30/03/2008

1964, 2008 - da "Redentora" à Mediocridade.

Apareci um dia com um livro na mão na frente do meu avô. Era sobre Vargas. Perguntei a ele se já havia lido. Ele respondeu: eu vivi tudo isso, não gosto de ler sobre o que vivi. Vindo do meu avô, o desestímulo não me desanimou. Li mais ainda, para saber do tempo em que ele viveu. Feliz o homem que tem os pais e avós que eu tive.

Bem, eis agora eu na condição dele: falar de tempos sobre os quais não precisei ler depois, vivi e li durante sobre esses tempos como um contemporâneo. E quando chegou minha hora, o que começou em 1964 me pegou de fato. Na adolescência eles, os militares, conseguiram me chamuscar. Menos do que outros, talvez ...

Em 1964 meu pai dizia que se Jango implantasse uma “República Sindicalista”, como a imprensa profetizava, não ficaríamos mal – o socialismo valorizava o professor, ele comentava. Meu pai era um amante da vida americana, mas nunca deixava de tentar tirar alguma conclusão boa de um possível futuro governo. Ou seja, de qualquer forma, nós, os de classe média – como ele dizia –. iríamos nos sair bem. O tempo passou e a “República Sindicalista” não veio. O que veio foi o que passamos a chamar, logo que me tornei adolescente, de “A Redentora”.

Em 31 de março de 1964 um golpe militar, com apoio civil (Carlos Lacerda à frente), tirou Jango da Presidência da República e colocou o resto do varguismo para correr. Sempre derrotada nas urnas, a UDN vinha tentando convencer os militares para uma aventura golpista. A tal aventura finalmente aconteceu. Veio a “Revolução” – como diziam os vencedores. O “Golpe” – como diziam os vencidos. A “Redentora”, como passamos a dizer, nós, os jovens, mais ou menos nos anos setenta. Falávamos assim com o intuito de ridicularizar uma “revolução” que se autodenominou de “movimento de redenção do Brasil”. Os militares haviam dito que eles haviam salvo a democracia, não a maculado. Eles haviam tirado o Brasil das "garras do comunismo". Onde estiveram essas garras? Haviam submarinos soviéticos na praia do Gonzaga ou do Zé Menino, em Santos? Claro que não.
O "31 de março de 1964" passou a ser comemorado na escola. Cantávamos o Hino Nacional sob ditadura e, após o canto, o professor ou professora de Educação Moral e Cívica – uma matéria introduzida pelo regime militar – dizia algumas palavras sobre a importância da “Movimento de 1064”, de como ele havia nos livrado das “garras de Moscou”. Depois, lá pelo meio dos anos setenta, esse dia passou a ficar menos comemorativo. Era só astear a bandeira e voltar para classe.

A esquerda tentava nos conquistar dizendo que as verdadeiras garras não eram as de Moscou, mas as da águia americana. Mostravam o Vietnã. Mas em 1975 acabou o Vietnã! Alguns de nós, os menos bobos, haviam visto os jovens tchecos atearem fogo ao corpo, pedindo liberdade diante das garras do império soviético em 1968. Eu estive entre esses últimos, os que prestaram atenção no que havia do lado de lá da Cortina de Ferro. Todavia, os militares que nos governavam, e que se diziam adeptos da fórmula da “democracia americana”, começaram a nos parecer cada vez mais fascistas. Então, fomos para os braços da esquerda naturalmente. Quando jovem, fui para o MDB e PMDB, organizado então, não raro, por socialistas, comunistas e trabalhistas.
O regime militar consumiu toda a minha juventude. Ele durou de 1964 até 1985. Na prática, parte de suas leis vigoram até hoje, e são utilizadas por mesquinhos no poder para punir rivais, agora sob a proteção do "Estado de direito". A Constituição de 1988 não retirou de todo o “entulho autoritário”.
Para entrar na ditadura, a UDN gastou treze anos. A UDN demorou na tarefa de convencer os militares como um todo para a realização do golpe. Portanto, não foi tão fácil assim entrar com a ditadura por sobre o povo brasileiro. Mas, para sair, foi mais difícil ainda. Para sair da ditadura, demoramos trinta anos. Para que pudéssemos reagir e conquistar a nós mesmos, e poder dizer para os militares que eles deveriam voltar para os quartéis, foi gasto mais tempo do que imaginávamos que seria preciso, quando do início do regime. Em 1974 dissemos o que queríamos. Falamos pela voz do MDB, elegendo mais senadores de oposição do que do partido do governo (sim, tínhamos uma ditadura com partidos!). Dali em diante o governo militar começou a dar passos no sentido de mostrar que “um dia” poderia deixar o comando do país, talvez, para que pudéssemos voltar ao “estado de direito”.

