Sinédoque e "Tropa da Zelite"
Outro dia falei de um jornalista que quis me provocar e, nesse intuito, escreveu “filosofar é generalizar?”. Ele estava nervoso por causa de uma frase minha do tipo “O partido X é elitista”. Como ele tem simpatias pelo “partido X” (ou talvez até seja um militante, envergonhado, mas militante), resolveu colocar a pergunta daquela forma, como se eu estivesse mesmo generalizando. Ele errou feio.
Como expliquei em outro texto, a figura de linguagem sinédoque permite que eu faça isso. Sou autorizado pela gramática a usar uma característica de parte de um grupo, até mesmo a minoria, para qualificar o grupo todo. O leitor inteligente deve saber que não há ali um silogismo. Não houve a uma operação lógica anterior que poderia ser batizada de inferência e, então, generalização, para que se pudesse colocar aí a questão do certo ou do errado. A sinédoque é uma figura de linguagem com auto-sustentação. É um erro crasso, típico do leitor não familiarizado com as letras, fazer a objeção “não vale generalizar” quando usamos uma expressão como “o brasileiro é otimista”. É uma falta de contato com bons livros objetar “ah! mas eu conheço vários brasileiros que são pessimistas” ou “há momentos em que o brasileiro é otimista e há determinados momentos ele é pessimista”. Esse tipo de objeção é um erro, no caso de se estar diante da sinédoque.
Outra coisa é a afirmação generalizante que utiliza uma forma aparente da sinédoque, mas que, de fato, é uma generalização. O exemplo que tenho em mente no momento é de uma frase de Diogo Maynardi em entrevista na Internet, para o Digestivo Cultural. Ele diz “quase todo político é mais ou menos vagabundo”. Isso é bem diferente. A sinédoque seria utilizada se a frase fosse “político brasileiro é vagabundo” ou mesmo “político é vagabundo”. Mas ele não disse isso, pois de fato não está usando da sinédoque. O comando do pensamento dele está na direção de realmente afirmar que todo e qualquer político é “mais ou menos vagabundo”. O uso proposital de “todo”, no caso, não deixa que o enunciado possa vir a ser encaixado no quadro da sinédoque, e deve cair para o quadro de uma afirmação que demandou um raciocínio prévio. Neste caso, sim, cabe a objeção do tipo “nem todo político é meio vagabundo”.
Caso Diogo usasse “político é vagabundo” sua frase não estaria sob julgamento do correto e incorreto. Não cairia sob o tacão da lógica nem sob a guilhotina da análise semântica do discurso político. Mas, no caso, a palavra “todo” faz com que a frase entre para o rol do que se pode julgar. É evidente, então, que um observador pode dizer já de imediato “nem todo político é mais ou menos vagabundo”. Não é preciso argumentação para destruir logicamente a frase. Diogo usou uma expressão que é autofágica. Uma vez posta, ela mesma mostra um revólver apontada para a sua cabeça – a cabeça do Maynardi, no caso.
Mas a frase do Maynardi tem ainda outro defeito, uma vez que não é uma sinédoque. É que a frase, mesmo destrutível de imediato por sua força (ou melhor, fraqueza) interna, ainda deixa uma cauda longa para a análise semântica do discurso político. Vejam: “todo político é mais o menos vagabundo”. É uma frase que pede argumento. Mas ela é colocada com o intuito de pedir argumento e, ao mesmo tempo, poder ser repetida por aí sem qualquer argumento, como um trunfo na boca daquele que pega frases soltas e as repete, uma vez que são ditas por quem ele gosta, por seu guru. Neste caso, a análise semântica do discurso político nos ensina algo fácil de aprender. Frases assim, com essa característica de pedirem argumento e, no entanto, serem fáceis de serem repetidas pelo leitor menos reflexivo, são uma característica do discurso cujo objetivo é exatamente este, fornecer munição para o reacionário.
Os discursos de Hitler, Stalin, Fidel, Mussolini, Franco e Salazar podem ser estudados e eles nos darão a estrutura. O pensamento discursivo de Maynardi é relativamente baseado segundo esta estratégia: 1) caso tentem me desmentir, eu digo que a frase pedia argumentação (e de fato ela pede), e completo afirmando que o leitor que reclamou não leu o resto da minha entrevista etc.“; 2) o leitor que não reclamar, e que puder encontrar ao menos um exemplo de político mais ou menos vagabundo (ou que não encontre nenhum, apenas tenha na cabeça que político ganha bem ou coisa parecida), irá repetir a frase para si mesmo e/ou para outros. Essa segunda parte é a que interessa a Maynardi, embora seja necessário que os dois itens se apresentem para se completarem.
