08/10/2007

A Belíndia no Orkut de Jurandir Freire Costa


Jurandir Freire Costa é meu amigo e pertence à mesma raça que eu. Somos marcuseanos-rortianos-davidsonianos. Jurandir vê “Tropa de Elite” e “O ano em que meus pais saíram de férias” como espelhando um corte no Brasil real, o de 1970 e o de 2007 (veja artigo aqui). A violência física vinda da violência política foi substituída pela violência quase denominada geral, que é culpa das elites. Parece que é esse o diagnóstico dele a respeito do quadro doentio que estaríamos vivendo.

Jurandir está convencido que nossas elites são incapazes de serem elites. Mais do que qualquer outro grupo social elas teriam sido as responsáveis por não cumprirmos o destino que Stefan Zweig (que se matou aqui em nossa terra) nos reservou ao dizer a célebre frase “Brasil, país do futuro”. Nossas elites não nos teriam conduzido ao futuro, e sim ao fim de qualquer possibilidade de futuro. Em parte, compartilho do sentimento de Jurandir, o de que nossos governantes, de todos os tipos, em sua maioria foram incapazes de nos dar esperanças mais prolongadas em relação à construção de uma teia social menos injusta. Todavia, não creio que consigo ver o que Jurandir vê de muito positivo, ainda que de modo menos afirmativo que outros, nos “ideais de 68”. E isso me faz, também, conversar do presente de modo diferente do dele.

É claro que Jurandir não é Olgária Matos – outra pessoa com quem afino vários sentimentos e alguns ideais – e, então, coloca em seus textos passagens bem menos otimistas e saudosistas em relação ao que foi “68”. Mas, ainda assim, ele tem lá sua saudade. Eu não tenho, ainda que exista uma mística forte sobre aqueles anos pairando na cabeça de gente como eu. No meu entendimento, a “geração de 68” tinha um componente autoritário, até mesmo totalitário, de fundo comunista, que levou uma parte dela aos movimentos revolucionários – acusados de terroristas – no Ocidente dos anos setenta. O Exército Simbionês de Libertação ou as Brigadas Vermelhas nunca me trouxeram qualquer esperança. Muito menos eu vi sentido na guerrilha urbana (ou do Araguaia) brasileira, apesar de ter sofrido na pele a repressão a ela. Eu nunca deixei de notar que os jovens “do outro lado” haviam queimado seus corpos, pedindo o fim de regime do tipo do instaurado na URSS. Portanto, escapar aqui da nossa ditadura e criar um mundo melhor não me parecia algo que poderia ser levado adiante pelos comunistas, pois eles apoiavam uma ditadura até pior que a nossa. E hoje, quando velhinhos como Oscar Nyemeier falam bem de Cuba, e conquistam algumas meninas do PCdoB, eu penso que agora é caso de esclerose – dele e delas!

Na verdade houve dois “68”. E talvez seja isso que a geração de Jurandir (e também de Olgária, parece não querer aceitar). Um “68” foi o do Ocidente, contra o capitalismo; outro foi o do Leste, contra o comunismo. Marcuse foi herói daquele tempo, ao menos para o meu gosto, por ter denunciado ambos como regimes perigosos e, também, por não ter dito que a volta ao mundo feudal – proposta mais tarde pela Teologia da Libertação que ainda está na base do PT e do MST – seria a solução. Marcuse imaginava (mais ou menos como Horkheimer), que o mal tinha raízes mais profundas, filosóficas, e que havia se perdido lá se sabe onde, em um passado tão remoto que nem se poderia falar em se fazer a história do que foi perdido. Talvez pudéssemos apenas fazer uma filosofia meio que ficcional. A idéia de Marcuse era a de lembrar, por exemplo, do período helenista, quando o hedonismo foi mal interpretado, quando não foi visto como um bom caminho para a eudaimonia. Talvez ali nós tenhamos errado feio – devíamos ter dado mais atenção a Epicuro.

Apesar de simpatizante do movimento de esquerda e de me entender como uma pessoa de esquerda, aos 17 anos, no colégio, eu me via muito mais seduzido por Marcuse do que pela idéia simples de comunismo. Sempre fui um socialista arredio aos que não gostavam da liberdade americana. Até hoje os frankfurtianos me atraem por isso – eles eram os marxistas que davam valor à liberdade individual.