Em 1979 conseguimos a Anistia. Em 1982 conseguimos as eleições diretas para os governos estaduais. Em 1985 o regime militar terminou. Mas, estranhamente, ficamos com um presidente que era da ... UDN! Depois veio Collor. Como Brizola dizia, Collor era um “filhote da ditadura”. Tiramos Collor legitimamente (embora ele já esteja de volta! Com bons salários de ex-presidente e senador). Então, finalmente, começamos realmente um novo período.

O governo de Fernando Henrique Cardoso deveria ter sido um marco. De fato, foi um marco. FHC não só havia estado na oposição à ditadura militar, mas ele próprio era alguém mais à esquerda do que qualquer outro presidente que, quando jovem, eu imaginava que poderia governar o Brasil. E, de fato, FHC procurou manter as instituições democráticas funcionando e buscou aperfeiçoá-las. Ele se sentiu orgulhoso de passar a faixa presidencial para Lula. Era uma vitória da democracia. Passar a faixa para Lula foi uma emoção – acredito na sinceridade de FHC ao dizer isso. Essa transição marcou de fato o fim da sombra de 1964. Só então 1964 realmente entrou para a história.

O período que vivemos agora é decisivo para nosso país. Somos cotados para, junto com China e Índia, aparecermos no mundo não mais com uma banana na cabeça. Claro que poderemos, ainda, ser apenas primeira dama de franceses, mas temos promessa de alguns que até faremos parte do Conselho de Segurança da ONU.


Mas, e internamente? Teremos de provar que realmente, na democracia, afastados no tempo e nas idéias do que gerou 1964, somos suficientemente imaginativos para criar uma vida democrática diferente da que existiu antes de 1964. E teremos de provar que a democracia é melhor, em todos os sentidos, do que o regime militar.




É claro que a nossa democracia atual é melhor do que o regime militar. Em todos os sentidos. O serviço da “Redentora” foi algo que não deixou saudades nos mais inteligentes. Todavia, a democracia é mais ou menos como a mulher de Cesar, não basta ser boa, tem de provar cotidianamente que é boa se mostrando boa. Pois as novas gerações não viveram o que veio com a "Redentora". Então, hoje, temos uma juventude “de direita”, que quer nos convencer que não são fascistas, que são apenas “liberais conservadores”. Ora, mas Roberto Campos também foi classificado como “liberal conservador” e, no entanto, serviu como lacaio dos militares. No Brasil, não raro, os liberais tendem a trair o liberalismo abandonando a democracia, enquanto que nossa esquerda tem uma dificuldade imensa de parar de idolatrar regimes comunistas completamente totalitários. Carecemos de democratas? Talvez...


Não saberia dizer se carecemos de democratas autênticos. Seria presunçoso dizer que alguns dos meus colegas que chegaram ao governo não são democratas. Todavia, posso dizer que vários deles não são tão inteligentes quanto se diziam ser. Falta a eles imaginação. E no campo das ciências e da educação, que é o campo em que um filósofo fica de olho, realmente posso dizer que os que estão no governo ainda não conseguiram fazer algo diferente do que fez Roberto Campos.

