29/11/2007

Sarney, Itamar, FHC e Lula - Duas Décadas de Batata Quente.


Quando meu avô materno tinha 50 anos, ele sabia tudo. Contava tim-tim por tim-tim de cada governo que viveu. De antes de Vargas até pertinho do tempo em que estávamos. Quando meu pai fez 50 anos, fez quase o mesmo. Eu disse “quase”– pois uma parte eu já tinha vivido. Agora chegou a minha vez! Sou eu quem está com 50 anos. E como meus filhos não estão “nem aí” com o que eu poderia contar, resolvi perturbar vocês, meus leitores. Vou contar para vocês.

Poderia começar por Jango. Apesar de eu ser muito pequeno, tenho umas duas lembranças daquele tempo muito nítidas. Uma é do meu pai. Ele estava na mesa de jantar e disse: “não temos que nos preocupar se vier o comunismo, é um regime que emprega professores, continuaremos sobrevivendo”. Meu avô era de esquerda democrática. Meu pai não era de esquerda. Meu pai era um herói da sobrevivência. Ambos tinham uma opinião comum sobre política: naquele governo o que valia a pena era Maria Teresa. Mais ou menos como a opinião que meu pai compartilhou comigo no tempo de Collor: naquele governo o que valia a pena era, mais uma vez, uma Tereza.

E da bela Maria Teresa, esposa de Jango, para a linda Teresa Collor, cunhada de Fernando Collor, valeu uma vida toda. Em relação a quase todos esses anos, fiquem tranqüilos, não vou contar tudo que teria de contar. Vou pegar o que vale a pena, a democracia. O de antes da democracia, não vale a pena.

A democracia nos deu seis presidentes. Cinco deles governaram. Caso deixemos os cinco em uma sala de espera em consultório médico, sozinhos, eles se reuniriam assim para o bate papo: Sarney e FHC iriam conversar sobre os últimos livros que leram e o que estariam pensando em escrever; Lula e Fernando Collor iriam virar as costas para os dois e procurariam encontrar uma Playboy no monte de revistas velhas. Se vendo isolado, Itamar caçoaria dos dois últimos, dizendo que eles iam achar só a Veja ali, e então sairia para tomar um café e achar – a qualquer custo – um boteco que servisse pão de queijo.

Toda a história de nossa recente democracia se resume nisso. Posso até querer falar mais, mas apenas para um leitor que realmente entendeu que seria isso mesmo que aconteceria naquela sala.

Vivi de modo bem vivido – como filósofo e como participante ativo da política todos esses anos de nossa democracia pós-1985. Exceto em relação a Collor, que fui contra o tempo todo, fui a favor e contra todos os outros presidentes. Nenhum deles acertou em tudo em errou em tudo. Mas, mais importante que isso: nenhum deles perdeu suas boas qualidades por ter sido presidente.

Sarney escreve bem, de modo elegante; e quando quer, sabe ser brilhantemente maligno com sua pena. Posso não ter lá gosto pelos temas que trata em seus livros, mas não nego a ele um elogio. Ele não expulsa o leitor de seu texto, em especial o jornalístico. Criticado por um ex-ministro seu, Bresser Pereira, Sarney deu-lhe uma resposta de mestre. Escreveu que quando Bresser foi seu ministro, avisou que ele, Sarney, poderia chamá-lo a qualquer hora, menos em dois ou três momentos da semana, pois então estaria em “sessão de análise” com seu terapeuta. E aí Sarney arremata, no texto, mais ou menos assim: o país com febre, e eis que eu acabara de empossar um homem doente para cuidar dele. Gosto do Bresser. Mas ele tem de me perdoar por eu lembrar disso. Ele poderia ter ido dormir sem aquilo, bastava não ter criticado Sarney depois de tanto tempo, tendo sido ele o ministro do homem.