Mas voltemos ao que existiu nos anos setenta, que Olgária Matos e Jurandir Freire Costa, ambos próximos em idade e diferentes de mim em pouco mais de uma década, não comentam (a não ser que perdi alguns de seus escritos). Eles foram estudantes nos anos sessenta. Nos anos setenta, eles já estavam se encaminhando para serem professores e filósofos renomados. Estavam começando a se transformar e em parte das elites que, agora, os decepcionam. Não por dinheiro, mas por saber e diploma, eles integraram as elites bem antes do que eu. Ser intelectual e ter uma cátedra universitária no Brasil, quando eles assim o fizeram (Jurandir ainda é professor universitário) e também quando eu assim o fiz, de fato era ser da elite. Além disso, nossos livros educaram vários dos filhos de nossos governantes. Nossos textos chegaram a ter algum peso em algumas idéias de gente que decide – e ainda é assim. Desse modo, não vejo que podemos nos colocar de um lado, e a elite de outro.

Outra coisa que me é estranha é a crença de que a guerra dos anos setenta era uma guerra consciente, entre dois lados politizados, e que hoje a guerra “do todos contra todos”, a guerra da favela e da polícia com a população atarantada no meio, é menos consciente e mais violenta. Não é verdade. Há mais coisa envolvida.

É preciso lembrar que o crime organizado – de um modo parecido com o de hoje – já existiu no passado. E o cinema do passado o retratou. E os esquadrões da morte também foram realidade. O cinema também os retratou. Haveria algo nos filmes de hoje mais terríveis sobre nossa realidade do que aquilo que foi apresentado em “Lúcio Flávio, passageiro da agonia”? Duvido. Nosso cinema é especialista em trazer nossas mazelas para a tela com um grau de realismo doloroso. Além disso, é necessário lembrar que a violência política jogou muitos em prisões comuns, com presos comuns, e os frutos disso não foram bons. Quem viveu aquele período e passou ao menos um dia na cadeia sabe que nenhum dos dois filmes atuais sobre violência brasileira apresenta um mundo menos sem saída do que qualquer filme honesto feito naqueles dias de “Lúcio Flávio” poderia apresentar. (Aliás, cá entre nós, essa vocação do cinema brasileiro no sentido de apresentar nossas mazelas “realisticamente” é menos crítica do que a do cinema americano, quando apresenta as mazelas americanas. Apenas parece ser crítica por causa de que é mais impactante para nós, dado nossa identificação mais rápida com as cenas, os lugares e a linguagem.).

Nos anos setenta veio o “terrorismo”, a repressão a todo tipo de libertarismo por parte de oposição e governo em muitos países, e a chegada da droga pesada entre os jovens no Brasil; não mais a droga chegava aos ricos para consumo e aos pobres para a venda, mas ela atingia, então, a classe média – para consumo (e agora, para consumo a venda). E começou a atingir gente muito mais jovem do que antes. Muitos dos meus colegas um pouquinho mais velhos não morreram em prisões políticas, mas de algo provocado pelas drogas. Não raro, podemos lembrar das trombadas em rachas com carros dados pelo pai que, às vezes, não havia tido carro.

Assim, o corte que há entre 2007 e 1970, se é que há corte, eu o vejo menos entre questões de violência e mais em questões de democracia. Ganhamos democracia e não a utilizamos de um modo útil. Eis aí o nosso problema. Não soubemos usar da dádiva. E nos perdemos de tentativas em tentativas. Em vinte anos de democracia elegemos para a presidência um Imortal da Academia Brasileira de Letras e Udenista do Maranhão, Moneyboy de Alagoas, Solteirão Comedor de Pão de Queijo Mineiro, Doutor de Todas as Faculdade do Mundo e, enfim, Sindicalista Sem Dedo que virou Estadista de São Bernardo do Campo. Não fizeram muito. Fizeram o que podiam. Mas nos parece, às vezes, que fizeram mais o que podiam para eles mesmos do que para nós. Todavia, nós os elegemos, vivemos a democracia. Não era o que queríamos?

Vivemos atualmente em uma sociedade mais democrática que a dos anos 70, e com os jovens podendo conversar para além de barreiras de classe social de uma maneira muito mais aberta e freqüente que naquele período. Isso não só pela queda de uma série de barreiras políticas e sociais, mas também por uma queda do trânsito das comunicações, levada adiante pela tecnologia. Estamos em um mundo em que todos tropeçam e trombam com todos. E isso já não é algo feito no âmbito restrito, interno a setores sociais determinados. Assim, tudo que ocorre no submundo do crime ou na desgraça da vida policial pode “subir” para setores mais ricos e/ou mais escolarizados a ponto de filmes de hoje, como o “Tropa de Elite”, nos dizerem muito mais do que poderia nos ter dito “Lúcio Flávio”. Todavia, não é correto dizer que demos um salto para o abismo. Mas também não fizemos um caminho para sair do Terceiro Mundo.

