23/03/2008

Renato Janine Ribeiro: por um punhado de 200 dólares




O título acima não é de um velho “western spaghetti”. Mas o Django das ciências humanas está de volta, para matar. Matar os pesquisadores, é claro.

Renato Janine Ribeiro não pára mais de endossar o que é errado. Se já não bastasse a defesa envergonhada da pena de morte e um artigo mirabolante que, no limite, dizia que Lula não podia ser avaliado por conta do “mensalão”, pois, afinal, todos nós somos pecadores, agora me chega às mãos mais uma peripécia do professor de Ética.

Eu não vou falar sem antes deixar vocês mesmo lerem. Segurem o queixo:


"preciso lembrar uma diferença essencial entre as Humanidades e as outras ciências, que já apontei em meu livro A Universidade e a Vida Atual: nas demais ciências, preciso vitalmente de recursos para meu laboratório. Mas, nas Humanidades, se eu brigar com a Capes, o CNPq e a Fapesp, ainda assim posso perfeitamente fazer uma pesquisa de alto nível só comprando pocket books. Meu mestrado, por exemplo, me custou em livros o equivalente, hoje, a uns 200 dólares. Isso dá às Humanidades uma liberdade extraordinária, que não podemos minimizar".[1]


Pois bem, creio que eu nem precisaria comentar .... Mas, na verdade, não quero comentar para aumentar o absurdo. Comento apenas para que possamos entender isso, que poderia ser dito pelo Renato, é claro, mas nunca por uma pessoa que exerce o cargo de Diretor de Avaliação da CAPES. Ele é o diretor! Ele dirige um órgão de fomento (!) à pesquisa.

O que Renato Janine está dizendo é que ele gastou somente 200 dólares para fazer o mestrado dele. Comprou meia dúzia de livros e então tirou o mestrado para ser professor de uma conceituada universidade – a USP. Eu não duvidaria, caso estivéssemos falando de um professor universitário desses que estão chegando agora, aqui e ali, em nossas universidades – até na USP. Mas, no caso do Renato Janine, que já está para se aposentar, não é verdade que ele tenha feito o mestrado apenas com 200 dólares. Ele é mais ou menos da minha geração, talvez uma década mais velho somente. Nós, dessa época, gastávamos bem mais para sermos filósofos ou professores de filosofia. Muito mais. Agora, hoje em dia, não no Brasil, mas no exterior, os gastos com ciências humanas são muito altos para formar um bom professor e pesquisador. Pois a área entrou por uma diferenciação inaudita.

As ciências humanas, a filosofia, a área de letras e artes, tudo isso não se faz mais sem laboratório, sem máquinas. E essas máquinas estão longe de serem somente computadores com internet e gastos de manutenção. É que as “humanidades” não progridem mais sem a paleontologia, a arqueologia, a numismática e as biociências. Eu explico.

Imaginem um filósofo que queira fazer uma pesquisa “de ponta” em filosofia antiga, a respeito do novo busto de Aristóteles, descoberto há dois anos em Atenas, aquele que tem um nariz adunco. Ele não vai precisar somente de livros de filosofia – que custam bem mais que duzentos dólares –, mas vai precisar de se associar a um laboratório capaz de levar adiante pesquisas de ordem arqueológica. Além disso, vai ter de consultar, inclusive pessoalmente, aqueles que poderiam estar escrevendo sobre o assunto. Pois o nariz de Aristóteles pode parecer desinteressante para quem é leigo, mas ele pode mudar a filosofia. A feiúra de Sócrates era um fato pitoresco até Nietzsche tê-la elevado a tema filosófico par excellence. Pois bem, a associação desse nosso pesquisador a um bom laboratório de arqueologia, em Atenas, e mais a comunicação com experts que estão escrevendo filosófica e historicamente sobre o assunto, custam bem mais que 200 dólares. O preço de uma pesquisa desse tipo, que pode ser um doutorado em uma universidade séria, é tão alto quanto o de um doutorado equivalentemente bom no campo da medicina ou engenharia ou biotecnologia ou qualquer coisa assim.

Então, supondo que Renato não seja um mentiroso, uma falsário que esteja querendo apenas agradar o governo, falando em economizar dinheiro, de duas uma: ou Renato fez o mestrado dele com 200 dólares mesmo, e então teremos de admitir que ele está computando única e exclusivamente 4 livros sobre Hobbes que comprou, ou então ele realmente não sabe nada de ciências humanas, de como é uma pesquisa verdadeira em Humanidades. Caso seja verdadeira a primeira aposta, então ele não pode falar nada, pois quatro livros sobre Hobbes, comprados na Amazon, se são só duzentos dólares, não só o único gasto de um mestrando ou doutorando.

Supondo que seja a primeira alternativa a correta, que ele não sabe mesmo o que é uma pesquisa de mestrado, quanto custa e como ela se desenvolve, então, temos de ensiná-lo. Veja, vou contar para ele sobre meu primeiro mestrado. Mas vou falar pouco.

Eu pesquisei o movimento operário e a educação no começo do século, fazendo meu primeiro mestrado na PUC-SP. Pois bem, eu não tinha e nunca teria dinheiro para encomendar os jornais operários brasileiros que estavam, naquela época, na Holanda. Então, teria de ir até lá. Poderia pegar uma bolsa da CAPES, que naquela época era uma instituição que dava bolsas não apenas para amigos e muito menos tinha um índex dizendo onde era válido ou não publicar – era uma instituição séria. Mas, felizmente, fui salvo pelo Paulo Sérgio Pinheiro, professor que batalhou para que os jornais operários viessem para a Unicamp. Então, eu fui um dos primeiros a pesquisar no então recém instalado Arquivo Edgar Leurenroth. Todavia, mesmo tendo os jornais no Brasil, minha estadia em Campinas, junto com os livros que comprei e mais o material fotográfico que tive de adquirir para copiar o que eu queria, foi o equivalente ao valor de quase um apartamento pequeno, em São Paulo, na época. Fiquei um ano no arquivo. Devorei aquilo. E gastei o que tinha e o que não tinha. Não fiz o mestrado na Europa e nem tive licença do meu emprego para tal, fiz no modo mais barato. Mas sem a bolsa da CAPES e o salário e mais um bom investimento, não teria feito. Mas fiz bem feito. Por isso pude caminhar e, enfim, viver hoje do que vivo, só de escrever.

Eu nunca poderia endossar que, uma vez brigado com a CAPES ou e outros órgãos de fomento, alguém conseguiria seguir a carreira universitária. A não ser que queira ser um profissional de terceira categoria. E jamais poderia endossar, junto com Renato, a conversa dos 200 dólares.

Bom, mas o que pode ser que Renato Janine tem mesmo em mente quando coloca os 200 dólares na mesa? Talvez ele esteja dizendo isso que ninguém acredita que ele seja capaz de dizer: vamos sucatear as ciências humanas. Gente como o Renato Janine é do PT – quem diria! Ah, temos de dizer que só o “mensalão” não bastou. Cada dia aparece, aqui e ali, uma surpresa a mais. Essa do Renato Janine, dos 200 dólares, foi realmente um chute entre as pernas.

Qual será a próxima que ele vai aprontar?

Paulo Ghiraldelli Jr., O filósofo da cidade de São Paulo.

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