Fernando Henrique Cardoso não escreve como Sarney. É bom, mas não tem essa ironia e presença de espírito. Treinado pela academia, ainda hoje, no jornal, escreve com a mão pesada. Mas nunca deixa de lançar uma idéia interessante, uma tese que vale a pena ser examinada de modo sério. Todavia, Fernando Henrique fala melhor que escreve. Principalmente quando fala solto, coloca os travessões no lugar certo, e sempre retoma bem o fio da meada. Faz algo fantástico como orador: não titubeia em iniciar uma resposta dizendo “fulano de tal é bom, mas não sabe das coisas”. “Não sabe das coisas” é uma frase ótima na boca de quem tem títulos e carreira acadêmica impecável. Usada do modo como ele usa, atinge o ponto certo. Todavia, não é por isso que eu o qualifico bem. Acho que o melhor dele é a frase “não é preciso ser burro para ser de esquerda”. Disso isso a respeito de si mesmo, quando então apostava em melhorar a economia para que isso tivesse reflexo social, em vez de ter uma política exclusivamente social. A frase é boa demais.

Diante dessa dupla, é claro que Lula e Itamar precisam de um empurrão. E mais, seria injusto cobrar do Itamar algo inusitado. Ele pegou o bonde andando. Ficou pouco tempo no governo se comparado aos outros. Eu digo apenas o seguinte: naquela noite que ele recebeu a Lilian no camarote, eu também assisti o desfile até o fim para ver os seios dela em câmara lenta, como a Globo podia fazer naquela época. Estranhamente os ventos pudicos e moralmente conservadores da Era Reagan-Thatcher está chegando somente agora no Brasil.

Agora, Lula é um caso singular. Nunca vi alguém ser ameaçado de morrer na praia durante tanto tempo e, no entanto, conseguir chegar vivo no continente e, mais que isso, tomar o próprio continente.

Quando Lula resolveu não ser mais candidato – nem ao legislativo e nem ao executivo estadual –, e então correr o país como funcionário do PT, o jornalista Clóvis Rossi não quis apostar suas fichas no sucesso da empreitada. Acreditou que aquilo poderia ser o fim de Lula. Quem poderia dizer algo diferente de Rossi? Não é fácil sobreviver na política sem mandato. Mas o próprio Rossi, no final do artigo, recolocou a questão e ponderou que Lula tinha faro político para ser oposição, então, poderia realmente acertar e, ficando afastado de tudo, ter mais cacife moral para pleitear a presidência e levar. Lula acertou.

Outro fato interessante para falar de Lula é sobre sua confiança em detalhes do mundo culto, ao qual ele não pertence. A maioria das pessoas com bem mais anos de estudo que Lula dá pouca importância para estatísticas. Lula não, ele gosta de estatísticas e confia nelas. Viu que havia projeções que indicavam que ele seria presidente, mesmo que perdesse uma ou duas vezes. Dizia para todos que estava convencido que seria presidente. Alguns não acreditavam mais nele quando ele sofreu a segunda derrota. Mas ele acreditava nele mesmo. Esperou e venceu. O mais interessante disso tudo é que venceu com a boa vontade de todo mundo – até da oposição. Há quem diga que o FHC votou nele! E os mais piadistas dizem que Serra também votou em Lula na eleição que perdeu para o ex-metalúrgico.

Vejo como positivas essas características todas aí apresentadas. Seria um erro crasso, uma falta de cabeça, tentar minar essas figuras de nossa política trocando as bolas, acusando-as de falta de inteligência ou de habilidades especiais – as que de fato possuem – por não gostar do que fizeram na presidência do país. Foram presidentes iguais a muitos que o mundo todo teve. Erraram e acertaram. Mas não perderam o que tinham, em termos pessoais, por causa de terem errado ou acertado na presidência.

É claro que cada um decepcionou aqueles que puseram fé neles de modo exagerado. Então, no meu caso, Sarney, FHC e Lula me decepcionaram. Eu estava na casa dos vinte e poucos anos. Sabia muito bem – mais do que o leitor pode imaginar – que Sarney era parte da UDN e era “golpista de 64”. Mas imaginava que ele conseguiria se superar, uma vez na presidência. Aquele episódio maltrapilho do “cinco anos para Sarney” tirou tudo dele. Creio que ele mesmo se arrepende de ter brigado tanto por aquilo.

Quando Fernando Henrique se elegeu, eu não tinha tantas esperanças nele. Mas sabia perfeitamente que ele não faria um governo desastrado. Que poderia não ter uma política social, que talvez não desse atenção para projetos sociais, mas tinha uma certeza que se confirmou: seu plano econômico era diferente dos anteriores e, ao contrário do pessoal do PT, eu via com bons olhos aquelas medidas. Aquilo iria ficar – e ficou. É difícil para o PT tirar de Fernando Henrique, mais como intelectual e política do que como presidente, o mérito de ter domado a inflação.

