretamente por ciclos da natureza. Mas, eu diria que rapidamente a natureza se vingou. Uma vez sobre duas pernas, e tendo liberdade para escolher fêmeas, o homem deve ter escolhido as com seios maiores, dado que eram as que amamentavam mais e, então, poderiam despertar nele a lembrança do alimento materno. Eis aí que a evolução cuidou do resto, dando peitos para as mulheres, ou seja, fazendo as com mais peitos terem mais parceiros e mais filhos e criando então uma nova fêmea. E sob o olhar masculino, os seios se sexualizaram. Caso isso esteja correto, então, podemos dizer que o passo final foi dado agora: nunca estivemos tão voltados para o cultivo dos seios como nessa época. E mais do que nunca ele tem sido o campo centralizador de tomadas de decisão em opções amorosas e estéticas. O gosto americano completou o processo evolutivo!
Caso isso que eu disse não possa ser levado a sério, o que fica é que, quando a menina chega na pré-adolescência, ela tende a começar a sexualizar os seios. Algumas têm sorte, e esse movimento encontra uma família e parceiros que não a castram, e então, os seios ficam a vida toda como zona erógena. Algumas meninas têm azar, e sofrem logo castrações, até mesmo antes da adolescência, e nunca sentirão nada nos seios. Em um caso ou em outro, o fato é que ambas adotam a idéia de que é necessário ter seios, e é bom que eles possam marcar presença em decotes cada vez mais ousados. Os sutiãs, aí, são fundamentais. Eles dão o volume correto e amoldam os seios de maneira a tornar a vida mais confortável e a mulher mais segura, no sentido demais auto-confiante. Isso não basta?
Caso o medo se apodere de algumas mulheres na hora do amor, dado que os seios podem estar moles ou caídos, há sempre o recurso da meia luz. Ou, então, basta esperar um pouco e fazer uma economia para uma operação. As operações estão cada vez mais baratas e, ao contrário das “lipo”, as de seio não têm produzido muitos transtornos. Mas a parte principal, que é levar o homem até o cativeiro, está garantida pelos sutiãs. Eles, de fato, após a virada americana na moda, estão com tudo. Uma vez no leito, aí, que a fêmea saiba dar conta do recado, caso o homem realmente seja homem. Aliás, o homem-homem não é muito exigente. E se os seios não forem tudo que ele esperava, mas tiverem sensibilidade, ele vai ficar satisfeito. Caso não sejam bonitos e não tiverem sensibilidade, mas a mulher saiba compensar, basta que depois, vestida, os sutiãs cumpram sua função, e o homem também ficará satisfeito. O homem-homem não reclama de mulher.
Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”, comemorando 2007.
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Aguarde que logo teremos um programa só sobre estética do corpo!

