O PT e arte/i(manha) da propaganda
Meu amigo Gilmar Garagorry visitou um padre velhinho. Iriam falar sobre abertura de escolas. Acreditando que o padre não iria prestar atenção na “questão do marketing”, ele chamou a atenção para o assunto. E o padre lhe respondeu: “ah, meu filho, nós vamos cuidar disso sim, veja que a Igreja é uma instituição com quase dois mil anos e, no entanto, precisamos tocar o sino várias vezes ao dia, para que os fiéis não se esqueçam de nós”.Propaganda, do verbo propagar. Você pode acreditar que tocar o sino para propagar um som que chama fiéis para a missa é menos elaborado do que a propaganda moderna. Pois nos nossos tempos há uma sofisticação não só técnica e tecnológica da propaganda, há também uma ampliação da sua capacidade de adentrar o mundo psicológico de todos nós. Mas nós devemos nos preocupar com isso?
O professor e ex-presidente da Radiobrás Eugênio Bucci escreveu no Estadão um artigo em que se revela preocupado com esse poder da propaganda. Inclusive, ele disse uma frase estranha na boca de um comunicólogo: “cada vez mais, as propagandas de governo – seja ele municipal, estadual ou federal – não hesitam em apelar para capturar o sentimentalismo alheio”. Ora, mas o que faria a propaganda? Voltaria a ser apenas o sino da igreja? Creio que isso seria inviável, uma vez que a propaganda que apela para o “sentimentalismo alheio” é muito mais antiga que a Igreja. Trata-se da retórica, como ela foi ensinada não só por sofistas, mas por consagrados filósofos. A retórica correta deve atingir a alma do homem por completo, portanto, seu coração – os sentimentos. Esse trabalho de mostrar que o seu ponto de vista está correto, exercido na democracia grega com todos os instrumentos da boa exposição, migrou da política para o mercado e, enfim, voltou do mercado para a política, ainda no mundo antigo. Nada mais natural.
Assim, a avaliação de Eugênio Bucci sobre a propaganda dos governos me parece, em parte, uma reclamação vazia. Nenhum governo é desonesto por fazer propaganda que, mesmo que informativa, seja calçada por uma boa dose dos instrumentos retóricos. E hoje os instrumentos retóricos estão acoplados ao know how de bons artistas dos meios de comunicação, que tornam as propagandas verdadeiras peças de arte. Agora, caso Eugênio Bucci esteja reclamando do conteúdo de inverdades que uma propaganda governamental contém, isso então é assunto sério. Afinal, ele participou durante bons anos do governo brasileiro que fez a propaganda mais enganosa que já tive notícia. É difícil encontrar nesses vinte e dois anos de democracia alguém que tenha passado pelo Executivo Federal e criado uma mentira maior que os índices de êxito apresentados pelo Governo Lula.
A verdade da minha fala está estampada para todos verem: o Governo Lula é aquele que mais diz “eu não sabia” e o que mais fala coisas como “o PT deve desculpas ...” etc. Qual a razão? É simples: Lula mostra uma coisa, e aí no outro dia acontece algo bem diferente. Os ministros mostram uma coisa, e depois de poucas semanas a imprensa mostra outra, distinta e, esta sim, verdadeira. Foi assim no “mensalão”, no episódio do “caos áereo”, na questão dos escândalos que envolveram o MEC e seus projetos de alfabetização. Isso sem contar a questão da saúde. Quanto mais propaganda o governo faz de seus maravilhos feitos na área da saúde, mais as velhas doenças e epidemias voltam a reinar – eis aí a febre amarela, que obrigou a detetização chegar até à Granja do Torto. E isso não pára. Há primeiro a propaganda enganosa e, depois, quando o PT e o Lula se vêem desmascarados, então aparecem de público para choramingar. Pensam que a população engole, pois também fabricam índices pouco confiáveis de “popularidade do Lula” – e começam a acreditar na própria propaganda. Essa panfletaria toda vai se mostrar sem efeito nas eleições das capitais – aguardem e verão como que o PT vai patinar nas capitais mais populosas e mais politizadas.
Agora, por outro lado a avaliação de Eugênio Bucci tem uma parte que eu aprovo inteiramente. Ele denuncia a verba excessiva dos governos – inclusive o Federal – para a propaganda. Um amigo que foi secretário de uma prefeitura do PT me contou que em 60% das vezes o gasto real da propaganda era tão ou mais caro que a obra inaugurada. E o que é pior, disse ele, não raro o único gasto era o da propaganda, uma vez que a obra não saía do papel.
Não participo da opinião de que a propaganda de um governo deva ser “pura”, não contaminada pela “propaganda de campanha”, isso seria impossível. Na democracia a política do executivo é política eleitoral o tempo todo. Não há como fazer diferente e isso é, em boa medida, legítimo. Mas participo da idéia que há diferença entre a propaganda inteligente e bela, cativante, e que tem tudo para ser verdadeira, e a propaganda paga para agências que depositam o dinheiro no exterior, e que participam de esquemas corruptos na campanha e, depois, também no governo. A “República dos Companheiros” sabe bem do que estou falando.
Então, o problema todo da propaganda não deve ser atacado só pela observação de seu conteúdo. A sugestão de Bucci, de olhar para os gastos, esta sim é aproveitável.Pois esta, inclusive, vai resolver a outra questão, a dos conteúdos. E vindo da boca dele, que trabalhou como Presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007, é algo que deve ser ouvido. Penso que há uma medida prática a ser tomada, e isso poderia partir do próprio Bucci, que denunciou o erro. Ele poderia atuar junto a deputados para a melhoria da transparência da alocação de verbas de propaganda para cada obra. Feito isso, talvez em um futuro (certamente distante), quando o PT vier a governar de novo o Brasil, esse erro que Bucci denunciou não volte a ocorrer.
Paulo Ghiraldelli Jr. Filósofo
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