29/02/2008

Maria Helena de Castro na contramão da modernização




A entrevista de Maria Helena de Castro à revista Veja é uma peça arcaica (janeiro de 2008). Falta à sua visão um toque de liberalismo modernizador. Sua entrevista faz parte daquilo que nós já deveríamos ter superado, ou seja, a conversa meramente propagandística, sem objetividade alguma. Em vez de soluções concretas, discutidas com os professores, Maria Helena se limita a dar combate ideológico aos que ela acredita que estariam contra sua gestão. Aliás, sua insistência em dizer que os que se opõem a ela dizem “baboseiras ideológicas” nada mais é que o velho mecanismo de projeção. Ela está tão preocupada em dar combate político a supostos adversários – e a Veja adora isso – que ela repete jargões que não são mais cabíveis no Brasil. Vejamos.

Ela diz que os professores lutam por isonomia salarial independente do mérito. Não é verdade. O que os professores inteligentes querem é que o mérito deles seja levado em conta pelo que fazem, não pelo que outros, que não são eles, deixam de fazer. Maria Helena está apenas preocupada em quebrar com o discurso sindical. Ela não está preocupada, no item sobre salários e méritos, em realmente premiar os melhores professores. Caso ela quisesse realmente isso, ela proporia uma política em que o mérito salarial fosse dado ao professor, não às escolas. Do modo que ela está fazendo um excelente professor, em uma escola só com medíocres, jamais terá qualquer benefício. Ora, creio que ela sabe disso. Então, o fato de teimar nessa forma de mérito que não funciona parece ser mais vontade de combater um suposto discurso sindical, que proporia a isonomia salarial, do que uma real vontade de melhorar o ensino. Agora, se estou errado, e Maria Helena não sabe que seu método não vai melhorar nada, então, o caso é até mais grave; seria então a questão de ver se ela está preparada para o cargo.

Aliás, não descarto essa última possibilidade, pois Maria Helena não é da área pedagógica, e ocupou cargos na educação que não capacitam ninguém a ser uma secretária de Educação em São Paulo. Ser um burocrata de órgãos ligados ao ensino federal não é a mesma coisa que entender de educação para poder lidar com uma filosofia da educação, necessária para um estado rico e poderoso como São Paulo. Ao engolir o pacote pronto de Fernando Henrique, e então ter de ficar com Maria Helena na secretaria – que é apenas um dedo do deputado Paulo Renato –, Serra talvez esteja pondo os pés pelas mãos no campo educacional. Pode até conseguir números favoráveis para sua campanha à Presidência. Mas números, os seus adversários também conseguirão.

Outro tropeço de Maria Helena na entrevista da Veja foi dizer que salário é “fator externo” na educação e, como tal, não poderia concordar que ele “resolve o problema”. Ora, é claro que resolve. Não tem resolvido por uma razão básica: os salários aumentaram, mas eles ficam aquém de outras profissões conquistadas com bem menos anos de estudos. Então, a questão salarial não pode ser mensurada do modo como ela mensura. Para uma pessoa que lidou com estatísticas no governo de FHC é estranho que ela desconheça, ou finja desconhecer, que no mundo todo os salários melhores tornam a profissão em questão mais atrativa, e que por si só tal coisa, no campo educacional, cria uma diferença que faz diferença – a maior diferença.

Aliás, o discurso de Maria Helena é tão ideológico e tão repetitivo, muito parecido com aquele que os setores conservadores sempre falaram no passado, que causa estranheza que ela se acredite “moderna”. Vejam a grande idéia inovadora dela: produzir material pelo próprio governo, em forma de apostilas, para entregar ao professor. Será que essa mulher não possui um assessor que lhe conte que tal invenção, a dos cursinhos apostilados, é algo velhíssimo, e que foi abandonada pelos grandes colégios das elites, que voltaram a usar livros? Ela não pode convencer ninguém inteligente, mas somente os muito tolos, de que a secretaria da Educação de São Paulo não conseguiria equipes para fazer o professor reaprender a trabalhar com livros. É claro que conseguiria. E por um preço muito mais barato que a confecção de apostilas. E outra coisa, no frigir dos ovos o livro sempre sai mais barato que a apostila – só um completo desinformado do setor diria o contrário.

Por tudo que sabemos, nenhum país que realmente leva a sério a educação quis que seu ensino público fosse apostilado, em detrimento dos bons livros. Livro tem autor. Livro é de responsabilidade de editora e do autor. Isso o faz um instrumento público e valoroso. Apostila é em geral apócrifa. E por isso mesmo ruim. E isso se repete no material produzido por Maria Helena e entregue nas escolas, que é de uma pobreza teórica incrível, que nos faz até ficar envergonhados de ter aquilo como sendo a “o material da educação paulista”.

Mas Maria Helena tem mais problemas ainda quanto ao fato de adotar um discurso e uma postura que são extremamente passadistas. A inteligência dela para captar as tendências do mercado de profissões é algo lamentável. Como eu disse, falta a ela uma perspectiva liberal. Quando a vejo falando de profissão e de ensino, tenho a impressão de estar diante de um daqueles burocratas soviéticos que passaram uma vida longe do mercado. Ela não percebe as estatísticas mais simples, que mostram que o setor de serviços requisita mais empregos. Este setor tem insistido na volta da filosofia e da sociologia como disciplinas profissionalizantes. A cultura humanística dada na escola tem sido requisitada por pequenos e médios empresários por causa de que eles querem trabalhadores capazes de lidar com mercadorias em que o saber técnico utilizado não é o das ciências naturais somente, mas, muito mais, os das ciências humanas.

Fico temeroso que o curso de sociologia que Maria Helena fez a tornou alguém um pouco fora de centro, um pouco atrasada; ela parece não entender o papel de seu próprio curso de formação no mundo moderno, atual. Ela tem uma idéia retrógrada sobre ciências humanas. Ela deve ter sido uma estudante que ficou com raiva do que foi a sociologia e a filosofia no passado, que estavam imiscuídas no discurso do esquerdismo juvenil. Só pode ser isso. Só isso justificaria seu ódio às humanidades. Agora, se ela realmente pudesse olhar mais pela juventude e ler mais o que os jovens estão fazendo, ela poderia mudar de opinião. Mas não creio que mude. Ela parece muito teimosa e se acha dona da verdade. E nisso volta a se parecer com os soviéticos burocratas. Tudo que os outros falam, já de cara é “baboseira ideológica”. O que ela fala, não. Mas, justamente o que ela fala, é o que é propagandístico, ideológico e, pior, retrógrado. E a imprensa tem engolido o discurso dela, pois a questão educacional, tecnicamente falando, não é bem tratada pela imprensa. Mas é fácil mostrar que Maria Helena representa tudo que a gente não deve fazer em matéria de política educacional moderna, liberal e democrática.

O que o Estado de São Paulo precisa em educação é um banho de liberalismo e de democracia. Um banho de modernização.

Paulo Ghiraldelli Jr., o filósofo da cidade de São Paulo, http://www.ghiraldelli.pro.br/

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