Com Lula a minha decepção vou maior. Ele se elegeu na primeira vez quando eu estava trabalhando nos Estados Unidos. Vi a Av. Paulista lotada de gente. Era a festa que não pudemos fazer uma década antes, contra Collor. E no começo, todo mundo empurrou. Em determinado momento, Lula chegou a não ter oposição. O que o senador Pedro Simon costuma dizer é verdade: muita gente foi procurar o Lula de boa vontade, sem troca de favor, para ajudá-lo a fazer um bom governo. Todavia, veio o ano de 2005 e tudo que não queríamos ver, vimos. Lula não conseguir explicar na TV o que havia acontecido. Dali em diante, toda vez que ele aparece na TV, eu não escuto mais. Acabou.

Muitas pessoas de esquerda, como eu, mas que não são democratas, optaram por legendas partidárias carcomidas. Outros, exatamente por conta dessas legendas de esquerda serem carcomidas, ficaram no PT. E outros ainda, para não dar “o braço a torcer” para a “nova direita” – a garotada da Veja e os blogueiros que imaginam estar na moda por conta do conservadorismo –, preferem negar o ano de 2005 e continuam a aclamar Lula. Mas eu não posso entrar nessa. Talvez daqui uns anos eu perdoe o Lula e o veja de modo mais ameno, como eu vejo, hoje, FHC e Sarney e outros. Mas, no calor do governo atual, é duro agüentar as coisas. O que se tem aí é um governo que não vai para lado nenhum, e aprofunda erros em cima de erros, negando tudo que é sensato. Então, é necessário um policiamento diário para não se deixar levar pela idéia funesta de que Lula não tem méritos pessoais.

É claro que eu não sou o Nassif, aquele menino lá do “Dinheiro Vivo”, que encontrou mais “envergadura” no Lula que no FHC. Eu não quero saber disso. Um colega me disse que quem encontra a “enverga, dura”, que se vire com ela. E também vou fingir que não escutei o Paulo Henrique Amorim dizer que o fato de FHC chamar Lula de analfabeto é preconceito de classe. Ele falou mesmo isso, o Amorim? Ah, que coisa ultrapassada. Isso valia falar em 1989, contra o Chico Anísio. Agora é coisa que todo mundo fala. Lula deixou que fizéssemos isso com ele, pois ele saiu chorando pelo Brasil todo, na época do mensalão, dizendo que era filho de analfabeto, que não tinha diploma, que havia conseguido ser presidente sem diploma universitário etc. Fez o culto da desescolarização – e paga agora por isso. Erro dele mesmo. E ele está contente onde está. Ele não está triste de estar no governo. Não está fazendo muito lá, mas não está triste. Está com a batata.

Batata quente – é isto que é. Ter o governo nas mãos é estar com a batata quente nas mãos. Você rebola e a joga para cima, mas ela volta em suas mãos, e se alguém aparece e diz: “ah, deixa que eu seguro para esfriar”. Você agarra a batata, torra do dedos, mostra lágrimas nos olhos e diz com sorriso amarelo: “nem precisa não, obrigado, ela já esfriou”.

Quando o governo Lula passar, teremos perdido oito anos. Perdido, mesmo? Em um primeiro momento, acharemos que sim. Depois, iremos esquecendo os horrores e até acharemos que foi um período de prosperidade. Não há povo mais otimista – segundo todas as estatísticas mundiais – que o brasileiro. Não há povo mais bondoso em relação aos seus governantes do que o brasileiro. Faço parte disso. E quer saber, não acho ruim sermos assim não. Os rancorosos passam mal e nem conseguem entender o Itamar naquele carnaval.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

Livros Ghiraldelli

Consulte e compre aqui com desconto: http://filosofia.pro.br

Increva-se na rede social do filósofo e ganhe um blog!

Clique no que quer ver!

Nossa Lista

Participe do grupo Portal Brasileiro da Filosofia (PBF)
E-mail:
Visitar este grupo

  © Blogger templates Newspaper III by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP