O Governador Serra e a Caverna de Platão
A secretaria de Educação do Estado de São Paulo retirou a filosofia e a sociologia do terceiro ano do ensino médio e do ensino supletivo – foi esta notícia que acaba de chegar aqui. O Estado de São Paulo havia saído na frente nesse assunto, implantando a filosofia e a sociologia no ensino médio antes mesmo da norma vigorar para todo o Brasil, a partir da decisão do Conselho Nacional de Educação. Agora, que a norma se espraia pelo Brasil, em cumprimento à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o Estado de São Paulo dá um passo atrás.
Não vejo justificativa para essa medida da secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Os alunos, pais e diretores vinham gostando da presença dessas disciplinas nas escolas. O Estado já havia feito concurso público e tem professores para as aulas. Qual o problema? Recursos? Ora, mas o Estado de São Paulo é o mais rico da Federação, e vai cortar gastos em migalhas e justamente na melhoria da educação? Isso condiz com o perfil do Governador José Serra? Não pode ser verdade que Serra endosse a medida. Serra é um homem culto, com um currículo em ciências humanas sempre elogiado na imprensa. Então, onde está o nó da questão?
Alguns contam que isso é parte da política educacional do grupo do PSDB que comanda o ensino para Serra, diferente do grupo que comandou a gestão anterior, a de Geraldo Alckimin. Bem, mas que seja! Essa é uma medida equivocada do ponto de vista da participação do Estado de São Paulo na cultura brasileira e uma medida mais errada ainda do ponto de vista do mercado de trabalho.
São Paulo oferece empregos e, no entanto, há desemprego. Qual a razão? As pessoas estão desqualificadas para ocupar os empregos existentes. E no caso da preparação em ciências humanas, isso salta aos olhos de qualquer um. Esses dias o proprietário de uma locadora de vídeos reclamou comigo: “não tenho quem colocar aqui para dirigir meu negócio, pois as pessoas não sabem mais falar absolutamente nada dos filmes para os clientes, mesmo após terem assistido os filmes”. Claro! Um filme como “Os 300 de Esparta” precisa de uma informação rápida, que cative o comprador, e seria desperdício pagar alguém com formação universitária para tal. Então, uma garota com o ensino médio poderia dizer algo útil sobre o filme. Mas não pode, pois não recebeu nenhuma informação em filosofia que lhe dissesse o que é o Oráculo que aparece no filme. Nem pode falar que Xerxes (Rodrigo Santoro) é colocado, no filme, como dono de forças obscurantistas contra aqueles que seriam os heróis, os que estão do lado do Iluminismo. Como que se pode levar adiante uma locadora se o Estado de São Paulo não dá, no ensino médio, condições do mercado ter pessoas para trabalhar nela? Esse é um exemplo entre centenas de outros.
Alguns podem dizer que história e geografia cumpririam o papel, em nível médio, do que é necessário saber em ciências humanas. Filosofia e sociologia seriam dispensáveis. Ora, mas junto com a medida do fim da filosofia e sociologia no ensino médio veio também a medida de redução da carga horária de história e geografia. Portanto, a questão aqui é mais complicada. O governador sabe disso, tenho certeza, e se é que temos de cortar gastos, estes não podem ser dirigidos pela atitude mesquinha. O estado mais rico da federação não pode dar uma cultura mínima em ciências humanas para seus jovens? Claro que pode.
É tolice achar que filosofia e sociologia são matérias críticas que vão fazer as pessoas “pensar melhor e revolucionar o mundo”. Tais matérias devem estar no currículo do jovem por razões práticas: o mercado de trabalho está sendo ampliado no setor de venda de produtos culturais, e esses produtos exigem um mínimo de sofisticação, uma capacidade melhor de leitura, e é por isso que as ciências humanas e a filosofia, no mundo todo, estão sendo valorizadas novamente. Ninguém mais acredita na idéia de que ensino técnico é realmente técnico se deixa a filosofia de lado. Pois não ter lido nada sobre a Alegoria da Caverna de Platão é equivalente, no âmbito da técnica de interpretação da cultura, a não saber quantos planetas temos e não saber extrair uma raiz quadrada no âmbito da técnica em geografia e matemática.
Filosofia e sociologia são técnicas de leitura no complemento às técnicas de leitura da matemática, química e física, e são esteios da trama das leituras em história e geografia. O ensino fica torto, capenga e não se efetiva quando não tomado assim, globalmente. E o governador José Serra não vai querer negar aos estudantes aquilo que ele usufruiu quando jovem. Pois, se é assim, como que serão os governadores de amanhã?
Creio que essa medida da secretaria de Educação do Estado de São Paulo vai ser corrigida. Pois mostrar que o Estado de São Paulo pode dar um ensino mais adaptado ao mercado real de hoje, e não ao ilusório mercado de trabalho imaginado pelos técnicos das reformas educacionais dos idos dos anos setenta – quando ensino técnico era visto de maneira unilateral –, é uma necessidade educacional e também política.
José Serra é candidato à sucessão de Lula. Então, é fundamental que se mostre aqui, em São Paulo, que sua política educacional é abrangente, digna, feroz e agressiva quanto a resolver a questão real da qualificação profissional. Ninguém quer profissionais desinformados. Pois, para trabalhos onde exige desinformação, há a máquina. A entrada da máquina libera o homem para o trabalho mais criativo – e é o que está acontecendo aqui, no lugar mais desenvolvido de nosso capitalismo. Não é só o proprietário da locadora que está insatisfeito com o que lhe oferecem como mão de obra. Basta olhar lateralmente e ver: para fazer um “sanduba”, hoje em dia, o garoto que trabalha como “chapeiro” precisa de instrumentos da língua inglesa. Bom, mas também arrebentaram com o inglês no ensino médio! Ora, isso não é uma política educacional que se possa implantar nacionalmente. Serra precisa mostrar que é diferente de Lula e de FHC para nos devolver esperança.
