A Bolsa Ditadura
Só agora sabemos a razão do Menino Maluquinho carregar um penico na cabeça!
Estou envergonhado. Não esperava que a minha geração tivesse de engolir tanto sapo como está engolindo. Tenho visto professores de filosofia ocupar cargos no governo para fazer tudo que até bem pouco tempo condenavam. Esses dias eu vi um avaliador da CAPES dar uma entrevista dizendo que um mestrado em ciências humanas poderia ser feito comprando pocket books, e com 200 dólares estava tudo resolvido. Outros, no Conselho Nacional de Educação, andam fazendo das suas também, aprovando tudo que condenavam. Todavia, agora, chegamos à vergonha maior. As declarações do cartunista Ziraldo colocam todos nós na lona, principalmente nós, os democratas e os de esquerda na faixa dos cinqüenta anos.
Não vou entrar aqui no mérito do dinheiro pago a ele por ter lutado contra o regime militar, por meio de seus desenhos. Ganhou um milhão e parece que terá um salário de 4 mil mensais. É um dinheiro público, de todos nós, dado a alguns que, agora, perdem a condição de heróis ao mostrarem que eram simplesmente mercenários. O tal do “ouro de Moscou” não existia? Pois bem, então, que se tire do nosso bolso agora – é assim, não é? No caso de alguns, de fato soa assim.
Não – realmente esta não é a questão principal. A questão principal é a maneira simplesmente deselegante com que Ziraldo recebeu seu pagamento. Repito aqui as palavras dele, publicadas na imprensa: “Aos que estão criticando, falando em bolsa-ditadura, estou me lixando. Esses críticos não tiveram a coragem de botar o dedo na ferida, enquanto eu não deixei de fazer minhas charges. Enquanto nós criticávamos o governo militar, eles tomavam cafezinho com Golbery” (Agência Estado, 04/04).
Nunca achei Ziraldo um bom cartunista. Suas histórias eram chatas. São chatas. Mas, sendo eu um homem de esquerda e vendo nele um intelectual mais velho também de esquerda, com posições definidas, sempre achei que era alguém melhor do que se revelou agora, já aos 75 anos. Um herói de verdade poderia ter recebido o dinheiro e oferecido para uma instituição de crianças. Ou então oferecido para pessoas que foram torturadas e que nunca entraram na Justiça. Ou, ainda, para viúvas que passam necessidade, por terem perdido pessoas que não foram famosas e que realmente lutaram pelo Brasil. Ou, por fim, simplesmente recebido o dinheiro quieto. Mas Ziraldo e alguns outros não foram heróis, e acabaram agora jogando areia na memória dos que foram heróis. E, no caso dele, isso agora ficou mais que claro. Tudo bem, não é herói, então não é herói. Mas precisava ser menos ainda do que um ser humano normal?
Os que eram garotos durante o tempo do regime militar, e que passaram alguns apertos verdadeiros e tiveram seus pais ameaçados, até ontem, até a declaração de Ziraldo, pensavam que todos que lutaram contra o regime militar tinham estado na mesma trincheira. Democratas e homens da esquerda não democrática lutaram contra os que estavam no poder entre 1964 e 1985. Alguns entre nós só agora podem ver claramente que estiveram mais sozinhos do que imaginaram na época. Jamais estiveram ao lado de heróis. Ou, talvez, tenham estado ao lado de heróis que não notaram.
Ziraldo manchou a indenização. Não só a dele, mas a de outros. Vejam mais um trecho que provoca náusea: “meu colega, que é funcionário público e tem a mesma idade, ganha 12 mil de aposentadoria. O Brasil me deve uma indenização”. (O Globo, online, 04/04).
O nosso país, o Brasil, ou seja, nós todos devemos dinheiro ao Ziraldo por causa de que ele, por livre e espontânea vontade, fez desenhos que criticavam o Presidente Figueiredo. Essa é a sua lógica. Lógica um tanto fora de órbita.
Ele publicou os desenhos. Recebeu por eles. Além disso, na época do regime militar, ficou até mais famoso por se dizer comunista. Chegou até a trabalhar na TV. Ele realmente foi impedido de desenhar? Mas quantos de nós não fomos impedidos de fazer um bocado de coisas? E muitas das coisas que fomos impedidos estavam diretamente relacionadas às nossas profissões. Ora, mas o que dá direito a uma pessoa que tem uma opção política exigir que todas as outras, alinhadas ou não com ela, lhe devam dinheiro por tal opção? Tudo bem, os brasileiros podem até pagar – são gente de boa índole. Mas todos os brasileiros são obrigados, também, a agüentar essa extrema arrogância de um senhor que, aos 75 anos, não sabe se comportar? Temos todos de ouvir que nosso país deve para o Ziraldo uma indenização, por conta dele ter optado por fazer algumas charges?
O dinheiro pode ser pago. A Justiça pós-ditadura caminhou assim. Não discuto isso, já disse. O que ponho em questão é o fato de a minha geração ter de engolir isso, essa decepção tardia, com alguém que acreditamos que era melhor do que os que estavam no comando da ditadura. Ora, mas com esse tipo de declaração, vemos que não era o caso. Vemos que Ziraldo não era herói nenhum, e que nem mesmo era ... cartunista. Um cartunista de verdade tem o impulso para desenhar que é o de todo artista autêntico – e o artista, como o filósofo, é alguém que corre riscos. Não pode jogar contra a nação que o homenageou as frases que jogou contra todos nós. O Brasil devia uma indenização a Ziraldo? Bom, agora a coisa virou: Ziraldo deve desculpas a todo brasileiro pelo que falou.
Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, site http://www.ghiraldelli.pro.br/