Seguimos nossa trilha de país de Terceiro Mundo com uma parte da população candidata ao Quarto Mundo. A diferença, agora, é que alguns do Quarto Mundo, dentro do nosso Brasil, estão mais próximos de fazer sexo com as filhas de professores universitários e não mais apenas só levá-las para fumar um baseado, e sim levá-las para o tráfico, e até mesmo para o comando do tráfico – e é isso que, no fundo, desespera a classe média. A profecia do General Figueiredo de fez realidade: o morro desceu, e agora?

Os meios de comunicação de massa se democratizaram contra o gosto dos políticos. Eles ganharam do governo rádios e TVs, mas isso tem valido pouco. Não Che Guevara, e sim Bill Gates promoveu a socialização. Ao menos um tipo de socialização. Agora, todos nós conversamos com todos nós. Os jovens fazem isso com mais facilidade que os mais velhos. E o Brasil é um país com uma quantidade grande de jovens desocupados ou sem grandes perspectivas diárias. Eles estão nos vasos comunicantes que entrelaçam pessoas que antes não se entrelaçavam. E, assim, as experiências de todo se ampliam, o que é bom, mas também cresce a taxa de risco de cada um, o que nem sempre é produtivo. Computando isso ao fato de que remuneramos mal nossa polícia e nossos professores, que nosso país não tem uma política para cativar a juventude para o estudo e, enfim, que o número de empregos para os jovens é diminuto, então é grande a probabilidade de que a busca de aventura, por parte dos jovens, possa ir por trilhas pouco felizes.

Há como sair disso? Há soluções no horizonte. Mas o problema é que nossa política está emperrada. E sem política, as transformações são morosas. E as soluções ficam gastas antes de serem viabilizadas.

Nossa política parece não ter mais força para dizer que pode ter soluções. Nossa direita está velha e caduca. Por exemplo, Delfin Neto apóia Lula e a Veja está preocupada com uma ideologia que não existe mais, que é o marxismo revolucionário. O pessoal do PFL mais uma vez mudou de nome, pois já sentiam que estavam queimados. Nossa direita não anda, não progride e não ganha o status que os conservadores americanos possuem. Assim, continuam sem legitimidade. E nossa esquerda chegou no que chegou: exatamente no momento em que conquistou o governo federal, fez tudo errado. Seu único homem com discurso social-democrata produtivo – José Dirceu – era, na verdade, stalinista e deu mostras de poder estar comprometido com um terrível esquema de corrupção. E esse esquema não parecia e não parece ter sido feito sem o presidente saber; até ele foi de embrulho, quando o PT foi derrotado por um tiro só, de uma bala que estava na agulha desde 1992, a de Roberto Jefferson. Era uma bala que nem pólvora tinha, mas, blefe por blefe, a quadrilha do PT perdeu para a o único resto da quadrilha de Collor. Com isso, nossa esquerda ficou tão desacreditada quanto nossa direita. Essa impotência política se espraia como impotência social por toda a sociedade.

Todavia, o Brasil não vai melhorar ou piorar. É um país destinado ao contraste: uma “Belíndia”, disseram um dia. Vai continuar uma Belíndia. Só que agora esses dois lados do Brasil não estarão mais unidos pelo futebol e pela transamazônica ou pela Rede Globo, mas pelo Orkut. E essa união chega a todos os lares, para o bem e para o mal. Ela é resultado da democracia, e sem tem gosto de promiscuidade – com ode fato tem –, essa é uma questão que teremos de administrar individualmente, pois perdemos as forças coletivas que até bem pouco tempo pensávamos que tínhamos.

O cinema? Ah, o cinema brasileiro está fora disso. Ele ainda gatinha. Ela ainda está aquém de ser um cinema verdadeiramente capaz de gerar energias positivas.


Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”
PS: a gravura é de uma estudante diante das tropas, em Maio de 68 na França. Esse tipo de foto deu um caráter libertário ao Movimento que, na verdade, era levado adiante somente por uma parte dele.

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