Não vejo justificativa para essa medida da secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Os alunos, pais e diretores vinham gostando da presença dessas disciplinas nas escolas. O Estado já havia feito concurso público e tem professores para as aulas. Qual o problema? Recursos? Ora, mas o Estado de São Paulo é o mais rico da Federação, e vai cortar gastos em migalhas e justamente na melhoria da educação? Isso condiz com o perfil do Governador José Serra? Não pode ser verdade que Serra endosse a medida. Serra é um homem culto, com um currículo em ciências humanas sempre elogiado na imprensa. Então, onde está o nó da questão?
Alguns contam que isso é parte da política educacional do grupo do PSDB que comanda o ensino para Serra, diferente do grupo que comandou a gestão anterior, a de Geraldo Alckimin. Bem, mas que seja! Essa é uma medida equivocada do ponto de vista da participação do Estado de São Paulo na cultura brasileira e uma medida mais errada ainda do ponto de vista do mercado de trabalho.
São Paulo oferece empregos e, no entanto, há desemprego. Qual a razão? As pessoas estão desqualificadas para ocupar os empregos existentes. E no caso da preparação em ciências humanas, isso salta aos olhos de qualquer um. Esses dias o proprietário de uma locadora de vídeos reclamou comigo: “não tenho quem colocar aqui para dirigir meu negócio, pois as pessoas não sabem mais falar absolutamente nada dos filmes para os clientes, mesmo após terem assistido os filmes”. Claro! Um filme como “Os 300 de Esparta” precisa de uma informação rápida, que cative o comprador, e seria desperdício pagar alguém com formação universitária para tal. Então, uma garota com o ensino médio poderia dizer algo útil sobre o filme. Mas não pode, pois não recebeu nenhuma informação em filosofia que lhe dissesse o que é o Oráculo que aparece no filme. Nem pode falar que Xerxes (Rodrigo Santoro) é colocado, no filme, como dono de forças obscurantistas contra aqueles que seriam os heróis, os que estão do lado do Iluminismo. Como que se pode levar adiante uma locadora se o Estado de São Paulo não dá, no ensino médio, condições do mercado ter pessoas para trabalhar nela? Esse é um exemplo entre centenas de outros.
Alguns podem dizer que história e geografia cumpririam o papel, em nível médio, do que é necessário saber em ciências humanas. Filosofia e sociologia seriam dispensáveis. Ora, mas junto com a medida do fim da filosofia e sociologia no ensino médio veio também a medida de redução da carga horária de história e geografia. Portanto, a questão aqui é mais complicada. O governador sabe disso, tenho certeza, e se é que temos de cortar gastos, estes não podem ser dirigidos pela atitude mesquinha. O estado mais rico da federação não pode dar uma cultura mínima em ciências humanas para seus jovens? Claro que pode.
É tolice achar que filosofia e sociologia são matérias críticas que vão fazer as pessoas “pensar melhor e revolucionar o mundo”. Tais matérias devem estar no currículo do jovem por razões práticas: o mercado de trabalho está sendo ampliado no setor de venda de produtos culturais, e esses produtos exigem um mínimo de sofisticação, uma capacidade melhor de leitura, e é por isso que as ciências humanas e a filosofia, no mundo todo, estão sendo valorizadas novamente. Ninguém mais acredita na idéia de que ensino técnico é realmente técnico se deixa a filosofia de lado. Pois não ter lido nada sobre a Alegoria da Caverna de Platão é equivalente, no âmbito da técnica de interpretação da cultura, a não saber quantos planetas temos e não saber extrair uma raiz quadrada no âmbito da técnica em geografia e matemática.
Filosofia e sociologia são técnicas de leitura no complemento às técnicas de leitura da matemática, química e física, e são esteios da trama das leituras em história e geografia. O ensino fica torto, capenga e não se efetiva quando não tomado assim, globalmente. E o governador José Serra não vai querer negar aos estudantes aquilo que ele usufruiu quando jovem. Pois, se é assim, como que serão os governadores de amanhã?
Creio que essa medida da secretaria de Educação do Estado de São Paulo vai ser corrigida. Pois mostrar que o Estado de São Paulo pode dar um ensino mais adaptado ao mercado real de hoje, e não ao ilusório mercado de trabalho imaginado pelos técnicos das reformas educacionais dos idos dos anos setenta – quando ensino técnico era visto de maneira unilateral –, é uma necessidade educacional e também política.
José Serra é candidato à sucessão de Lula. Então, é fundamental que se mostre aqui, em São Paulo, que sua política educacional é abrangente, digna, feroz e agressiva quanto a resolver a questão real da qualificação profissional. Ninguém quer profissionais desinformados. Pois, para trabalhos onde exige desinformação, há a máquina. A entrada da máquina libera o homem para o trabalho mais criativo – e é o que está acontecendo aqui, no lugar mais desenvolvido de nosso capitalismo. Não é só o proprietário da locadora que está insatisfeito com o que lhe oferecem como mão de obra. Basta olhar lateralmente e ver: para fazer um “sanduba”, hoje em dia, o garoto que trabalha como “chapeiro” precisa de instrumentos da língua inglesa. Bom, mas também arrebentaram com o inglês no ensino médio! Ora, isso não é uma política educacional que se possa implantar nacionalmente. Serra precisa mostrar que é diferente de Lula e de FHC para nos devolver esperança.
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Paulo Ghiraldelli Jr, é filósofo e dirige a TV Filosofia (online): www.mogulus.com/filosofia
Site Pessoal: http://www.ghiraldelli.por.br/ E-mail: pgjr23@gmail.com
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