23/10/2007

A cor da pele dos biólogos

O homem que ganhou o prêmio Nobel de biologia, James Watson, disse que negros são menos inteligentes que brancos. O mundo todo o quer ver pelas costas. Ele tem tentado desmentir sua declaração. Mas o laboratório em que trabalha nos Estados Unidos, mesmo tendo o cientista 79 anos, não o perdoou e o suspendeu do serviço. E sua turnê pela Europa, para lançar o seu livro Evite pessoas chatas, teve de ser cancelada. Ninguém o quer por perto. Ele se tornou o personagem número um de seu livro.

O fato em si é completamente desinteressante e, ao menos para filósofos como eu ou da minha geração, parece ser algo do “túnel do tempo”. O que chama a atenção não é Watson, mas a maneira como a comunidade de biólogos reagiu ao problema. A maioria condenou Watson. Richard Dawkins também. Todavia, novamente Dawkins quis deixar de lado o microscópio e passar a usar outro instrumento, o dos filósofos, a simples e natural razão – e nisso ele tropeçou. Para ele Watson cometeu um erro “científico”, mas não um erro “ético”, pois teria o direito de dizer o que disse.

A fala de Dawkins é interessante. Primeiro, pelo fato de que ela vai ser o elemento chave na boca da direita política. Os conservadores carolas, sempre atacados por Dawkins por razão de seu ateísmo militante, certamente vão usar esse seu argumento para dizer que Watson está sendo perseguido e é vítima de “patrulhas ideológicas”. Todavia, nessa declaração mais ou menos em favor de Watson, o erro é de Dawkins. Pois do ponto de vista ético nada há que garanta a posição de Watson ou o direito (ético) dele dizer o que disse. Dawkins confunde liberdade de expressão, que é um direito conquistado em sociedades liberais e democráticas modernas, e questões em ética, que são de base filosófica e são mensuradas por outros critérios.

A ética é o estudo da moral. Mas ao mesmo tempo é o campo de manifestação dos costumes aceitos por um povo, em especial os costumes públicos. Ética, neste caso, vem de ethos­ – efetivamente é o que se manifesta como o comportamento chancelado por um povo. E há costumes que são de fato éticos, são corretos, pois o povo que o endossa realmente o endossa, e consegue legitimidade na medida em que pode convencer outros povos que tais costumes não seriam prejudiciais mesmo aos que não o endossam. A idéia de que negros são menos inteligentes que brancos ou a expressão “negros são menos inteligentes que brancos” não é algo do âmbito da ciência. Nem mesmo o mais positivista dos cientistas acreditaria que uma expressão assim deveria ser julgada pelos parâmetros da objetividade científica, e não pelos parâmetros da objetividade da ética. Pois há muito tempo essa questão não tem a ver com ciência, e sim com ética. É uma conquista de nossa ciência e de nossa ética ter deixado tal questão não ser mais matéria de juízo dos cientistas para se transformar em matéria praticamente exclusiva do mundo ético e político.

Watson tem o direito de expressar seu racismo. E tem o direito de ser ouvido nas suas desculpas. Nós é que lhe concedemos tais direitos; fomos nós que os conquistamos e eles fazem parte de nossa cultura política ocidental e moderna. Mas, eticamente, no âmbito dos costumes, nós não temos mais chancelado tais declarações com aprovações de nosso ponto de vista ético. Nossa batalha contra a idéia de um ethos baseado em hierarquias sociais que, por sua vez, estão baseadas em cor de pele ou outras características físicas, se ampliou consideravelmente no mundo todo nos últimos 50 anos. Inclusive, não temos mais chancelado nem mesmo aquela ética que dizia que, para o bom convívio entre duas etnias em um mesmo país, o melhor seria a lei da segregação do que a lei da integração. Nossa nova ética provocou movimentos políticos enormes: a luta política e bélica contra o nazismo, o Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, a luta política (e internamente armada) contra o Apartheid e as diversas intervenções de tropas da ONU contra ameaças de genocídio mostram que nossa política e nossa ação militar dá como errada a posição racista, e assim o fazemos a partir de um julgamento ético. Ou seja, não nos reconhecemos como seguindo o nosso ethos se concordamos com o racismo. Então, às vezes ficamos tão ofendidos com o racismo, e tão temerosos do que ele pode representar e aprontar em um futuro próximo, que resolvemos agir belicamente, contra os racistas. Nenhum daqueles que pegaram em armas contra o nazismo ou contra o Apartheid ou que revidaram contra racistas em manifestações de ruas nos anos setenta, nos Estados Unidos, se acha eticamente errado. De um modo geral, ao contrário, sentimos que quem agiu assim seguiu nosso ethos ocidental, ou seja, o que queremos que seja o nosso ethos. Temos acreditado que há um melhoramento moral em nós se nossa atividade de inclusão for cada vez mais ampla. Estamos nesse caminho e cada dia que passa sentimos que vamos ter de integrar no conceito de “humanidade”, ou seja, o grupo daqueles que tem direitos, até mesmo seres que até bem pouco tempo não achávamos que estavam ao nosso lado, como “humanos”.