Tanto Fernando Henrique Cardoso quanto Lula nos deram para o campo educacional e científico pessoas cuja imaginação está aquém da caricatura de Roberto Campos. E, é claro, estão conduzindo o Brasil para a situação em que já estamos há mais de dez anos. Somos os últimos países do PISA, o exame internacional que mostra a qualidade intelectual de nossos estudantes. E tanto Paulo Renato quanto Fernando Haddad, ministros da Educação de FHC e Lula respectivamente, já deram entrevistas parecidíssimas. Diante de nosso último lugar no PISA, eles disseram que não era um lugar desonroso. Estou tentando entender qual seria o lugar desonroso após o último.

O mais interessante ainda é ver a geração que chegou aos 60 anos agora, e que está no poder, abaixando a cabeça para tudo e todos, fazendo o serviço de “lacaios” não da ditadura militar, que não existe mais, mas da mesma política que a ditadura instaurou. Assim, vejam o serviço da professora de filosofia da USP, Marilena Chauí, no Conselho Nacional de Educação. Onde está a luta da feminista e ex-oposicionista em favor de uma educação que não premie o ensino universitário de baixa qualidade? Onde? Nada! Quando apareceu de público foi apenas para elogiar Lula e o PT pelo “mensalão”, enquanto o Brasil todo os condenavam.

E o amigo de Maria Helena Chauí, Renato Janine Ribeiro, que também defendeu Lula no mesmo episódio? Bem, neste caso, este não agüenta ficar em silêncio. Ele fala. E quando fala, mostra que está aliado à política GLS. Ele defende que as ciências humanas sejam feitas com Giz, Lousa e Saliva (GLS). A mesma postura de Roberto Campos e Delfim Neto. Nunca foi filósofo, e sim professor de filosofia. Mas, agora, é menos que isso, é um traidor da filosofia e das Humanidades ao dizer que mestrado em ciências humanas gasta pouco, que ele mesmo fez o seu com “200 dólares”, comprando “pocket books”. Ele fez o mestrado dele dessa maneira e, então, recomenda a mesma atitude pouco séria aos jovens de hoje. Ora, foi para ouvir uma pessoa assim que tiramos os militares e colocamos a “geração jovem”, a geração que diz que fez balburdia na Rua Maria Antonia, contra a ditadura? Zé Dirceu foi execrado. Mas e Renato Janine, Marilena Chauí e outros money-boys? Vamos continuar pagando salários extras para eles? Para quê? Para fazer por dinheiro aquilo que Roberto Campos fez por ideal?

A democracia brasileira precisa se livrar dos parasitas. Não temos só de lutar para que um tipo como Collor não tenha um novo mandato, mas também para que um tipo como Lula não reinvente a fórmula do “pai dos pobres” e nos dê, mais uma vez, uns intelectuais da FFLCH da USP para o governo. Pois do modo como esse pessoal age no governo, a fama da USP vai acabar de vez.

Não devemos nunca mais nos livrar dos parasitas caindo no conto de “redentoras”. Mas, certamente, devemos nos livrar deles. Os meios democráticos estão mais ou menos disponíveis. E a crítica constante é nossa arma. Lula tem 68% da aprovação popular. Dá esmola aos pobres em um país que conseguiu ser um dos de maior distância social do mundo. Ao mesmo tempo, acalenta a alma dos banqueiros. Escorraça a classe média e, cinicamente, coloca uma mulher com rosto de cachorro pequinês para nos dizer que o Brasil virou todo ele de classe média. Assim, os índices de popularidade servem para se poder dizer qualquer coisa. Nossos colegas intelectuais estão em silêncio. Uns com medo, outros com o bolso cheio. Os que falam, devem falar grosso e dizer tudo. Este ano em que o governo tem 68% de aprovação popular é o ano da mediocridade brasileira.


Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”.

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