Podemos percorrer outros discursos e então acharemos o fio da meada da estratégia de Maynardi facilmente.
Lênin achava que o parlamento não deveria existir como instância política, apenas como instância de “serviços técnicos”. Deveria ser como a agência de correios. Recebe um projeto, analisa tecnicamente, aprova ou não aprova. Negociações não deveriam entrar no âmbito do parlamento. Essa visão burocrática do que é o congresso realmente vingou na URSS. Não foi Stalin o responsável por ela. Estava na cabeça de Lênin a tal forma. Ele tinha ódio dos políticos. Os políticos eram ricos, e em geral haviam tido boa educação e, mesmo que não tivessem boa educação, haviam aprendido a retórica adequada, de um modo a poder entrar em uma negociação. Tudo que Lênin pudesse fazer para caracterizar o político (tradicional) como um vagabundo, um inútil, ele fazia – e fez. Nabokov é um romancista interessante de se ler quando queremos ver esse ódio de Lênin aos políticos – principalmente os liberais (o pai de Nabokov era um).
Mussolini pertenceu ao parlamento, mas era derrotado por Gramsci, deputado comunista, na maioria dos embates, e então ridicularizado. Guardou imensa mágoa não só do deputado sardo, mas do próprio parlamento. Quando conseguiu, prendeu o deputado e o deixou apodrecer lá na prisão. Advogou o fim dos partidos (pois eles dividiam a nação, em vez de unificá-la) e o fechamento do parlamento. Durante seu governo, mesmo já tendo fechado o parlamento, não parou de insistir na inutilidade dos políticos e na corrupção como inerente ao processo de democracia, que exigiria tempo livre dos deputados para a negociação, a fala, a conversa. Conversar? Para quê conversar? Esta era a pergunta chave para passar a impressão de que política é a saliva gasta à toa.
No caso da semântica (política) que condena os políticos (e a política), há ma simbologia envolvida nos discursos. O exemplo mais grotesco e mais claro é o de Chavez: toda vez que ele faz um discurso contra os políticos, ele aparece de vestimenta militar. É a hora de se distinguir. Outros tipos usam outras vestimentas, mas, nesta hora, evitam a roupa tradicional do congressista, o terno e gravata. Um blazer com a camisa um pouco desabotoada ou então uma camisa de manga longa podem substituir a farda. O importante, nesta hora, é não aparecer de terno e gravata, perfeitamente utilizável depois, em outros momentos. Maynardi e outros jovens de direita atuam visualmente no mesmo estilo de Chávez.
Nos dois casos antes, os de Hitler e Mussulini (também Stalin, em menor grau), quando percorremos os discursos em italiano e em alemão, ou mesmo em boas traduções, o esquema utilizado por Maynardi (consciente ou não, isso não importa) emerge em cada parágrafo. O espaço semântico pretendido é de uma semelhança incrível. E qualquer um pode averiguar isso, inclusive pela Internet.
O que chama a atenção é que o uso dessa estratégia de Maynardi utilizada pela direita e pela extrema esquerda para desacreditar a democracia, não está longe da utilizada no nosso cotidiano, no Brasil, há não muito tempo. Peguem os discursos dos militares pró-64. Eles estavam convencidos que político é vagabundo ou corrupto, e que não importava quem viesse para o parlamento, este nunca representaria o povo, a não ser que o parlamento voltasse a funcionar sob um regime com um “quarto poder”. Este seria o Poder Moderador do imperador, que desapareceu, obviamente, com a República. Os militares e, mais especificamente, o Sistema (“S”), é que deveriam cumprir o papel do antigo Poder Moderador no tipo de “democracia” que Castelo Branco queria para nós. É claro que havia os que apenas queriam o fechamento e a extinção do parlamento. Mas a visão de Castelo e outros era diferente, e eles acertaram na estratégia.
Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e vários outros líderes golpistas não foram inteligentes o suficiente para perceber que essa doutrina do “S” já estava estabelecida antes de 1964. Eles imaginavam que o discurso contra a política seria entendido, pela população, como o discurso contra o PTB e contra o “trabalhismo” em geral, e não contra a UDN e coisas do gênero. Faltou ao Lacerda algo que diziam que ele tinha: inteligência. Na juventude ele havia sido comunista, mas não leu Lênin o suficiente para perceber que o discurso que condena o político condena a atividade política em geral, e mina o parlamento de um modo irrecuperável. Quando em 1968 Lacerda procurou Brizola, no exterior, para a “Frente Ampla”, de modo a colocar fim na ditadura que ele havia ajudado a criar, ambos não perceberam que já havia uma nova geração na vida brasileira: os pré-adolescentes, cujos irmãos mais velhos estavam na rua protestando, não concordavam com o protesto – preferiam Roberto Carlos. Os militares eram menos cultos e menos inteligentes que Lacerda? Talvez. Mas se revelaram mais espertos. Apostaram nos pais e na relação dos pais com os filhos mais novos, e não com os filhos jovens, e conseguiram apoio da classe média para aprofundar a face ditatorial do regime.
O discurso dos militares continuou sendo um discurso de nojo para com os políticos até o último presidente militar. Figueiredo participou da política, subiu em palanques, fez discurso. Mas ele mesmo dizia, a quatro paredes (paredes de vento, no caso dele): “não dá, essa coisa de agradar o povo e negociar não é comigo”. Não havia dúvida: o cheiro do cavalo lhe era mais atrativo que o do povo. A direita política, de onde vem Maynardi, pensa igual a Figueiredo (embora Figueiredo também desprezasse essa direita). Quando falam em povo, estão pensando apenas em alguns senhores, rapazes e moças dos “Jardins” (bairro rico de São Paulo).
Maynardi é jovem e impulsivo, e não sabe que pode estar construindo sua própria cova, como Carlos Lacerda. E também não sabe que seu discurso é cada vez mais parecido com o de seu fantasma: Lula. Também isso é interessante de observar na história da semântica política brasileira: Brizola e Lacerda usavam de uma estrutura retórica muito semelhante.
Maynardi fala e escreve quase que como um espelho do Lula. Tudo nele é diferente do Lula e, no entanto, tão igual. A cápsula que os amarra à linguagem demonstra parentesco. O espaço não me permite ir adiante, para uma análise mais profunda, mas dou as dicas para tal. Maynardi e Lula abusam de elementos lingüísticos autoritários, ou melhor, totalitários. As frases de Maynardi, não raro carregam o “todo” – “todo político é mais ou menos vagabundo”. Ele repete esse tipo de construção em seus textos. O objetivo é aquele já apontado acima (e isso independe da consciência dele, já disse). Ele quer agarrar o leitor não reflexivo. Lula usa do mesmo ardil, ao insistir no elemento “nunca”. O “nunca” de Lula faz o papel do “todo” de Maynardi. “Nunca em nossa história ...” – Lula faz a aderência do termo “nunca”, que elimina o termo que vem em seguida, que é o termo “história”. Pois o nunca é sem tempo e, portanto, sem história. Caso pudesse ser “nunca”, não poderia ser, seria algo sem estar na história. O “nunca antes” ameniza isso, mas continua sendo ardiloso e ideológico. Mutatis mutandis eis a função do “todo”: “todo político é mais ou menos vagabundo”. Ora, se é “todo”, então não haveria como distinguir o bom político do mau político, pois seriam iguais e o padrão desapareceria. Então, o todo é ardiloso e ideológico (pois, como mostrei, no caso não é a sinédoque).
Eu diria que esse tipo de convergência entre Maynardi e Lula, entre o jovem de direita e o velho que um dia se disse de esquerda, poderia ser batizada por meio de uma frase com algum humor: convergência “tropa da zelite”. A “tropa” é o coletivo para certos quadrúpedes. E a “zelite” é a zelite mesmo. Batizo assim, para efeito de memória. Quando você pensar em “tropa da zelite” lhe virá à cabeça esta proximidade Lula-Diogo, e você estará atento para algo que não podemos deixar acontecer. No passado, a direita e determinado populismo de esquerda falaram de modo parecido, até igual. No passado, Brizola e Lacerda, apesar de tanta diferença, acabaram nos conduzindo para um só lugar: o abraço da ditadura militar. A análise do discurso serve para que possamos não deixar erros do passado se repetirem. “Tropa da Zelite” nunca mais!
Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”
Como expliquei em outro texto, a figura de linguagem sinédoque permite que eu faça isso. Sou autorizado pela gramática a usar uma característica de parte de um grupo, até mesmo a minoria, para qualificar o grupo todo. O leitor inteligente deve saber que não há ali um silogismo. Não houve a uma operação lógica anterior que poderia ser batizada de inferência e, então, generalização, para que se pudesse colocar aí a questão do certo ou do errado. A sinédoque é uma figura de linguagem com auto-sustentação. É um erro crasso, típico do leitor não familiarizado com as letras, fazer a objeção “não vale generalizar” quando usamos uma expressão como “o brasileiro é otimista”. É uma falta de contato com bons livros objetar “ah! mas eu conheço vários brasileiros que são pessimistas” ou “há momentos em que o brasileiro é otimista e há determinados momentos ele é pessimista”. Esse tipo de objeção é um erro, no caso de se estar diante da sinédoque.
Outra coisa é a afirmação generalizante que utiliza uma forma aparente da sinédoque, mas que, de fato, é uma generalização. O exemplo que tenho em mente no momento é de uma frase de Diogo Maynardi em entrevista na Internet, para o Digestivo Cultural. Ele diz “quase todo político é mais ou menos vagabundo”. Isso é bem diferente. A sinédoque seria utilizada se a frase fosse “político brasileiro é vagabundo” ou mesmo “político é vagabundo”. Mas ele não disse isso, pois de fato não está usando da sinédoque. O comando do pensamento dele está na direção de realmente afirmar que todo e qualquer político é “mais ou menos vagabundo”. O uso proposital de “todo”, no caso, não deixa que o enunciado possa vir a ser encaixado no quadro da sinédoque, e deve cair para o quadro de uma afirmação que demandou um raciocínio prévio. Neste caso, sim, cabe a objeção do tipo “nem todo político é meio vagabundo”.
Caso Diogo usasse “político é vagabundo” sua frase não estaria sob julgamento do correto e incorreto. Não cairia sob o tacão da lógica nem sob a guilhotina da análise semântica do discurso político. Mas, no caso, a palavra “todo” faz com que a frase entre para o rol do que se pode julgar. É evidente, então, que um observador pode dizer já de imediato “nem todo político é mais ou menos vagabundo”. Não é preciso argumentação para destruir logicamente a frase. Diogo usou uma expressão que é autofágica. Uma vez posta, ela mesma mostra um revólver apontada para a sua cabeça – a cabeça do Maynardi, no caso.
Mas a frase do Maynardi tem ainda outro defeito, uma vez que não é uma sinédoque. É que a frase, mesmo destrutível de imediato por sua força (ou melhor, fraqueza) interna, ainda deixa uma cauda longa para a análise semântica do discurso político. Vejam: “todo político é mais o menos vagabundo”. É uma frase que pede argumento. Mas ela é colocada com o intuito de pedir argumento e, ao mesmo tempo, poder ser repetida por aí sem qualquer argumento, como um trunfo na boca daquele que pega frases soltas e as repete, uma vez que são ditas por quem ele gosta, por seu guru. Neste caso, a análise semântica do discurso político nos ensina algo fácil de aprender. Frases assim, com essa característica de pedirem argumento e, no entanto, serem fáceis de serem repetidas pelo leitor menos reflexivo, são uma característica do discurso cujo objetivo é exatamente este, fornecer munição para o reacionário.
Os discursos de Hitler, Stalin, Fidel, Mussolini, Franco e Salazar podem ser estudados e eles nos darão a estrutura. O pensamento discursivo de Maynardi é relativamente baseado segundo esta estratégia: 1) caso tentem me desmentir, eu digo que a frase pedia argumentação (e de fato ela pede), e completo afirmando que o leitor que reclamou não leu o resto da minha entrevista etc.“; 2) o leitor que não reclamar, e que puder encontrar ao menos um exemplo de político mais ou menos vagabundo (ou que não encontre nenhum, apenas tenha na cabeça que político ganha bem ou coisa parecida), irá repetir a frase para si mesmo e/ou para outros. Essa segunda parte é a que interessa a Maynardi, embora seja necessário que os dois itens se apresentem para se completarem.
Podemos percorrer outros discursos e então acharemos o fio da meada da estratégia de Maynardi facilmente.
Lênin achava que o parlamento não deveria existir como instância política, apenas como instância de “serviços técnicos”. Deveria ser como a agência de correios. Recebe um projeto, analisa tecnicamente, aprova ou não aprova. Negociações não deveriam entrar no âmbito do parlamento. Essa visão burocrática do que é o congresso realmente vingou na URSS. Não foi Stalin o responsável por ela. Estava na cabeça de Lênin a tal forma. Ele tinha ódio dos políticos. Os políticos eram ricos, e em geral haviam tido boa educação e, mesmo que não tivessem boa educação, haviam aprendido a retórica adequada, de um modo a poder entrar em uma negociação. Tudo que Lênin pudesse fazer para caracterizar o político (tradicional) como um vagabundo, um inútil, ele fazia – e fez. Nabokov é um romancista interessante de se ler quando queremos ver esse ódio de Lênin aos políticos – principalmente os liberais (o pai de Nabokov era um).
Mussolini pertenceu ao parlamento, mas era derrotado por Gramsci, deputado comunista, na maioria dos embates, e então ridicularizado. Guardou imensa mágoa não só do deputado sardo, mas do próprio parlamento. Quando conseguiu, prendeu o deputado e o deixou apodrecer lá na prisão. Advogou o fim dos partidos (pois eles dividiam a nação, em vez de unificá-la) e o fechamento do parlamento. Durante seu governo, mesmo já tendo fechado o parlamento, não parou de insistir na inutilidade dos políticos e na corrupção como inerente ao processo de democracia, que exigiria tempo livre dos deputados para a negociação, a fala, a conversa. Conversar? Para quê conversar? Esta era a pergunta chave para passar a impressão de que política é a saliva gasta à toa.
No caso da semântica (política) que condena os políticos (e a política), há ma simbologia envolvida nos discursos. O exemplo mais grotesco e mais claro é o de Chavez: toda vez que ele faz um discurso contra os políticos, ele aparece de vestimenta militar. É a hora de se distinguir. Outros tipos usam outras vestimentas, mas, nesta hora, evitam a roupa tradicional do congressista, o terno e gravata. Um blazer com a camisa um pouco desabotoada ou então uma camisa de manga longa podem substituir a farda. O importante, nesta hora, é não aparecer de terno e gravata, perfeitamente utilizável depois, em outros momentos. Maynardi e outros jovens de direita atuam visualmente no mesmo estilo de Chávez.
Nos dois casos antes, os de Hitler e Mussulini (também Stalin, em menor grau), quando percorremos os discursos em italiano e em alemão, ou mesmo em boas traduções, o esquema utilizado por Maynardi (consciente ou não, isso não importa) emerge em cada parágrafo. O espaço semântico pretendido é de uma semelhança incrível. E qualquer um pode averiguar isso, inclusive pela Internet.
O que chama a atenção é que o uso dessa estratégia de Maynardi utilizada pela direita e pela extrema esquerda para desacreditar a democracia, não está longe da utilizada no nosso cotidiano, no Brasil, há não muito tempo. Peguem os discursos dos militares pró-64. Eles estavam convencidos que político é vagabundo ou corrupto, e que não importava quem viesse para o parlamento, este nunca representaria o povo, a não ser que o parlamento voltasse a funcionar sob um regime com um “quarto poder”. Este seria o Poder Moderador do imperador, que desapareceu, obviamente, com a República. Os militares e, mais especificamente, o Sistema (“S”), é que deveriam cumprir o papel do antigo Poder Moderador no tipo de “democracia” que Castelo Branco queria para nós. É claro que havia os que apenas queriam o fechamento e a extinção do parlamento. Mas a visão de Castelo e outros era diferente, e eles acertaram na estratégia.
Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e vários outros líderes golpistas não foram inteligentes o suficiente para perceber que essa doutrina do “S” já estava estabelecida antes de 1964. Eles imaginavam que o discurso contra a política seria entendido, pela população, como o discurso contra o PTB e contra o “trabalhismo” em geral, e não contra a UDN e coisas do gênero. Faltou ao Lacerda algo que diziam que ele tinha: inteligência. Na juventude ele havia sido comunista, mas não leu Lênin o suficiente para perceber que o discurso que condena o político condena a atividade política em geral, e mina o parlamento de um modo irrecuperável. Quando em 1968 Lacerda procurou Brizola, no exterior, para a “Frente Ampla”, de modo a colocar fim na ditadura que ele havia ajudado a criar, ambos não perceberam que já havia uma nova geração na vida brasileira: os pré-adolescentes, cujos irmãos mais velhos estavam na rua protestando, não concordavam com o protesto – preferiam Roberto Carlos. Os militares eram menos cultos e menos inteligentes que Lacerda? Talvez. Mas se revelaram mais espertos. Apostaram nos pais e na relação dos pais com os filhos mais novos, e não com os filhos jovens, e conseguiram apoio da classe média para aprofundar a face ditatorial do regime.
O discurso dos militares continuou sendo um discurso de nojo para com os políticos até o último presidente militar. Figueiredo participou da política, subiu em palanques, fez discurso. Mas ele mesmo dizia, a quatro paredes (paredes de vento, no caso dele): “não dá, essa coisa de agradar o povo e negociar não é comigo”. Não havia dúvida: o cheiro do cavalo lhe era mais atrativo que o do povo. A direita política, de onde vem Maynardi, pensa igual a Figueiredo (embora Figueiredo também desprezasse essa direita). Quando falam em povo, estão pensando apenas em alguns senhores, rapazes e moças dos “Jardins” (bairro rico de São Paulo).
Maynardi é jovem e impulsivo, e não sabe que pode estar construindo sua própria cova, como Carlos Lacerda. E também não sabe que seu discurso é cada vez mais parecido com o de seu fantasma: Lula. Também isso é interessante de observar na história da semântica política brasileira: Brizola e Lacerda usavam de uma estrutura retórica muito semelhante.
Maynardi fala e escreve quase que como um espelho do Lula. Tudo nele é diferente do Lula e, no entanto, tão igual. A cápsula que os amarra à linguagem demonstra parentesco. O espaço não me permite ir adiante, para uma análise mais profunda, mas dou as dicas para tal. Maynardi e Lula abusam de elementos lingüísticos autoritários, ou melhor, totalitários. As frases de Maynardi, não raro carregam o “todo” – “todo político é mais ou menos vagabundo”. Ele repete esse tipo de construção em seus textos. O objetivo é aquele já apontado acima (e isso independe da consciência dele, já disse). Ele quer agarrar o leitor não reflexivo. Lula usa do mesmo ardil, ao insistir no elemento “nunca”. O “nunca” de Lula faz o papel do “todo” de Maynardi. “Nunca em nossa história ...” – Lula faz a aderência do termo “nunca”, que elimina o termo que vem em seguida, que é o termo “história”. Pois o nunca é sem tempo e, portanto, sem história. Caso pudesse ser “nunca”, não poderia ser, seria algo sem estar na história. O “nunca antes” ameniza isso, mas continua sendo ardiloso e ideológico. Mutatis mutandis eis a função do “todo”: “todo político é mais ou menos vagabundo”. Ora, se é “todo”, então não haveria como distinguir o bom político do mau político, pois seriam iguais e o padrão desapareceria. Então, o todo é ardiloso e ideológico (pois, como mostrei, no caso não é a sinédoque).
Eu diria que esse tipo de convergência entre Maynardi e Lula, entre o jovem de direita e o velho que um dia se disse de esquerda, poderia ser batizada por meio de uma frase com algum humor: convergência “tropa da zelite”. A “tropa” é o coletivo para certos quadrúpedes. E a “zelite” é a zelite mesmo. Batizo assim, para efeito de memória. Quando você pensar em “tropa da zelite” lhe virá à cabeça esta proximidade Lula-Diogo, e você estará atento para algo que não podemos deixar acontecer. No passado, a direita e determinado populismo de esquerda falaram de modo parecido, até igual. No passado, Brizola e Lacerda, apesar de tanta diferença, acabaram nos conduzindo para um só lugar: o abraço da ditadura militar. A análise do discurso serve para que possamos não deixar erros do passado se repetirem. “Tropa da Zelite” nunca mais!
Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”


