19/06/2008

A ANPOF fez ... POF!


Não se deve nunca deixar um vereador do Maranhão ser Presidente da Repúblicam, pois corremos o risco dele não deixar de ser vereador. Falaram isso quando Sarney começou a errar e, além disso, quis o quinto ano na Presidência.


É uma boa lição. Nunca devemos achar que uma pessoa que não está à altura de um cargo vai “se superar”. A tendência é o contrário; o mais provável é ela diminuir o posto que ocupa. Foi assim que ocorreu na ANPOF, a Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia. É a sua realidade imposta a ela por dois últimos mandatos de gente pequena.


Houve bons tempos. O professor Bento Prado Jr. foi presidente. Depois, o professor Giacóia. E então, a professora Marilena Chauí. Nas três gestões, tudo correu bem. Eis que a ANPOF começou a crescer, e então, ser presidente da entidade passou a ser algo com alguma importância. Desde então, nenhum professor com alguma importância ocupou o cargo. Vereadores do Maranhão se agarram ali. Ou de qualquer outro estado – mas vereadores, não presidentes. Não tinham currículo para o cargo e, então, transformaram o cargo em algo menor. O que ocorre a partir daí foi triste: Primeiro, veio um garotão sabe-nada na presidência da entidade, um zero. Depois, um padreco arrependido. Não podia acontecer maior catástrofe.


A ANPOF segue de mal a pior. E Bento Prado disse que isso ia ocorrer. Eu até quis argumentar, mas ele insistiu: “Paulo, Paulo, esse pessoal aí não é do meio, não é propriamente gente da filosofia”. Bento não estava querendo defender qualquer coisa corporativa, ao falar "do meio". Ele tinha pavor de corporativismo e sindicato. Quando ele disse “essa gente não é do meio”, estava querendo dizer “é gente que não tem o gosto pela filosofia – fizeram um mistura de padrecos com garotões”. Bento era engraçado. Mas, fazendo graça, dizia verdades. Neste caso, estava certo. E só bem mais tarde é que entendi realmente o que ele queria dizer.


As reuniões da ANPOF perderam o caráter de um encontro entre pessoas voltadas para a filosofia. Virou um local de “fazer currículo”. Um texto lido, gaguejado, às vezes para ninguém, dá um pontinho no currículo, agora chamado de “Lattes” (e não morde). A diretoria prepara os “anais” e, então, também engorda seu currículo. E até pode conversar com o Ministro da Educação, dado que esse governo ridículo que aí está não tem noção do que é o saber, e se relaciona com as entidades ditas de intelectuais como quem se relaciona com sindicatos. E no caso, é isso mesmo! E a ANPOF é isso, um sindicatão de professores, não mais uma entidade de filosofia.


Percebi isso mais diretamente quando a direção resolveu aplicar a mim uma regra que nunca foi aplicaca a ninguém, com o objetivo claro de me arrancar do GT que fundei, o GT Pragmatismo e Filosofia Americana. Arrumaram o pretexto para dizer que eu não estava em programa de pós-graduação. Ora, será que eu não estava? Não perguntaram! A idéia era uma só: usar de argumento burocrático para fazer caça às bruxas. E eu sou uma bruxa que gostam de caçar, pois sou um filósofo independente, que tem acesso à mídia, que não escreve só textos técnicos. Além disso, causa ódio pois não tenho qualquer vontade de alimentar a academia com minha bunda na cadeira ou pegando dinheiro público dando aulinhas. Então, é claro que ficam com raiva. Além disso, um GT de Filosofia Americana e Pragmatismo, certamente não seria bem vindo mesmo. A filosofia americana de Rorty, Putnam, Davidson, Brandom e outros causa incômodo, pois não é nem filosofia analítica nem filosofia continental, é coisa independente.


Eu saí da universidade exatamente por causa disso. Meus últimos empregos em universidades, na UERJ, estatal, e na São Marcos, particular, me mostraram que era bobagem continuar tentando. A Universidade brasileira não pode permitir o pensamento filosófico. Então, já que a ANPOF havia também se descaracterizado, não imaginava ficar na entidade. De fato, estava para sair. Todavia, o modo como tentaram me tirar, diz muito da razão do Brasil não conseguir avançar no âmbito filosófico: há muitos que se candidatam a filósofos a partir de cargos, e não de saber, e então não conseguem ser filósofos e acabam mamando em cargos.


No Brasil, mesmo aqueles que ficam mais velhos e conseguiriam ter alguma independência, não possuem coragem para ter independência. Professores de filosofia da Universidade, em geral, funcionam com cabresto. E agem assim na ANPOF. Era isso que Bento queria dizer ao falar “não são gente do meio”. Sim, não são “gente da filosofia”, do pensamento livre. E eis aí que a ANPOF cresceu em número de pessoas nos Encontros, mas perdeu o charme e a importância, sendo que são muitos os mais velhos que, enfim, não tem mais o gosto de participar. Bento, infelizmente, mais uma vez, estava certo. A ANPOF fez ... pof!

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

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