Então, o racismo se apresenta como não coadunável com o nosso ethos, ou ao menos com o ethos que queremos que seja o nosso ethos. Isso é tão verdade que mesmo aqueles que, em alguns momentos, tomam atitudes racistas, não querem ensinar isso aos filhos. As pessoas não querem ser identificadas pelo racismo que porventura venham a adotar, nem mesmo quando não há censura contra ele. Ninguém mais o quer como uma marca do ethos para um futuro próximo. Não é um elemento de identificação da pessoa. Não é um elemento de identificação moral, de dignidade moral ou de acerto moral.

Agora, nossas leis liberais, mas não necessariamente democráticas (e aqui é necessário ver como que em cada país o liberalismo e a democracia andam juntos ou não), podem permitir certo grau de declarações racistas. Na maioria dos países liberais e democráticos a questão cai para o plano da interpretação de especificidades jurídicas. Há a velha luta da liberdade de expressão para se manter como algo útil para a sociedade. Nesse caso, a maioria dos países modernos possui uma legislação que tenta acomodar decisões de maioria com respeito a direitos de minorias. Nesse caso, a situação sai do campo propriamente ético e entra por especificidades jurídicas e históricas. Todavia, em qualquer desses casos, independentemente da política e da legislação, o racismo continua sendo um erro ético. A declaração de Watson é um erro ético. A questão não é a de se há ou não base científica para dizer que negros são menos inteligentes que brancos. Qualquer negro pode olhar para si mesmo, hoje, e rir da frase de Watson. Em determinados lugares, muitos negros irão rir e até dizer: “ah, é um velho gagá”. E qualquer branco pode tranquilamente achar – como eu acho – que isso não é mais matéria de discussão (eu gostaria que não fosse, que já estivéssemos em outro patamar de progresso moral). No entanto, ainda assim, é um erro ético. Pois nosso ethos, nosso comportamento aceitável, não inclui tal avaliação que, enfim, não é uma avaliação que não causa discriminação. Em uma sociedade como a nossa, em que hierarquias são constituídas a partir de chancelas obtidas em testes de QI e coisas do gênero, a expressão “negros são menos inteligentes que brancos” é uma frase errada, pois ela vai gerar uma conseqüência clara se aceita; ela vai estabelecer hierarquias que não são as que achamos condizentes com nosso ethos. E vinda de quem veio, ela é de fato um erro ético maior do que se dita por outros com menos autoridade.

* * *

A ética é um dos campos de trabalho do filósofo. E o que fiz acima é exatamente, em um nível popular, explicar um tipo de erro, o erro ético. Há momentos em que os cientistas nos pedem que fiquemos quietos diante do requebrar dos astros ou da dança de bactérias, e até temos lá alguma concordância sobre isso. E fechamos o bico. Todavia, há momentos em que os cientistas deveriam fazer o mesmo em relação a questões que não são de sua alçada. Dawkins fez um erro em cima do erro de Watson. Eu corrigi. Não é pedantismo. No caso, é simplesmente dever de ofício.

Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”
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[a foto acima é de Dawkins]

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